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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


30 de ago de 2010

A vizinha


Todos já tiveram uma vizinha daquelas que a gente tem vontade de pegar. Sendo bem sincero, passamos por uma idade que temos vontade de pegar toda e qualquer menina da vizinhança, coisas de hormônios, alegam os especialistas. Comigo não foi diferente.

Em minha vizinhança, quando era pequeno, tinha uma família com três filhas. A mais velha era um verdadeiro avião e muito namoradeira. Mas não dava bola pra gente. Éramos muito criança pra ela. Enquanto ela já namorava e frequentava festinhas e bailes em outros bairros, só nos era permitido curtir festinhas na garagem de algum vizinho, onde os pais sempre podiam manter um olho na gurizada.

As duas irmãs, as mais novas, até que eram disputadas pela rapaziada da rua. Às vezes, algum felizardo conseguia dar uma namoradinha com uma delas, raridade das raridades. Só que namoradinha naquela época não era como hoje. Nem existia a tal história de ficar. Fazer sexo, então? De jeito nenhum. Coitada da menina que fizesse sexo. Não, namoradinha, era coisa para pegar na mão de dar uns beijinhos as escondidas.

Como não tínhamos idade para explorar outros bairros, a diversão ocorria sempre na casa de algum vizinho. A turma se reunia para ouvir música e bater papo. As festinhas de garagem, que comentei acima, ocorriam apenas em datas especiais. A conversa engrenava, e quando muito, lá pelas 10horas da noite tínhamos que ir para casa. Agora, caro leitor, você está conseguindo ter uma boa ideia da idade da rapaziada, algo como 13 ou 14 anos.

Foi em desses encontros, na casa das três irmãs, que eu tive a certeza de que meu coração era forte. Lembro bem que era um sábado à noite. É fácil saber que era sábado por que era o único dia da semana que eu podia sair. Estávamos sentados próximo a porta de entrada da casa quando a filha mais velha (o avião, a namoradeira) saiu do banho e desfilou de camisola perante a molecada. Era uma camisola lilás - lembro-me como se fosse hoje - transparente, permitindo que a molecada conferisse cada detalhe das curvas daquele avião.

Ver uma mulher de camisola era algo impensável, ainda mais naquela transparência. Era muita areia para toda a frota de caminhãozinho da gurizada. Permita-me, caro leitor, abdicar de qualquer referência as roupas intimas (sim, ela as usava e basta saber isso), pois é o tipo de indiscrição que não me permito.
Ouve um silencio geral, até constrangedor, quando ela, a deusa, passou ignorando solenemente aquele bando de moleques. Virou as costas, entrou no quarto e fechou a porta, deixando atrás de si uma matilha de espinhentos e imberbes desesperados.

Bastou um dos colegas se despedir para os demais enfileirarem e irem embora, ninguém quis ficar sozinho com as, então, disputas irmãs. Naquela noite, minha mãe não precisou gritar da janela me chamando. Muitos menos, me mandar pro chuveiro. Tão logo cheguei, peguei minhas coisas e fui “tomar meu banho”. Minha mãe precisou, sim, me mandar, umas três vezes, desligar o chuveiro. Acho que o foi o banho “mais bem tomado” em toda a minha infância/juventude, que só terminou com a ameaça de meu pai em invadir o banheiro e me tirar à força do chuveiro.

Tenho a impressão de que naquele sábado à noite o mesmo fato se repetiu na casa de todos os meus amigos. Para a felicidade das mães, todos foram dormir bem limpinhos.

Paulo Roberto Bornhofen

23 de ago de 2010

Maracanã, eu fui!


Todos que me conhecem sabem que não tenho a mínima intimidade com o futebol. Não nasci para os esportes. Não tenho time, não vou ao estádio, muito menos perco meu tempo em frente à TV para acompanhar uma partida. Tudo muda, porém, durante a copa. Dou-me o direito de assistir as partidas que o Brasil disputa, apenas estas.

Como certas coisas acontecem sem explicação, estou eu em pleno ano de 1989 no Maracanã assistindo ao jogo entre Brasil e Chile, pelas eliminatórias. O jogo que nunca terminou.

A chegada ao Maracanã já foi um deslumbramento, o movimento de pessoas, de carros, de ônibus, de tudo, era algo inigualável. Nunca tinha visto nada parecido com aquilo em minha querida Florianópolis, ou na minha nova paixão, a loira Blumenau.

Chegamos, entramos no templo do futebol e fomos procurar um lugar. O Maracanã estava lotado, com gente saindo pelo ladrão. Carioca é tudo gente boa, e logo nos arrumaram um lugar.

Pronto, era só esperar o apito inicial.

O jogo começa. A bola rolando e ao meu lado alguém acende um baseado. Não demora muito e me oferecem, recuso. A bola continua rolando e o baseado é substituído por um carreiro de cocaína, magistralmente arrumado em uma cédula. – Vou chamar a polícia. Alias, o policiamento era maciço no estádio. – Tá maluco, adverte meu colega. Vamos morrer aqui, fica quieto e assiste o jogo.

Sim, tinha o jogo. Voltei minha atenção para o campo, mas não por muito tempo. Começa uma briga no alto das arquibancadas. O estádio estava cheio, atulhado, mas eis que se abre uma clareira. Um dos envolvidos na briga desce correndo, se forma um corredor polonês, aonde o miserável vai passando, vai tomando porrada. Lá embaixo é socorrido por uma dupla de policiais e levado para fora. Mais alguns instantes e outra briga começa. Mal posso ver os policiais chegando e um deles leva um tabefe que a sua boina voa longe e cai direto no anel inferior. Não demora muito e os policias saem carregando os briguentos.

Retorno minha atenção para o jogo, afinal, era por ele que eu estava ali. Atrás da trave do Chile sobe um sinalizador. Sobe, sobe e começa a cair, devagarzinho. O povo acompanha. Puf, bateu no chão. O goleirão do Chile olha pra trás, onde havia caído o sinalizador, e se joga sobre o artefato.

Jogo parado. Vem médico, bandeirinha, todo o banco do Chile. Vira uma confusão. Todo o time, ou melhor, seleção do Chile se retira para o vestiário, abandonam o jogo.
O árbitro dá o jogo por encerrado. Fim de minha aventura futebolística. Esta é a minha experiência como torcedor, fui uma única vez ao templo maior do futebol brasileiro, o lugar onde nos idos de 50 o Brasil perdeu a final da copa do mundo. Eu, bem, que posso dizer? O jogo nem terminou.

Estou pensando em assistir alguns jogos na Copa de 2014 – apenas os da seleção brasileira, que fique bem claro – só para ver o que acontece. Alguém me acompanha?

Paulo Roberto Bornhofen

2 de ago de 2010

Eu, Parteiro!?

Certas coisas não combinam comigo. A paternidade é, sem dúvida, a principal delas. Não tenho qualquer afinidade com a natureza procriadora do chamado ser humano. Fui criado na doutrina cristã. Quando jovem, fui muito praticante, sendo coroinha – tá certo que foi só em uma missa – pertenci a grupo de jovens e ia à missa toda semana. Hoje, não mais pratico, a religião, apenas mantenho a minha fé.

Como cristão li a bíblia. Entendo que quando o Criador proferiu a sentença “crescei e multiplicai-vos”, Elo o fez para toda a humanidade em geral e não para cada casal em particular. É uma questão ecológica, obviamente. Alias, se algum ser pode se considerar ecologicamente correto, o Criador é este ser.

Pois bem, acho que todos entenderam que eu não tenho e nunca tive a mínima familiaridade com a arte da procriação. Resumindo, para os que ainda não entenderam, não tenho filhos! Ou melhor, que eu saiba, não os tive. Não sei o que é o convívio com uma mulher em estado de gravidez. Quando, em frente à TV, aparece uma cena de parto, confesso que fujo da sala, se minha esposa insistir em vê-la, ou mudo de canal, quando sozinho.

Mas, nem tudo na vida são flores. Vai que em meu serviço surge uma grávida. Foi interessante acompanhar o desenvolvimento deste estágio na vida daquela mulher. Vi-me envolvido em conversas totalmente estranhas ao meu imaginário. Coisas do tipo, o neném está com tantos centímetros, já pesa tanto, ontem mexeu, hoje está chutando muito, o pai anda meio bobo (acho que este estágio de bobeira atinge a todos os pais indistintamente).

Assim a vida seguia o seu destino, com aquela mulher aumentando de tamanho a cada dia. Cheguei até a imaginar que um dia o bebe tomaria todo o seu corpo, tamanha proporção que a criatura que estava ganhando. Até que, eis que determinada manhã me chega a futura mamãe, e sem pedir licença – muito menos avisar – comunica: a minha médica está me esperando hoje, a qualquer hora. É que a minha barriga está muito dura e sinto algumas dores. Disse, ainda, que era um tipo de preparo para as contrações, ou algo assim. Confesso (meu lado cristão novamente se manifestando) que meu estado de pavor já não me permitia prestar atenção a qualquer coisa. Para piorar, sim ficou pior, ela disse que havia tido um sangramento.

A casa literalmente caiu. Um terror se apoderou de mim. Meu Deus, o que eu vou fazer? E se essa mulher resolve dar a luz agora? Um universo de possibilidades, todas catastroficamente medonhas, assombrava minha lucidez, ou o que sobrou dela. – Te arranca pro médico, vai cuidar dessa criança, disse eu. Para minha felicidade fui rapidamente atendido, o que permitiu a minha salvação. Graças ao bom Deus, que em Sua infinita sabedoria, livrou aquela criança de vir ao mundo sob os meus cuidados. Amém e que assim seja, para o todo e sempre!

Paulo Roberto Bornhofen