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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


1 de set de 2008

A tentação senta ao lado

Ser um marido fiel não pode funcionar como agravante ou como atenuante para certas práticas masculinas, muito menos ser usada como bandeira ou motivo para vangloriar-se mundo a fora. Afinal de contas não se pode ser fiel por obrigação ou temor, mas por convicção. Ocorre que ser fiel não é tarefa fácil e vez por outra nossa fidelidade é colocada à prova. Algumas provas são fáceis e as superamos sem mais esforços, mas outras são terríveis e exigem todo o nosso empenho, e temos de enfrentá-las solitariamente.

Nas situações menos prováveis, nos momentos mais inusitados, ou não, a tentação se apresenta, mostrando suas afiadas garras prontas para cravarem em nossas costas como se fossem o resultado de uma frenética noite de amor compartilhada com a mais entusiasta das amantes. Mesmo não sucumbindo as suas investidas, o jogo que se forma pode se revelar muito atraente, portanto envolvente. A atmosfera em que mergulham os participantes é por demais inebriante para ser ignorada. Participar desse jogo, que envolve uma sedução velada com um forte viés ostensivo, porém camuflado é uma experiência que engrandece e fortifica elevando o moral de qualquer um, de sorte que não merece ser negligenciado.

Tendo já passado por algumas dessas situações, posso afirmar que de forma tranqüila me desvencilhei das mesmas sem qualquer arranhão, no sentido literal ou figurativo. Mas eis que nem sempre conseguimos controlar as situações e nesse caso travamos ferrenho combate para não sermos dominados sucumbindo a ela. Ter que resistir a especificas tentações somente com muita disciplina. Principalmente se a tentação sentar ao seu lado, tiver um belo par de olhos verdes, que não apenas te fitam, mas disparam raios em sua direção como que querendo te fulminar, no mais doce dos sentidos, a cada momento. Até pode ser que a intenção não seja essa, mas não encontro outra forma de descrever a experiência de ter um desconcertante par de olhos verdes a poucos centímetros de você, vivamente te observando. Sem comentários, simplesmente é sem comentários. Harmonizando com estes olhos existe um lindo sorriso, daqueles maroto, descompromissado, que apresenta um discreto charme como que um convite ao pecado. Como tentação pouca é bobagem, para completar o quadro, temos um belo corpo. Querer enveredar pelo caminho de descrever aspectos que envolvem a anatomia corporal feminina é algo que deve ser evitado, pois quando a emoção se sobrepõem a razão, corremos o risco de cometer algumas derrapadas que podem nos levar ao caminho deplorável da vulgaridade. Então, de forma resumida, é algo que não apenas nos tira o sono, mas faz sonhar acordado o mais convicto dos guerreiros. Naquele corpo tudo é na medida certa, por isso me dou o direito de ser minimamente audaz e tecer um leve comentário ao seu abdômen, e apenas a ele. Sequer ouso usar o termo “barriga”, pois seria um sacrilégio, de tão bem tratada que é. Para piorar meu sofrimento, a nossa protagonista abusa em seu figurino das muito bem vindas vestes que permitem ao mais inocente observador, no caso eu, se deliciar com a visão, mesmo que parcial, de seu maravilhoso abdômen, é do tipo que ao mesmo tempo em que nos tira o fôlego, nos leva e emitir um desesperado e silencioso suspiro.

Diante de tanta generosidade, que lhe brindou a natureza, se torna lugar comum que a nossa deslumbrante protagonista, desperte a atenção dos mais ferozes devoradores de ilusão. Sendo bem claro, os “tarados” ficam em estado de euforia diante da possibilidade de literalmente abaterem mais uma presa. Quanto aos não tarados, aqueles mais comedidos em externar suas intenções, esses também não estão conseguindo segurar as emoções. Criou-se um ambiente de “disputa entre machos”. Disputa que se acirrou quando em um daqueles momentos mágicos, quando ficamos procurando uma resposta e não a encontramos, fui brindado com o privilegio de poder compartilhar de sua companhia. Não um dia, ou dois, mas por dias a fio. Imediatamente alguns dos mais decididos apontaram o seu dedo em nossa direção lançando suas infundadas acusações de envolvimento, envolvimento que no entender deles transcenderia ao imaginário. Mas nada disso aconteceu. Como se tivemos combinado, fomos deixando a brincadeira continuar, permitindo que nossos algozes, erroneamente, continuassem a pensar que havia algo no ar. Se bem que havia, mas era uma cumplicidade sem maldade. Foi criando-se uma situação em que foi possível libertar o adolescente que carrego comigo.

Mas as disputas podem ser ferozes, e alguns dos contendores acabam por fazer uso de subterfúgios nada cavalheirescos, criando situações que seriam trágicas se não fossem cômicas, que prefiro ignorar, talvez dedique algumas crônicas especificamente para eles. E, assim os dias foram evoluindo. De minha parte podia sentir acusações veladas, e que fique bem claro, infundadas, de envolvimento. É difícil para algumas pessoas acreditarem e aceitarem que possa existir algum tipo de relação mais profunda entre um homem e uma mulher, sem que o mesmo invada caminhos perigosos. Para eles uma bela amizade não pode existir, mesmo que regada e alimentada diariamente por uma forte convicção e uma resistência ferrenha à doce tentação do pecado. Quanto a minha participação, ela vai se restringindo a mais pura e descompromissada contemplação, de tudo o que eu já descrevi, e que agora se vê diante de um enorme desafio a ser vencido. Como se não bastasse os belos predicados de que ela é portadora, alguns já aqui descritos e outros que ficarão para que a imaginação do leitor possa trabalhar um pouco mais. De forma surpreendente, se me permitam, vou omitir como aconteceu, mas pude constatar que a mesma tem em local estratégico – na nuca – uma singela e irresistível marca de nascença, um safado de um sinalzinho. Sinto que última fronteira da minha resistência está fragilizada e que se despedaça a cada momento. Aja forças!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2006

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