Páginas

Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


1 de set de 2008

Discurso de posse na Academia de Letras de Canelinha

BERTOLDO MANOEL CIRILO

Senhoras e senhores, boa tarde. Gostaria de saudar de forma especial os colegas escritores que hoje tomam posse na Academia de Letras de Canelinha. É uma grande honra poder fazer parte deste momento tão grandioso quando a Academia de Letras de Canelinha é instalada e sou agraciado como sendo um de seus integrantes através da cadeira de número treze que tem como patrono Bertoldo Manoel Cirilo, ilustre filho desta terra.

Bertoldo Manoel Cirilo, é natural de Canelinha (Centro do Moura), nascido em 08de junho de 1924. Filho de Manoel Marcos da Silva e Jovina Amélia Marcos. Viveu até casar-se, no Moura, tendo trabalhado na agricultura e pecuária. Casou-se com Benina Simas Cirilo, indo então morar em Canelinha, exercendo a profissão de comerciante. Teve 8 filhos, sendo que 5 ainda vivos.

Iniciou-se na política como vereador. Foi eleito como representante do distrito de Canelinha junto à câmara de vereadores do município de Tijucas. Em 3 de dezembro de 1962, através da lei 855, pelo então governador Celso Ramos, foi criado o município de Canelinha que foi desmembrado de Tijucas, tendo sido nomeado prefeito provisório. Em abril de 1963, afastou-se do cargo para concorrer as eleições municipais de outubro, sagrando-se vencedor pelo partido do PSD.

Como prefeito, sua batalha foi árdua, pois tudo estava para ser feito e os recursos eram precários. Teve grande apoio e ajuda do deputado Valter Vicente Gomes e do governador Celso Ramos.

Sua maior obra foi abrir estradas, ligando assim a área rural ao centro, dando condições do escoamento da produção agrícola. Conseguiu também a construção de escolas por todo o interior, inclusive a principal delas, de 1ºgrau Tomé de Souza.
Mais tarde fixou residência em Tijucas permanecendo até sua morte ocorrida em 05 de maio de 1989.

Para fazer jus a confiança em min depositada pela comunidade das letras de Canelinha peço ao Grande Arquiteto do Universo, o nosso Deus, que me ilumine. A todos, muito obrigado!

Canelinha, 20 de julho de 2008

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Discurso de posse na Academia de Letras Blumenauense

Fritz Muller

Digníssimas autoridades já citadas pelo cerimonial, ilustres convidados, nobres acadêmicos, colegas neófitos que comigo partilham deste momento mágico e solene em que somos admitidos no seio desta ilustre instituição cultural, senhoras e senhores, boa noite.

Brindou-me o destino, através da ação dos agora colegas acadêmicos, com a honra de ter como patrono, Fritz Muller. Aquele cuja obra, nas palavras de Roquette Pinto, pela sua originalidade e alcance filosófico, pela repercussão que teve, é um dos maiores monumentos científicos criados na América do Sul.
Johan Friedrich Theodor Mueller nasceu em 31 de março de 1822 na Alemanha. Faleceu em 21 de maio de 1897, aos 75 anos em Blumenau. Filho de um pastor e uma dona de casa, foi o mais velho de cinco irmãos. Tanto da parte de pai, como da mãe a família era talentosa nas ciências, sendo formada por inúmeros intelectuais.

Em 1841 matriculou-se na Universidade de Berlim onde se dedicou especialmente à matemática e à história natural. Seu raro talento para o desenho já chamava a atenção.

Em 14 de dezembro de 1844, aos 22 anos de idade, obtinha o grau de Doutor em Filosofia com a tese "Sobre as sanguessugas da região de Berlim".

De acordo com Cezar Zillig, sem ter grande simpatia pela Medicina, Fritz Müller resolveu estuda-la. Tencionava ser médico de bordo a assim realizar seu sonho de conhecer terras distantes e ver como a natureza nos trópicos se apresentava. Jamais recebeu seu diploma de medicina por negar-se a fazer um juramento, que julgava falso, por conter conteúdo religioso incompatível com suas convicções.

Em 1848, aos 26 anos, veio a encontrar a que seria a companheira de sua existência Karoline Tüller, oficializando sua união no ano seguinte.
Conheceu Dr Blumenau na casa de seu tio. Como Dr Blumenau era um entusiasta do Brasil, convenceu Fritz Muller a vir ao nosso país e não ao Chile como tencionava.

Em 17 de maio de 1852, com 30 anos de idade, embarca, com seu irmão August, a bordo do Florentin para São Francisco do Sul. Viveu 11 anos em Desterro e 34 em Blumenau.
Ainda, de acordo com Roquette Pinto a relação de trabalhos científicos de Fritz Muller, publicados de 1844 até 1899, portanto dois anos após o seu falecimento conta com 248 memórias ou monografias, faltando noticias de mais 11 originais até hoje perdidos. Gozava de grande reputação entre a comunidade científica da época principalmente após a publicação de sua obra Pró Darwin.

Com este trabalho Fritz Muller mostrou que o desenvolvimento embriológico individual representa uma curta e rápida recapitulação do desenvolvimento histórico das raças, apresentando uma prova concreta das concepções da teoria da evolução das espécies através do mecanismo de seleção natural de Charles Darwin. Fritz Muller realizou suas pesquisas com larvas de crustáceos colhidos na costa catarinense.
Com Darwin estabeleceu forte relação científica, através da troca de correspondência.

Peço permissão à Fritz Muller para, usando da liberdade de criação dos escritores, afirmar que encontro uma similaridade entre nossas existências. Não nascemos em Blumenau, mas é aqui e daqui que construímos nossas carreiras. Ele como naturalista e eu como oficial da Polícia Militar de Santa Catarina.

Por isso, rogo ao Grande Arquiteto do Universo, Autor de todas as coisas que me ilumine para que possa honrar o nome de Fritz Muller e a cultura através das letras.
Obrigado a todos!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
14/04/2008

Candonga – histórias para não serem contadas

Que a vida é feita de surpresas não é novidade para ninguém. Mas, certas situações devem ser esquecidas, pois a surpresa transcende o nosso entendimento. Certa ocasião fiz parte de um grupo de estudos que se deslocou para a localidade de Candonga, no município do Morretes, litoral do Paraná. Uma comunidade bastante gentil que nos recebeu fidalgamente e cujas pessoas só nos deixaram boas lembranças.

Ocorre que em um desses desatinos do destino que provoca um desencadeamento de eventos mórbidos, nossa visita quase fica marcada pela tragédia. De minha parte, tenho uma propensão para problemas digestivos já tendo algumas passagens por hospitais. Um assunto verdadeiramente terrível de ser tratado, não tanto quanto a ser vivido, mas de toda forma deplorável.

Em uma espécie de “van premiere” participamos, no dia anterior, de um almoço, muito bem servido por sinal – faço alusão ao almoço apenas para esclarecer que foi isso que provocou toda a série de eventos, que por infelicidade tiveram a comunidade de Candonga como arena.

Nosso deslocamento até a comunidade foi em um microônibus com direito a todas as sandices que só aos alunos é permitido, principalmente quando os professores estão ausentes. E olhe que éramos alunos de mestrado.

Chegando a comunidade fomos muito bem recebidos, saboreamos um almoço divinamente preparado com produtos orgânicos, bem ao estilo “natureba”.

Antes de dar prosseguimento, cabe aqui uma ressalva. Eu não faço o estilo “homem-interagindo-com-a-natureza”. Ao contrário, sou bem urbano. Dessa forma a simples expectativa de passar um fim de semana no meio do mato, convivendo com a vida silvestre, ou não silvestre, era algo que não me atraia. Tentei convencer alguns colegas para irmos de carro para que assim pudéssemos dormir em Curitiba, mas foi em vão. Tudo conspirava contra mim, e era só o começo. O mal estava começando a ganhar forma, o perverso estava sendo gerido e logo mostraria toda a sua força.

Na tentativa, inútil, de tornar a minha incursão ao desconhecido o mais próximo possível de minha alegre e confortável vida urbana, tomei alguns precauções, do tipo, levar um bom sortimento de material de higiene pessoal, alguns medicamentos estrategicamente escolhidos, meu secador de cabelos e um item de extrema importância, um surrado – e por isso mesmo acolhedor – pijamas, que como a maioria dos meus pijamas, era de seda. O fiz livre de qualquer maldade, mas paguei elevado preço por tamanha ousadia. Minhas colegas, sempre a ala feminina, descobriram e logo virei motivo de brincadeiras. O mal começa a ganhar músculos, mas ainda se mantinha adormecido. Em uma incursão rápida pelos cômodos notei que no banheiro faltava um singelo espelho, para que eu pudesse fazer a minha barba, aquela de todos os dias. Mais uma vez inocentemente cai em desgraça. Tive a insensatez de registrar, mesmo que de forma sutil, minha decepção com a ausência de tão simples, mas importante instrumento das lides diárias com a higiene. Novamente estava eu no centro das atenções. O mal espreitava, não mostrava suas garras ainda, mas dava indicativos de que estava presente e logo cobraria seu quinhão.

Após o almoço uma das colegas começou a sentir certo desconforto, que rapidamente progrediu para um estado de completo mal estar que se fazia acompanhar por dores. A seguir outro colega foi acometido do mesmo problema. Agora o mal já não se escondia, agia ostensivamente, mas não amplamente. Havia apenas eleito alguns e guardava sua plenitude para mais tarde. A apoteose ainda estava por vir. Assim seguimos pelo dia e a noite se apresentou. Um jantar, tão bom quanto foi o almoço, nos esperava. Após saborearmos os alimentos que pudemos sentir foram preparados tendo como ingrediente especial o amor e o carinho, no dirigimos para um local conhecido como espaço xamânico, obviamente numa alusão aos seres não-corporeos da floresta.

Rapidamente uma fogueira foi providenciada e demos inicio a uma roda de histórias fantásticas, recheadas de muita mentira, obviamente. Era o momento certo, tenho convicção de que era isso que o mal havia esperado durante todo o dia. Algo começou a se manifestar em mim. Uma sensação que começou quase despercebida e rapidamente foi tomando volume, me jogando em um ambiente que mistura o real e o fantástico, o extraordinário, sendo impossível separar um do outro. Como os demais colegas estavam se divertindo, resolvi deitar-me em um banco e não exteriorizar o que estava me acometendo. Os sinais eram claros de que algo terrível estava para acontecer, era apenas uma questão de tempo. Uma terrível dor aflorou, e eu desejava do fundo de minha alma que fosse algo passageiro, mas eu sabia que não era. Lá pelas tantas o grupo resolveu se recolher e fomos para os alojamentos. Ao tentar usar o banheiro fui tomado por forte pavor: parada na parede estava um representante dos aracnídeos, terrível aranha, que a minha ignorância classificava como da espécie das armadeiras. Mais tarde um colega confirmou que eu estava certo, e com uma série de golpes certeiros reduziu o terrível animal à condição de meros restos mortais, o mal sutilmente mostrava suas garras.

Tive tempo para um banho e pude fazer uso de meu secador. Após, procurei em meus pertences um medicamento e fiz uso dele na esperança de que o mesmo me garantisse uma noite tranqüila. Estava redondamente enganado. Nem tive tempo de cerrar os olhos e minha agonizante noite de reinado teve inicio. Não sei ao certo quantas vezes visitei o trono, mas foram muitas e dolorosamente desagradáveis.
Pela manhã tive a confirmação de que mais uma colega tinha sido vitima. Agora éramos quatro. Ignorava a realidade dos demais, mas eu começa a entrar em um estado de pré-agonia. Meu corpo, mais precisamente minhas entranhas, era palco de uma feroz batalha entre as forças do mal e as do bem, com larga vantagem para o mal, obviamente. Constantemente eu era acometida das mais estranhas e variadas sensações. Estava já em estado avançado de debilidade física. Meu psicológico, até agora preservado, era fortemente fustigado. Sim, meu moral estava abalado, pelo menos o que sobrara dele. Alguns colegas se solidarizavam comigo, outros solenemente me ignoravam. Meses mais tarde fiquei sabendo de que achavam que eu estava com “manhas”, tal qual um bebê chorão que perde o bico e clama pela mãe protetora. Não guardo mágoas, pois sei que não agiram guiados pela fraqueza das intenções. Mas, com certeza o mal, indiretamente, agia através deles para me fustigar mais ainda.

Diante da terrível situação foi sugerido que abortássemos nossa pesquisa de campo e retornássemos o mais rapidamente para Blumenau. Em um desses lampejos terrivelmente extraordinários do destino, foi delegada a mim, por meus colegas, a tomada de decisão. Mesmo acometido de terrível provação, busquei no meu intimo o que me sobrava, não de forças, mas de lucidez e assumi a responsabilidade decretando o fim da empreitada. Mas não era o fim do tormento. Tínhamos todo o caminho de volta por fazer.

Um dos momentos mais terríveis de minha existência se aproximava. Sentado, ou melhor, jogado em um banco de microônibus. Não me é confortável confessar que meu refrescante banho matinal foi vergonhosamente negligenciado, o da noite teria que me garantir. Com a barba por fazer. Usando um abrigo esportivo, algo quase impensável para mim, uma camiseta que insistia em subir pela minha inchada barriga. Na classificação de uma colega, forçando um estilo “baby look”, deixando a mostra às marcas do elástico, produzidas pelo agasalho, e um umbigo sobressaltado pela pressão interna do abdômen. Assolado por extraordinárias cólicas, tentava, nos raros momentos de lucidez me recompor, mas sem sucesso. Sentia pena de mim mesmo, ali reduzido ao máximo da incompetência que se fazia sentir não apenas na estética, mas acima de tudo na capacidade de reação. Estava atingindo um estado perigoso de esgotamento físico. Agora sim, o mal se banqueteava como em um festim diabólico, digno de um Hitchcock. Seu reinado era quase absoluto, seu triunfo estava perto, mas teria que retroceder, afinal de contas o bem sempre vence, e comigo não seria diferente. E, eu desejava isso.

Para minha alegria fizemos uma parada em um hospital, onde por cerca de uma hora e meia recebi medicação intravenosa, o que aliviou meu sofrimento e pela primeira vez vislumbrei que o mal estava perdendo forças, eu poderia e iria vencer mais esta batalha. Tempos depois fiquei sabendo que durante o meu trajeto de volta fui brindando meus colegas com terríveis gemidos. Com toda a certeza era o complemento para o quadro fantasmagórico em que me transformara. Espero que meus colegas tenham entendido que os sons por mim produzidos eram involuntários e na verdade era o eco de terrível batalha que se desenrolava tendo como palco o interior de meu frágil e debilitado corpo. Não era uma simples batalha, pois sentia como se as forças do mal que estavam adormecidas desde o primórdio dos tempos, haviam decidido que era hora de se libertarem. Assim sendo, o fariam através do meu frágil corpo, ceifando a minha existência se isso se fizesse necessário.

Por muito tempo tentei escrever algo que pudesse refletir de forma fidedigna o que se passou naquele terrível fim de semana. Nunca tinha conseguido, me faltavam palavras e a capacidade de raciocínio fugia velozmente. As lembranças boas eram logo suplantadas pelo terror. Só agora consegui romper esse trauma e para tanto tive a ajuda de duas colegas. Elas, vendo que eu não conseguia me libertar das amarras terríveis que ainda prendiam o meu intelecto, me sugeriram que eu tentasse escrever sobre aquilo que me incomodava. É algo meio maluco, mas surpreendemente funcionou.

Confesso que tentei, mas fui incapaz, me senti verdadeiramente incompetente para reproduzir fidedignamente tudo aquilo por que passei. Penso que para poupar, aqueles que desse texto se apropriarem, das terríveis experiências que naquele curto espaço de tempo vivenciei, não fui capaz de narrar a verdade dos fatos. Somente de forma sutil e superficial consegui digitar essas linhas.

Enquanto me dedicava à produção desse singelo texto, senti que não estava só. As terríveis lembranças daqueles momentos irão me acompanhar durante todo o resto da minha existência. O mal foi vencido, mesmo que momentaneamente, mas deixou marcas profundas que o tempo não será capaz de ceifar.
Esse texto foi elaborado sob o forte impacto de terríveis lembranças que eu nem imaginava sequer ter vivido e acima de tudo de ser capaz de sobreviver a elas. Tive inúmeras motivações para não termina-lo e só o fiz em homenagem aos meus colegas que assim como eu foram, viram, sentiram, sofreram e sobreviveram. A eles rendo minhas homenagens.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2007

A palestra

Findando nosso curso MBA – Gestão Estratégica de Organizações – já estava começa a bater aquela “depre”. Por mais cansativo que possa ser ter que enfrentar um dia inteiro de aula, e no sábado, a companhia dos colegas superava qualquer obstáculo.

Fugindo a regra, tivemos aula na sexta-feira à noite. Este fato proporcionou que encerrada a aula, um grupo de formandos se dirigissem a cachaçaria para um brinde em honra a mais esta etapa que estava sendo vencida.

O curso havia iniciado com chave de ouro – aula magna proferida pelo Prof. Dr. Riccardo Riccardi – e estava encerrando da mesma forma; ou seja, o módulo era ministrado pelo mesmo Prof. Dr., agora já tratado como o nosso amigo.

Sábado às 08:30 estavam todos os alunos, mesmo aqueles que tinham ido ao encontro de Baco (na ausência de vinho, o mesmo foi substituído por cachaça e chope). Inexplicavelmente o nosso amigo, encarregado de dar a aula, se atrasou. Algo raro, que não passou despercebido por nenhum dos alunos. Porém, nenhum de nós teve a sensibilidade de captar que aquele atraso era um sinal. Sim um sinal, algo de terrível estava para nos acontecer. Ainda naquela manhã seriamos atingidos por algo que chocaria a todos. Inexplicáveis forças atingiriam a totalidade dos alunos e também o nosso ministrante.

Por volta das 10:30 entra um dos diretores da instituição e se apossa do restante da aula, expulsando o professor, pois tinha que tratar da nossa monografia. Tudo bem, já que a primeira parte do curso estava praticamente concluída, se bem que já tínhamos tido outros encontros, e alguns desencontros, sobre a tal monografia. Mas o que estava por vir nenhum dos alunos, em sua mais sombria imaginação, conseguia prever. Por mais de uma hora fomos bombardeados com uma palestra, que podemos classificar como sendo algo um tanto quanto “funéreo-filosófico”.

O nosso palestrante iniciou sua preleção com um tom de voz fúnebre, como que a anunciar a morte de um ente querido, daqiueles muito querido mesmo. Para nosso desespero, este tom foi mantido até o fim, sendo que o anuncio da tal morte nunca veio, mas o tom funesto impregnou todo o ambiente. Ficamos meio sem saber o que era pior, o anuncio de uma morte, ou a manutenção daquela situação desconfortante.

A conversa, ou melhor, a palestra, trilhou vários caminhos, adentrou por várias vertentes, tomou vieses um tanto quanto distintos. Sendo um pouco audacioso, eu diria que foi um tanto quanto questionável, já que estava regada de muita bazófia. Vagou do filosófico ao deletério. Hora atingia alturas inimagináveis, horas descia a precipícios inalcançáveis. Entre uma oscilação e outra, posso afirmar que jamais coincidiu com a freqüência na qual os alunos estavam vibrando. Desta forma fica fácil entender que houve um choque.

Naquele ambiente, sem receio algum, que podia ser classificado como constranger, os alunos trocavam olhares. Inicialmente, para manter um certo grau de civilidade, os olhares eram tímidos. Talvez bem lá no íntimo todos esperavam que a palestra fosse ser curta, que tivesse vida breve. Diria até que contaminados pelo tom tétrico da fala, muitos desejavam o fim. O fim daquela situação.

Como que em um crescente, na proporção direta do tempo, os olhares passaram a ser ousados. Em muitos, se podia ver o compartilhamento de uma única interrogação: o que isto significa? E em todos os rostos estava estampada a resposta: não sei! Apenas uma pessoa poderia responder esta que se tornou a grande interrogação, e era o palestrante. Inexplicavelmente ao findar a palestra, em um ato derradeiro, veio o golpe fatal, a resposta nos foi negada!

Assim ficamos todos, sem nada entender. Plagiando o palestrante, não sei se foi eu; usando o meu lado psicológico; ou se foi nós, usando o nosso lado sociológico, que não entendemos nada. Eu prefiro uma terceira via e diria que foi ele, usando o nosso lado escatológico, que não sabia para que veio, ou se sabia, escondeu de todos.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2005

A tentação senta ao lado

Ser um marido fiel não pode funcionar como agravante ou como atenuante para certas práticas masculinas, muito menos ser usada como bandeira ou motivo para vangloriar-se mundo a fora. Afinal de contas não se pode ser fiel por obrigação ou temor, mas por convicção. Ocorre que ser fiel não é tarefa fácil e vez por outra nossa fidelidade é colocada à prova. Algumas provas são fáceis e as superamos sem mais esforços, mas outras são terríveis e exigem todo o nosso empenho, e temos de enfrentá-las solitariamente.

Nas situações menos prováveis, nos momentos mais inusitados, ou não, a tentação se apresenta, mostrando suas afiadas garras prontas para cravarem em nossas costas como se fossem o resultado de uma frenética noite de amor compartilhada com a mais entusiasta das amantes. Mesmo não sucumbindo as suas investidas, o jogo que se forma pode se revelar muito atraente, portanto envolvente. A atmosfera em que mergulham os participantes é por demais inebriante para ser ignorada. Participar desse jogo, que envolve uma sedução velada com um forte viés ostensivo, porém camuflado é uma experiência que engrandece e fortifica elevando o moral de qualquer um, de sorte que não merece ser negligenciado.

Tendo já passado por algumas dessas situações, posso afirmar que de forma tranqüila me desvencilhei das mesmas sem qualquer arranhão, no sentido literal ou figurativo. Mas eis que nem sempre conseguimos controlar as situações e nesse caso travamos ferrenho combate para não sermos dominados sucumbindo a ela. Ter que resistir a especificas tentações somente com muita disciplina. Principalmente se a tentação sentar ao seu lado, tiver um belo par de olhos verdes, que não apenas te fitam, mas disparam raios em sua direção como que querendo te fulminar, no mais doce dos sentidos, a cada momento. Até pode ser que a intenção não seja essa, mas não encontro outra forma de descrever a experiência de ter um desconcertante par de olhos verdes a poucos centímetros de você, vivamente te observando. Sem comentários, simplesmente é sem comentários. Harmonizando com estes olhos existe um lindo sorriso, daqueles maroto, descompromissado, que apresenta um discreto charme como que um convite ao pecado. Como tentação pouca é bobagem, para completar o quadro, temos um belo corpo. Querer enveredar pelo caminho de descrever aspectos que envolvem a anatomia corporal feminina é algo que deve ser evitado, pois quando a emoção se sobrepõem a razão, corremos o risco de cometer algumas derrapadas que podem nos levar ao caminho deplorável da vulgaridade. Então, de forma resumida, é algo que não apenas nos tira o sono, mas faz sonhar acordado o mais convicto dos guerreiros. Naquele corpo tudo é na medida certa, por isso me dou o direito de ser minimamente audaz e tecer um leve comentário ao seu abdômen, e apenas a ele. Sequer ouso usar o termo “barriga”, pois seria um sacrilégio, de tão bem tratada que é. Para piorar meu sofrimento, a nossa protagonista abusa em seu figurino das muito bem vindas vestes que permitem ao mais inocente observador, no caso eu, se deliciar com a visão, mesmo que parcial, de seu maravilhoso abdômen, é do tipo que ao mesmo tempo em que nos tira o fôlego, nos leva e emitir um desesperado e silencioso suspiro.

Diante de tanta generosidade, que lhe brindou a natureza, se torna lugar comum que a nossa deslumbrante protagonista, desperte a atenção dos mais ferozes devoradores de ilusão. Sendo bem claro, os “tarados” ficam em estado de euforia diante da possibilidade de literalmente abaterem mais uma presa. Quanto aos não tarados, aqueles mais comedidos em externar suas intenções, esses também não estão conseguindo segurar as emoções. Criou-se um ambiente de “disputa entre machos”. Disputa que se acirrou quando em um daqueles momentos mágicos, quando ficamos procurando uma resposta e não a encontramos, fui brindado com o privilegio de poder compartilhar de sua companhia. Não um dia, ou dois, mas por dias a fio. Imediatamente alguns dos mais decididos apontaram o seu dedo em nossa direção lançando suas infundadas acusações de envolvimento, envolvimento que no entender deles transcenderia ao imaginário. Mas nada disso aconteceu. Como se tivemos combinado, fomos deixando a brincadeira continuar, permitindo que nossos algozes, erroneamente, continuassem a pensar que havia algo no ar. Se bem que havia, mas era uma cumplicidade sem maldade. Foi criando-se uma situação em que foi possível libertar o adolescente que carrego comigo.

Mas as disputas podem ser ferozes, e alguns dos contendores acabam por fazer uso de subterfúgios nada cavalheirescos, criando situações que seriam trágicas se não fossem cômicas, que prefiro ignorar, talvez dedique algumas crônicas especificamente para eles. E, assim os dias foram evoluindo. De minha parte podia sentir acusações veladas, e que fique bem claro, infundadas, de envolvimento. É difícil para algumas pessoas acreditarem e aceitarem que possa existir algum tipo de relação mais profunda entre um homem e uma mulher, sem que o mesmo invada caminhos perigosos. Para eles uma bela amizade não pode existir, mesmo que regada e alimentada diariamente por uma forte convicção e uma resistência ferrenha à doce tentação do pecado. Quanto a minha participação, ela vai se restringindo a mais pura e descompromissada contemplação, de tudo o que eu já descrevi, e que agora se vê diante de um enorme desafio a ser vencido. Como se não bastasse os belos predicados de que ela é portadora, alguns já aqui descritos e outros que ficarão para que a imaginação do leitor possa trabalhar um pouco mais. De forma surpreendente, se me permitam, vou omitir como aconteceu, mas pude constatar que a mesma tem em local estratégico – na nuca – uma singela e irresistível marca de nascença, um safado de um sinalzinho. Sinto que última fronteira da minha resistência está fragilizada e que se despedaça a cada momento. Aja forças!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2006

As tentações da boa mesa

Na nossa região, quando o frio vai chegando, é dada como por aberta a temporada de feijoada. Os restaurantes disputam os amantes de bom feijão com outdoors espalhados pela cidade. São promoções e promoções. Clubes se organizam para confraternizarem seus associados em torno de uma bela e farta feijoada. Muitas entidades assistenciais promovem as suas para levantar fundos destinados a suas obras sociais. Estas últimas são bastante interessantes. Mesmo sendo “feijoadas assistenciais” a qualidade é de primeira e a gente sempre encontra muitos conhecidos e um grande número de desconhecidos.

Dia destes eu fui com um amigo a uma delas. Como minha esposa não pode ir, fomos os dois um pouco mais cedo e a esposa dele deixou para ir mais tarde. Quando chegamos, pouco depois das 1100 Hs havia pouca gente. A equipe que estava encarregada era quase toda nossa conhecida. Fizemos uma ronda para cumprimentar a todos, o pessoal da cozinha, do bar e do “caldinho”.

Resolvemos começar pelo caldinho, um pouco de vodka no fundo da caneca de barro, que logo foi coberto pelo caldo de feijão. É uma delicia, um verdadeiro néctar, mas tem que saber dosar a vodka. Como erramos a mão da primeira vez, tivemos que repetir e assim conseguimos acertar. Depois veio aquela caipirinha, pois toda feijoada que se preze tem que ter por companhia uma brasileiríssima caipirinha. Agora já haviam mais convivas e o clima estava começando a ficar bom.

Não sei porque mais os homens bem casados, como eu e meu amigo, quando estão sozinhos, ficam como aquele cachorro que passa a vida toda preso a coleira e quando é solto corre, corre, corre e não sabe o que fazer com a liberdade. Não pode abusar, muito menos fazer besteira, pois sabe que a coleira o esta esperando. Para ser bem sincero, ninguém foi com a intenção de fazer bobagens, e não fizemos. Mas acontece que não eram apenas nós que estávamos sós. De repente havia um monte de mulheres desacompanhadas.

Como não tínhamos muito o que fazer, começamos a observar o público feminino, que era de muito boa qualidade. De repente veio em nossa direção uma bela mulher, usando um jeans bem justo, demarcando o que pode facilmente ser classificado com um corpão. Harmonizando o conjunto, uma blusa branca, do tipo camisa masculina. Não era nenhuma jovem, talvez por isto seu belo corpo chamava atenção. Veio e passou direto, indo sentar-se a mesa ao nosso lado. Discretamente pude observar que havia um casal de idade já avançada, talvez os pais, e um garotinho, grande possibilidade de ser o filho. Mas a mulher era bem dotada. Era só ela que se levantava para buscar bebidas e outras coisas, e como levantava e se movimentava. Sempre passando pela nossa mesa. Não tínhamos como não olhar.

O sacrifício era imenso. Não era porque estávamos desacompanhados que iríamos tomar certas liberdades e fazer um papel um tanto quanto ridículo. Mas não tinha como evitar. Volta e meia e lá estava ela. Hora de pé, hora debruçada por sobre a mesa, e de costas para nós, naquela posição altamente comprometedora. Dá para imaginar o tamanho do sofrimento. A situação era tão surreal que já estava se tornando cômica.

Logo a feijoada foi servida e a loira e seus acompanhantes foram se servir. Para variar passaram por nossa mesa. Para minha surpresa - a senhora, que imagino ser a mãe - ao passar por nós, sorriu. Bateu o desespero. Teríamos sido descoberto?. Como nossa intenção não ia alem do olhar, tudo bem. Não tinha problema algum. Mas aquele sorriso enigmático, daquela senhora, me fez pensar. Estaria ela rindo para dizer: podem olhar, é bonita mesmo, fui eu quem fiz. Ou estaria ela dando um sinal de aprovação para que nos aproximássemos daquele monumento. Não sei. A dúvida será eterna. Mas, o mais provável é que ela apenas estava sendo simpática. A única certeza que ficou, é que aquela foi uma das mais deliciosas refeições que eu já tive a oportunidade de saborear.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2004

Assim evolui a humanidade

Dizem os estudiosos que o homem passou a viver em grupos para se proteger, assim como ainda fazem hoje os animais na natureza, principalmente os mamíferos. Esta vivência em grupos permitiu que o bicho homem desenvolvesse regras que viessem a facilitar e a garantir a vida de todos. Se observarmos os animais irracionais, estes também possuem regras de convivência cujo objetivo principal é a sobrevivência do grupo. Desta forma quando um dos animais integrantes do grupo adoece ou envelhece a natureza se encarrega, através dos predadores, da eliminação deste individuo. Assim o grupo fica preservado.

O homem vem ao longo de milhares de anos, e mais aceleradamente do século XX para cá desenvolvendo uma série de tecnologias que permitam ao próprio homem viver mais e viver melhor. Como dizem que tudo o que o homem constrói não é natural, então temos que, de forma artificial, o homem vem prolongando sua estadia na face da terra e melhorando a qualidade desta estadia. Não me refiro ao homem como espécie, mas sim como individuo. Estamos vivendo cada vez mais e melhor. A medicina tem evoluído muito. Bilhões e bilhões de dólares movimentam uma industria que é uma das mais poderosas do mundo. Hospitais se modernizaram e hoje prestam serviços dignos dos melhores hotéis. O homem continua conspirando contra a natureza e a subjugando. A cada dia prova que é mais forte que a natureza e faz de tudo para depender cada vez menos dela para sobreviver. Parece que vivemos uma apoteose do desenvolvimento, do desenvolvimento tecnológico.

A natureza, periodicamente, manda seu recado dizendo para o homem que ele não é tão especial assim como pensa que é. Não me refiro aos desastres naturais, tão vivos em nossa mente através da devastação de uma tsunami assassina que de um só golpe ceifou a vida de quase de 300.000 seres humanos. Refiro-me simplesmente a ação de um único homem, um marido. Um marido que se tornou famoso no mundo todo ao pedir a morte da sua ex-esposa. Não agiu como um assassino frio e covarde que se vale da fraqueza física do sexo feminino e tira a vida de sua companheira. Não, ele se valeu de toda a sorte de regras que o homem criou para garantir a sua sobrevivência, como individuo, no grupo e conseguiu de forma lícita tirar a vida de sua “ex”.

Em sociedades “desenvolvidas” que cultuam a pena de morte, não é permitido ao individuo sequer requerer tal castigo, cabe apenas ao estado este direito. Mas a “ex” de nosso protagonista não cometeu crime algum para que o estado solicitasse o cancelamento de seu direito de existir. Então para que o nosso protagonista pudesse levar a cabo seu desejo de morte, ele conseguiu que o estado negasse a sua indefesa “ex” todos os recursos tecnológicos resultantes daqueles bilhões e bilhões de dólares empregados em anos de pesquisa e tecnologia.

O golpe fatal é de uma simplicidade que nos deixa atordoados. Simplesmente foi dado a nós, seres humanos, a oportunidade de reconhecer que a evolução tecnológica que conduzimos, não permitiu que evoluíssemos como seres humanos. Nossa humanidade continua tão primitiva quanto à de qualquer dos grandes mamíferos que hoje ainda vagam pelas savanas africanas. Assim como os irracionais fazem, nós os racionais, também somos capazes de abandonar nossos iguais quando estes deixam de ser tão iguais assim, mesmo que não coloquem mais o grupo todo de racionais em risco. A diferença é que na savana tem sempre um predador para acabar de forma rápida como o sofrimento dos infelizes. Porém, nós os racionais não podemos permitir isto, de forma que criamos a chamada morte assistida. No caso em questão, estamos assistindo a uma morte por inanição, nossa infeliz ira morrer lenta e gradualmente de fome e sede.

Assim evolui, assustadoramente, a humanidade.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2005