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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


5 de set de 2008

Espírito de Natal

O Natal é um misto de alegria e angustia. Inúmeros psicólogos já estudaram e publicaram muitos materiais sobre esta ambigüidade que o Natal representa. Ninguém escapa, é uma mistura de alegria e estresse (pelo menos das compras). Particularmente eu detesto esta coisa toda de compras e da obrigação de dar presentes, mas não tem como evitar, e todo ano se repete a mesma angustia. Acho que a alegria só vem mesmo quando tudo acaba. Pois bem, depois de todos os presentes comprados, minha esposa me intimou para irmos ao supermercado, em pleno 23 de dezembro.
De cara já pressenti que seria uma “maravilha”, o estacionamento estava lotado. Era só o começo! Agarrado a um carrinho começamos a árdua tarefa de tentar nos deslocarmos entre os corredores e gôndolas. Tive a impressão de que encontrei pessoas que nunca foram a um supermercado. Pessoas que achavam que estavam sozinhos, paravam os seus malditos carrinhos no meio do corredor, atrapalhando a tudo e a todos. Com muito custo e um esforço sobrenatural para manter a calma consegui chegar ao fim de uma odiosa lista de compras preparada pela digníssima esposa, que naquela altura eu já a estava classificando como meu verdugo particular.
Terminada a primeira parte da tortura, o preâmbulo, agora sim é que o inferno se materializou, tínhamos que encontrar um caixa. Ou melhor, havia uma profusão de caixas, o difícil era escolher o menos carregado. Eis, que vislumbrei um em que havia uma senhora com uma cestinha, pela lógica era o que deveria ser o mais rápido. A alegria começou a tomar conta de mim. Posicionei-me na fila, atrás daquela senhora e fique observando o movimento, rezando para que o tempo passasse rapidamente, mas que nada. Tive a nítida impressão que assim como nos engarrafamentos do trânsito, a minha fila era a que andava mais devagar. De repente se aproxima um ser meio disforme, com cara de duende, carregando uma cestinha abarrotada de compras, e sem cerimônia alguma furou a fila na minha frente se juntando aquela horrível senhora, que agora observando bem, tinha cara de bruxa malvada.
Quando iria interpelar aquele duende mal acabado e muito mal educado, minha esposa, que me conhece muito bem, me pegou pelo braço e sorrindo me disse, olha o espírito de Natal. Engoli em seco e deixei passar. Era esperar demais achar que uma bruxa malvada pudesse ensinar bons modos para um duende mau acabado. Eu deveria estar delirando, talvez eu estivesse entrando em um estado febril, como se meu corpo rejeitasse todo aquele estado em que eu havia me envolvido. Louco de raiva comecei a procurar algo que me distraísse, pois não poderia permitir que aquela família monstro me tirasse do sério.
Ao olhar para a esquerda tive uma magnífica visão. Era loira, cabelos longos, olhos verdes, seios fartos e mais tarde, quando ela passava no caixa pude perceber que aquela parte do corpo que é conhecida como a preferência nacional, nela era maravilhosa. Tentei disfarçar para minha esposa não notar. Até por que eu sempre fui um cavalheiro, e minha esposa sempre soube que para mim, apreciar o que natureza tem de belo, nada mais é do que isto mesmo, um efêmero exercício de observação e nada mais.Só que não custa nada evitar aborrecimentos.
Comecei a acreditar que o tal Papai Noel até que poderia existir, e que não custava nada fazer um pedido pra ele. No estacionamento comentei da beleza da loira, e minha digníssima sentenciou, é silicone! Tudo bem, não era tudo tão natural assim, mas no conjunto até que funcionava bem. Atrevi-me um pouco mais e comentei dos outros predicados, para saber se era silicone também. Será que estavam fazendo isto com a preferência nacional? Mas minha esposa me tranqüilizou afirmando que os glúteos da jovem eram naturais. Melhor assim. Aquela noite dormi com um leve sorriso nos lábios, e fiz um pedido pro velho Noel. Agora que estou acreditando nele, não posso perder a oportunidade, espero que ele me atenda e que eu possa saborear na noite de natal uma bela caixa de bombons. Isto é que é Espírito de Natal.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

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