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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


5 de set de 2008

O desafio - Minhas aventuras no arvorismo

Tornar uma aula de sábado, em dezembro, agradável constitui-se em si, um grande desafio. Desafio para nós alunos, que tivemos um ano atribulado e como presente de Papai Noel (sádico), somos brindados com aulas em três sábados no mês de dezembro. Após todas as revoltas de praxe, estávamos, todos, no primeiro sábado para recepcionar o novo Professor. Feitas as civilizadas apresentações, recebemos dele uma interessante proposta, que era a de executarmos o que alguns chamam de esportes radicais.
O desafio era a turma se dirigir até o parque Unipraias para a prática de ARVORISMO. E não é que o pessoal aceitou! Bateu o terror, de imediato o desespero tomou conta de mim. O que este pessoal estava fazendo? Eu paguei para fazer um curso dentro da sala de aula, com ar condicionado, “cofee braeck” e tendo como companhia os livros, entre outras mordomias, e nada mais. Traidores! Eu sou um aluno de MBA e não um macaco para andar pendurado em árvores. Senti que estavam todos contra mim. Com toda a certeza não estava nos meus planos andar pendurado em árvores ou qualquer outra coisa do gênero. Alias, eu já tinha feito tudo isto, muito antes destas atividades serem classificadas como esportes radicais. Em segundos recuperei lembranças que havia feito questão de esquecer. Em um instantâneo “flashback” recuperei meus tempos de Aluno Oficial na Academia, quando uma vez por ano realizávamos os chamados “treinamentos na selva”. Meu desafio agora era outro, como fugir desta armadilha? De repente uma luz. Um aluno sacou de seu pé e sentenciou, eu não posso! Quebrei meu pé e ele ainda não esta recuperado. A salvação se vislumbrava, um alento de felicidade tomou conta de mim. Quem sabe todos os alunos também tinham quebrado um pé, ou um braço e ninguém poderia ir. Triste ilusão, nada, ninguém se manifestava. Não teve jeito.
Dia marcado e lá estava eu, 20 anos depois, me encontrava diante, novamente, de uma mancha de mata atlântica que sobreviveu ao homem, odiei por uns instantes os ambientalistas, não se ofendam, foi só por uns míseros instantes. O primeiro desafio foi encontrar um capacete que tivesse o tamanho proporcional ao diâmetro de minha caixa craniana, resumindo que fosse grande o suficiente. Desafio vencido, de repente me vi todo equipado e pronto para encarar a copa das árvores. Éramos orientados e guiados por uma trupe de seres disformes e inominados, que se esforçavam em parecer alegres. Tratavam-se por codinomes estranhos, que devido a um forte bloqueio emocional Harry Potter é o único que eu consigo me lembrar. Tentavam nos incutir que seria tão fácil quanto caminhar no parque (mas nem isto eu faço). Que tudo era seguro. Realmente a segurança foi o ponto alto. Só que algo dentro de mim insistia em dizer que não era bem assim, que não deveria confiar em seres que não se tratam pelo próprio nome.
Entre as explicações de segurança fomos apresentados a uma tal corda sorriso, que recebeu este nome em razão de sua forma. Fiquei por alguns segundos olhando a tal corda sorriso, e ela olhando para mim. Pude então perceber que o seu sorriso era um deboche, uma provocação, um sarcasmo, um verdadeiro acinte. A cada etapa vencida eu tinha que me prender a tal corda sorriso e a mediada que eu ia progredindo o seu deboche só aumentava. Iniciado o processo de tortura, concentração a toda, venci rapidamente os primeiros obstáculos. A empolgação começou a tomar conta mim. De repente eu poderia vencer a tudo e a todos, disto eu tinha certeza. O que viesse pela frente seria rapidamente derrotado, eu simplesmente passaria por cima. Eis que então sou tirado daquele estado letárgico por uma voz feminina, “Capitão, Oh Capitão, olha que belezinha, fecha as pernas Capitão”. Fui jogado de volta para a realidade. A casa caiu! E agora? Voltar não dava mais. Aquele não era o meu ambiente, eu não fazia parte daquilo.
Olhei para o percurso que faltava e desanimei. O desespero novamente se apresentou e senti que ele seria o meu companheiro até o fim daquele suplicio, junto com a aquela adorável voz feminina. Quem disse que quando o estupro é inevitável, relaxa e goza, é porque nunca foi estuprado, disto, agora eu tenho certeza! Fui levando aos trancos e barrancos e torcendo para que acabasse logo, mas não acabava. Vencido um obstáculo já se apresentava outro. Em certos momentos a situação ficou crítica, beirava ao ridículo. O riso sem graça que tentava despistar o nervosismo já não funcionava mais. De repente, não mais que de repente, lá estava ela, a tirolesa, o último obstáculo e estava tudo acabado. Vislumbrei minha salvação, a felicidade suprema.
Quando cheguei na plataforma o que eu vejo? Além do sorriso idiota da tal corda sorriso, me deparei com o pior de todos os pesadelos. Sentados como que em um teatro, estava a platéia formada pelos meus colegas de aventura, todos aguardando o “gran finale” do Capitão. Não teve jeito, rapidamente, depois de umas oito ou nove tentativas, e algumas ameaças do instrutor, me lancei ao espaço, preso pelos equipamentos de segurança é lógico, e me preparei para a aterrissagem, que ocorreu sem traumas.
Estava acabado! Eu havia vencido, eu era um herói. Ninguém deu bola! Eu havia sobrevivido, passei incólume, pelo menos fisicamente, já que moralmente a recuperação foi um processo mais lento. Agora que tudo esta acabado até que foi divertido, e já estou com saudades, ou melhor, estou é sentindo falta. Acho que nasci para os esportes radicais. Corre nas minhas veias um espírito aventureiro que eu desconhecia. Já me vejo em outras aventuras, tais como “sky diver”, “base-jump”, “snowboard” e muitas outras um pouco mais radicais. Vencidos os primeiros desafios, que venham os outros. No momento luto bravamente para vencer mais um deles aqui em frente ao computador, enquanto digito este texto. Como ressaca da prática radical fiquei com o meu corpo, sedentário, todo doído, se constituindo em feroz batalha digitar qualquer coisa. Pensando bem, acho que vou colocar meu espírito aventureiro em repouso, é mais saudável.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

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