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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


31 de ago de 2008

Desejo sair deste bonde

O teatro é algo que me fascina. Sempre que há a oportunidade, eu assisto um espetáculo. Infelizmente Blumenau, assim como a maioria das cidades, não é brindada regularmente por aqueles espetáculos que são chamados de “nível nacional”. Quando ocorre um destes, temos que correr ao teatro e garantir nosso lugar, pois os ingressos costumam se esgotar logo. É casa cheia. Recentemente fomos agraciados com o espetáculo Um Bonde Chamado Desejo. O nome é famoso, o filme tem uma cena que está inserida entre aquelas que os críticos chamam de antológicas, em que o finado Marlom Brando, mostra todo o potencial de seus pulmões, quando jovem é claro, gritando loucamente por sua Stela. Como o ator morreu recentemente e a mídia explorou muito esta cena, o nome voltou a ficar famoso. Os atores eram em sua maioria globais. Então porque não ir ao teatro?

Por uma falha, acabei comprando os ingressos tardiamente e só consegui um dos últimos, por isto o lugar que sobrou foi nas últimas fileiras, o que acabou se tornando proveitoso. Luz apagada começa o espetáculo, com o protagonista mostrando seus dotes físicos para a alegria da platéia feminina, que não deixou barato e mostrou toda a sua satisfação em um espetáculo que somente as mulheres são capazes de realizar. Tive a sensação de estar assistindo um capitulo de novela da sete, da Globo. Daquelas novelas que saem com criticas nas revistas por estarem mais preocupadas em explorar os dotes físicos aos dotes artísticos dos marmanjos. Acabei por pensar que era implicância minha, que não era nada demais, e se as mulheres estavam felizes eu também estava.

O espetáculo teatral foi se desenvolvendo, e com o passar dos minutos e das horas eu diria que ele foi se arrastando. Após duas horas um forte desconforto começou a se apoderar de mim. Já havia perdido o interesse, ou melhor, meu interesse tinha mudado de foco, agora me interessava mais que aquilo tudo acabasse. Os diálogos eram densos, arrastados, alguns até medíocres. Notei alguns casais levantando-se e saindo, fiquei um pouco chocado, não estava acostumado a ver as pessoas abandonando o teatro. De repente um grupo que ocupava quase toda uma fileira se levanta e saem todos. Ao meu lado uma esposa aflita fustigava seu marido com perguntas do tipo isto não acaba nunca? Onde eles querem chegar? Por coincidência eram as perguntas que eu mesmo me fazia, entre outras. A angustia já estava se tornando sofrimento. De minha posição estratégica, ao fundo do teatro, pude notar uma inquietação geral na platéia. As pessoas se mexiam aflitas em suas poltronas. Como o teatro tem um assoalho de madeira, o barulho dos sapatos, cujos donos com aflição esfregavam e até os deixavam cair, era uma incomoda sinfonia que só fazia alimentar aquele circulo de amarguras.

Vendo que minha aflição era igual à dela, a esposa que fustigava seu marido começou a dividir comigo sua aflição. Infelizmente eu também não tinha as respostas para as perguntas dela, que afinal também era minhas. Interessante que não me senti incomodado com aquelas intervenções. Para alguém, como eu, que até o menor sussurro incomoda, não se sentir incomodado por constantes perguntas, é algo sintomático do verdadeiro horror em que me via. Para piorar o espetáculo não terminava. Olhei o relógio pela milésima vez, e já se passavam duas horas e dez minutos desde o inicio daquilo, que começou com sendo um espetáculo teatral e se tornara, no mínimo, um grande desconforto.

Não sei quantas vezes mais olhei ao relógio até que o marco de duas horas e meia foi rompido. Minutos antes, em uma das cenas, as luzes foram apagadas, para dar mais clima, penso eu, sendo que neste momento aquela senhora que estava ao meu lado me perguntou, será que se começarmos a aplaudir eles acabam? Este questionamento resume bem todo a angustia e sofrimento em que estávamos envoltos. Quando o espetáculo acabou, aplaudi como nunca, mas não era o espetáculo que eu aplaudia, era sim minha resistência e tenacidade, e eu aplaudia os demais espectadores, todos valorosos heróis. Aqueles que como eu não tiveram coragem de ir embora durante a apresentação.
Enquanto nos dirigíamos ao estacionamento, ouvi de várias pessoas comentários não muito elegantes ao espetáculo. Lamentavelmente eu não era único que tinha sofrido, meu sofrimento era compartilhado por grande parte dos espectadores. Sem querer ser cruel, tenho certeza que muitos daqueles que lá estavam, gostaram do que viram, mas infelizmente com estes eu não tive contato.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2006

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