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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


4 de dez de 2008

Três formas de terror

O cenário estava se armando. Quase quatro meses de chuvas. O solo estava encharcado, o rio, o famoso Itajaí-Açu, ganhava volume e tentava fugir de sua calha. O final de semana apenas começara, era sábado. Pela manhã, fui participar da Conferência Municipal de Cultura. Em meio a discussões sobre a cultura, um único assunto ganhava unanimidade, a chuva.

Quando voltei, no período da tarde, para o encerramento dos trabalhos, fui informado de que a conferência estava suspensa. O prefeito havia decretado estado de emergência. Voltei para casa e no caminho pude notar que as pessoas andavam apressadas, preocupadas. Cheguei a casa e fui deitar.

O barulho da chuva, que caía de forma torrencial, acordou-me. Fui até a cozinha e comecei a saborear uma castanha, quando pela janela da área de serviço notei o trânsito parado e sobre a pista da estrada havia uma lâmina de água barrenta, vermelha. A cidade começava a sangrar e eu não percebera. Fui até a sala, para olhar pela sacada, quando o trânsito parado na via que sai do Parque Vila Germânica chamou minha atenção. Quando cheguei à sacada a surpresa chocou. A rua em frente ao meu condomínio estava tomada pelas águas. Os carros passavam de forma cuidadosa. A água começava tomar a entrada do condomínio.

De súbito, corri e acordei minha esposa. Liguei para o COPOM para saber da situação e fui informado de que o Comandante do Batalhão estava presente. Liguei para ele e ouvi a sentença: “o plano de chamada está sendo ativado e és o primeiro a ser chamado!”. Já havia passado por esta situação antes, em meus 24 anos de serviço policial militar, dos quais 90% servidos em Blumenau; era a minha 5ª enchente.
Rapidamente preparei uma mochila, com alguns itens básicos, como o material de higiene, meias e cuecas. O fardamento eu guardo no quartel. Moro perto do Quartel do meu Batalhão e, pela experiência, sabia que não devia ir de carro. O Quartel pega água e sempre que Blumenau sofre com uma enchente, a casa da Polícia Militar é uma das primeiras a ser atingida. Não conseguia encontrar caminho para o quartel, estava tudo alagado. Liguei novamente para o Comandante, solicitando uma viatura.

Fui socorrido por uma de nossas viaturas do tipo camionete e no retorno ao quartel fomos parados por um grupo de pessoas que pedia auxílio para uma mãe com uma criança de 18 dias. Eram evangélicos que estavam participando de um encontro no Parque Vila Germânica, encontro este que também havia sido cancelado. Diante da situação, coloquei a mãe, com a criança nos braços, e mais uma senhora na viatura e partimos para a sua casa. Ele nos informou que morava na Rua José Reuter, no Ristow. O caminho foi longo. O cenário já era preocupante. Muitos alagamentos e deslizamentos pela via davam uma pequena mostra do que viria. A cidade não apenas sangrava, mas em alguns lugares ela já deixava sua carne à mostra. A cidade começava a mostrar suas entranhas, mas eu não percebia, não só eu, acho que até aquele momento ninguém percebia.

Quando chegamos à rua indicada, a senhora pediu-me que a deixasse antes de sua casa, que era em um morro, pois se parássemos em frente, ela não conseguiria sair, já que a viatura era muito alta. Lembro que ela ainda apontou para a sua casa e disse: - é lá que eu moro. Hora mais tarde, aquela região foi uma das mais castigadas da cidade, com a destruição de inúmeras casas pelo deslizamento de terra e muita gente morreu.

Quando cheguei ao quartel, me reuni com o Comandante e adotamos algumas medidas visando proteger o patrimônio. Por volta das 22:00h fomos dispensados. As previsões não apontavam para cheias. Confesso que fiquei feliz em voltar para casa. Fui a pé. As águas já haviam baixado e não encontrei nenhuma área alagada. Era uma trégua diabólica, apenas para transmitir uma falsa sensação de segurança. Uma pausa para o pior.

Blumenau e todo o Vale seriam tomados pelo terror. Silenciosamente a cidade era tomada por forças de proporções catastróficas. A cidade que aprendera a conviver com as seguidas cheias do rio não estava preparado para o que a aguardava. De forma sistemática e cruel, e natureza iria revelar toda a sua ira. A enchente teria companhia. Como que em uma bizarra aventura épica, um monstro com três corpos iria atacar o vale. A população seria acuada, judiada, massacrada. Os morros, que em épocas passadas eram o refúgio para as cheias, haviam se transformado em mortais armadilhas. Deslizamentos iriam tirar a vida de mais de uma centena de aterrorizados moradores do Vale.

Mas não no Domingo durante o dia. Novamente as águas recuaram. Nós voltamos ao quartel, havia sido chamado, novamente às 02:00h, em plena madrugada. Podemos dizer que o Domingo foi ameno durante o dia. Quando a noite se aproximou, nos preparamos para ficar ilhados no prédio do COPOM. Continuamente, as águas foram subindo. Não como nas enchentes que a cidade já havia testemunhado. O volume de água foi demasiado para um solo já castigado e ensopado por quase quatro meses de chuva. A enchente seria precedida de alagamentos. Lugares que tradicionalmente eram atingidos com determinadas cotas do rio, simplesmente ficaram embaixo d’água, independente da cota. Assim, de forma sorrateira, com total vilania, as águas pegaram os moradores de surpresa. É tradição que se adote determinada medida em função das cotas. Esta tradição foi destruída, desmoralizada, não serve mais para nada.

De agora em diante, quem se guiar pelas cotas estará placidamente esperando a morte chegar e não, como no passado, estará em estado de alerta para enfrentar, e vencer como tantas vezes já ocorreu, com a bravura (a bravura que moldou a multicolorida Blumenau) indômita dos orgulhosos blumenauenses, mais uma enchente. Triste ilusão que cega os sofridos bravos!

Com a chegada da noite nos instalamos no COPOM. Os telefones de emergência não paravam, assim com as águas do Ribeirão da Velha, que perigosamente passam e míseros metros dos fundos do aquartelamento. Sem pedir licença, e muito menos encontrar resistências, as águas foram tomando o quartel. Rapidamente uma furiosa lâmina tomou conta de todo o pátio. O Ribeirão da Velha, ardilosamente se apoderou do nosso quartel e lançou um braço que cortou caminho para evitar uma curva que contorna os fundos do mesmo. Agora, tínhamos as águas do Ribeirão, e sua astuta correnteza, nos cercando.

Pelo telefone, a comunidade continuava com seu grito de socorro. À medida que a noite avançava, o desespero aumentava, refletido nos ininterruptos chamados ao telefone 190. A cada telefonema, uma história de horror e desgraça nos alcançava. Pelo rádio, o que os policiais militares, homens e mulheres reportavam não era menos estarrecedor. Desmoronamentos, alagamentos, chuva torrencial e o rio, que fazia valer a sua qualificação de “Açu”, que em Guarani significa grande. O Itajaí-Açu alargava suas margens e engolia a cidade, engolia o vale.

O COPOM se viu envolto em um medonho frenesi. Dividíamos o espaço com os funcionários do SAMU, para alguns deles, a primeira experiência em catástrofes. Rapidamente a situação na cidade se deteriorou e o caos se instalou. Os deslizamentos não paravam. Morte e destruição em cada telefonema. Patrimônios, sonhos e vidas eram levados pelas avalanches de terra. Não demorou muito para que nossas viaturas se vissem sitiadas, suas rotas estavam bloqueadas, idem para as viaturas do SAMU. O socorro não circulava mais. Não chegava e quando chegava não saía. Estávamos vivendo algo inédito. Nunca antes tínhamos enfrentado situação parecida. Era uma guerra contra um inimigo astucioso, mas covarde. Batalhas eclodiam em todos os cantos da cidade na forma de deslizamentos, que produziam baixas e mais baixas entre os moradores. A luta era inglória. O número de vítimas ganhava corpo de forma assustadora.

Começamos a receber toda a carga da fúria da natureza. A cidade era atacada por todos os lados. Uma força descomunal a estava devorando, literalmente. Já não eram mais sinais, era todo o furor em seu esplendor máximo; a cidade estava com suas entranhas expostas. Entranhas famintas, que afloravam para o banquete diabólico. A terra dos morros se liquefazia e descia a encosta levando anos de trabalho duro, de sonhos, de projetos, de patrimônio duramente conquistado, de vidas, vidas e mais vidas. Entre as solicitações de ajuda, uma veio da Rua José Reuter, no Ristow, dando conta de que cerca de quinze casas haviam desmoronado como que em um efeito dominó, em que as pedras do jogo são casas, são vidas. Será que aquela mãe com seu bebê de dezoito dias foram atingidos? Passados dez dias daquela noite, ainda não sei. Falta-me coragem para retornar e saber daquelas pessoas. Acho que prefiro não saber. Uma contabilização macabra foi desenvolvida no COPOM. Tentávamos imaginar a quantidade de mortos, com base nas súplicas, nos pedidos desesperados por socorro que nos chegavam. Isso na Polícia Militar; e no Corpo de Bombeiros? Nem dava para imaginar.

Já havíamos perdido a energia elétrica e usávamos o sistema de suporte para emergência, um conjunto de baterias administradas por um software. Aos poucos este sistema foi falhando. Os computadores apagaram. Fazia horas que estávamos à luz de velas. Apenas o rádio e telefone 190 funcionavam. Não tínhamos mais como fazer os registros. O sistema rádio, que é ligado aos computadores foi perdido junto com eles; conseguíamos operar apenas através de um rádio tipo HT (aqueles rádios que os policias usam na cintura). Todo o sistema de segurança da cidade, ligado à manutenção da ordem pública, dependia de uma mísera bateria de HT, e quando ela acabasse...

Em meio ao caos que assolava a cidade e se refletia em cada policial ilhado naquela sala, um soldado se aproxima de mim e com os olhos arregalados diz: “Major estão morrendo lá fora e não podemos fazer nada!” Simplesmente assenti com a cabeça. No pátio do quartel, aquela lâmina de água agora já tinha mais de um metro de espessura e era varrida por uma forte correnteza. Pensei comigo: se este prédio resistir e não desabar, podemos dizer que temos sorte.

Passados alguns instantes, perdemos o telefone 190. Todo o sistema caiu, e a bateria do HT resistia bravamente. Aos poucos, fomos percebendo o silêncio e como que um alívio tomou conta do ambiente. As más notícias não paravam de chegar, só que agora em menor número, apenas pela comunicação com as viaturas. Fomos informados de que um gasoduto explodira em Gaspar. Qual o tamanho da destruição? Havia mortos? Quantos? Apenas especulações. Aquela noite de terror estava longe de terminar. Pela janela do COPOM podíamos enxergar por detrás dos morros a claridade do incêndio no gasoduto. Diante de nós, uma paisagem diabólica ganhou forma. A claridade do incêndio era como que um pôr do sol, ou uma lua cheia a iluminar a morte e a destruição que se abatia sobre a cidade, que alagada desmoronava sob o seu próprio peso.

Terra, água e fogo estavam juntos, unidos contra os habitantes do vale. Desta forma, a primeira noite foi vencida e chegou o dia. O primeiro de uma seqüência de dias macabros. Dias que mostraram toda a nossa impotência e incompetência diante da fúria grotesca da natureza, que, sem pedir licença, foi devorando o que encontrava pela frente. Dias que mostraram, também, como a nossa arrogância pode potencializar as forças da natureza quando esta simplesmente resolve seguir seu curso normal. Mas, ainda não tínhamos conhecido o verdadeiro drama, o tamanho da tragédia. Era só o começo!

Paulo Roberto Bornhofen
Major da Polícia Militar de Santa Catarina e escritor.
Membro da Academia de Letras Blumenauense,da Academia de Letras de Canelinha e da Sociedade Escritores de Blumenau.

29 de nov de 2008

LUTO

O Ninho Literário está de luto em razão da tragédia que mais uma vez castiga a minha querida Santa Catarina e mais especificamente a minha amada Blumenau.

Paulo Roberto Bornhofen

9 de nov de 2008

Lenço de seda
O lenço de seda vermelha, caindo pelo pescoço, emoldura o belo par de seios que saltam da blusa, agora aberta.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Condução
Um toque de sonolência, as pálpebras pesam, quando os lábios relaxam, quero levá-la para dormir.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Sede de aprender
Jeans colado ao corpo, sapato vermelho de salto, óculos que conferem uma aura intelectual. Tenho tanta sede de aprender.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Dorme
Quando finalmente acordou notou que era a vida que dormia.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
A vida/morte
Ele tinha tanta pressa, correu tão rápido em seu possante carro que a vida não conseguiu acompanhá-lo.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Sexo carnal
Calcinha, minha calcinha! O que fizeram com minha calcinha? As vozes ainda podiam ser ouvidas no açougue.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Caricia
O gato acariciou-lhe a perna. Não encontrou resposta, estava fria e dura!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Morrer feliz
Sendo sugado pelo vácuo da porta aberta do avião ele vislumbra os seios da aeromoça. Faltava um botão na blusa branca.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Morrer feliz
Sendo sugado pelo vácuo da porta aberta do avião ele vislumbra os seios da aeromoça. Faltava um botão na blusa branca.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Solidão
Ladrão nojento! Saia já daqui! Como ousas roubar minha solidão?
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Desleixado
Como só olhava para frente nunca notou os amigos, que despedaçados, eram deixados pelo caminho.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
A infância que acaba
Quando crescer, vou largar esta maldita bengala. Fiel companheira de meus primeiros setenta anos.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Fidelidade
Esposa fiel, mas tinha um defeito: Insistia em trair o amante.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Loucura
Sua sombra o incomodava. A possibilidade da simples projeção da sua imagem abriu as portas da loucura.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Homenagem
Tiros, tiros, silêncio. O silêncio dos corpos inertes homenageando a morte.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Socorro
Ajudem-me a sair desta miséria, implorou. Bondosamente um desconhecido atendeu-lhe. Agora jaz um corpo na calçada.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Atendimento
Como é que está a carne? Show de bola! Perguntou o garçom e ele mesmo respondeu enquanto se afastava dos clientes sentados à mesa.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
O prêmio
Finalmente o bilhete premiado. Prêmio acumulado. Mas, os vermes não sabem o que é dinheiro.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

25 de out de 2008

Poemas de Fritz Müller – História Natural de Sonhos


Fritz Müller é o patrono da cadeira que ocupo na Academia de Letras Blumenauense, o que me leva a ter uma relação muito especial com está interessante figura. Home sensível de rude aparência. Um poeta em meio à natureza como mostram algumas de suas fotos.

O livro Poemas de Fritz Müller, que tem como subtítulo História Natural de Sonhos, cujos poemas foram traduzidos por Lia Carmem Puff e Dennis Radünz (Nauemblu; 56 páginas), veio-me às mãos quando adquiri umas obras do Guido Heuer, cuja temática era inspirada na natureza e o livro fazia parte do conjunto. Idéia fantástica esta de associar os quadros com o livro. O livro já atrai pela beleza da capa, que lembra alguns livros infantis da minha infância. Estas gravuras vão se reproduzindo ao longo do livro em harmonia com a temática de cada poema. Este é um dos aspectos. O outro é a beleza dos poemas que revela um Frits Müller sensível, observador, não apenas um estudioso da natureza, mas um apaixonado, um amante.

Mas nem por isso, ou talvez seja por causa disso, que ele apresenta na forma de poema alguns dos dramas que diariamente se revelam na natureza e que dizem respeito à sobrevivência. Sobrevivência que para uns significa a morte dos outros. Caso do poema do Pica-Pau quando o autor usa o todo o poema para descrever de forma encantadora as atividades desta belo pássaro. Apenas no último verso é que o belo pássaro é apresentado como o devorador, àquele que põem fim a vida do infeliz verme que tinha o tronco como morada protetora.

A morte acompanha grande parte dos poemas que são apresentados no livro. Mas não é a morte covarde, gratuita que se vê em nosso meio. É a morte natural, é a transformação, o transcurso regular das coisas da vida. A cadeia alimentar se manifestando. E ele, um naturalista, observador por obrigação retrata estes dramas com verdadeira sutileza.

Os poemas em que o homem se faz presente, ai sim encontramos crueldade. O homem é cruel quando monta uma armadilha e mata a solitária paca. O homem é exterminador quando dizima com veneno e fogo o formigueiro em que habitam trabalhadores formigas. Finalizando as atrocidades humanas o poeta nos apresenta a figura de um menino que ilude uma faminta gaivota que de forma bárbara vê o fim de sua vida chegar através de um anzol preso em sua garganta. Pobre gaivota.

Mas o poeta faz a natureza revidar na astúcia de uma tartaruga que quando esta para padecer sob o golpe fulminante de um remo consegue fugir através das águas do rio, deixando para trás seu irado algoz.

O que se esperar de um naturalista poeta? Talvez isto, que ele com sua sensibilidade consiga apresentar de forma natural os dramas que são da natureza e já naquele tempo fazer um alerta sobre o comportamento do homem com relação à natureza.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

15 de out de 2008

Saboreando crônicas


O que pode se esconder por trás de um título como este: Saboreando crônicas (Luiz Eduardo Caminha; Nova Letra;110 páginas), de autoria do meu amigo Caminha? Uma deliciosa leitura, é claro! Pois é esta a proposta do Caminha e é bem isto que ele consegue. Com o perdão do trocadilho, mas saboreando crônicas é daquelas deliciosas leitura que a gente devora cada página. Não como um glutão que come por impulso, mas como um gourmet que tem prazer em saborear cada uma das suas crônicas como se fossem iguarias que compõem um simples, mas bem elaborado prato.

Caminha é uma daquelas pessoas iluminadas, um autentico multitarefa. Médico, dos mais capacitados, escritor primoroso que trilha – ou caminha – as veredas da poesia e da crônica com a mesma fluência e dedicação com que pesquisava o interior de seus pacientes.

O Caminha teve a felicidade de nascer em Florianópolis e conviver com o pessoal que estava no centro dos acontecimentos quando a Ilha da Magia ainda era paradisíaca e não tinha adotados os ares de uma falsa metrópole cosmopolita. Transferir esta atmosfera bucólica para a literatura através da construção de inúmeras crônicas entremeadas com receitas da culinária açoriana praticada na ilha é a receita de sucesso trilhada pelo Caminha.

Saboreando Crônicas é uma sucessão de narrativas, muitas delas hilárias, perfeitamente harmonizadas com saborosas receitas gastronômicas fazendo com que o leitor se sinta como é um belo banquete. É uma oportunidade para aqueles que, como eu, foram criados naquela Florianópolis, e também, para aqueles que só conheceram Floripa, saberem como a Capital sempre foi maravilhosa e por isso tanto e a tantos encantou.

Mas o livro não é só isso, é um desafio! As receitas gastronômicas lá estão, então que o leitor se lance aos prazeres da boa mesa, testando cada uma delas. Não basta apenas fazer a leitura, temos que viver o livro! Que tal preparar um berbigão ensopado com pirão de “nailho” e espaguete ou arroz, harmonizado com a interessante crônica Máquina de descarcar Berbigão?

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Uma viagem só de chegada


Tive a grata satisfação de ser presenteado por Marcelo Steil com um exemplar desta magnífica obra, de sua autoria e que foi acertadamente batizada de “Uma viagem só de chegada” (Marcelo Steil; Edifurb/Ed. da UFSC; 149 páginas). Você pode estar se perguntando sobre o que faz alguém ter a ousadia de classificar uma obra como sendo magnífica? É um belo questionamento que tratarei de responder ao longo do texto.

Marcelo Steil fez seu mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina e da sua dissertação extraiu o material que usou para dar forma e vida ao livro, publicado em 2002. “Uma viagem só de chegada” não é um livro de turismo, muito menos um romance de aventuras. É na verdade um drama, que para se apresentar, faz uso da poesia em língua alemã produzida pelos colonizadores no Brasil, em uma apropriação muito feliz. Para poder compor seu drama Marcelo fez um profundo trabalho de pesquisa que ao ser transportado para o livro perdeu todo aquele peso e enquadramento científico tornando-se uma leitura prazerosa.

Entre aqueles que tentam definir poesia muitos falam que poesia é sentimento, é alma, é paixão. E foi isto que Marcelo garimpou entre os poetas alemães que para cá vieram. Sim, vieram! Mas, de onde saíram, por que saíram e como saíram? Perguntas, cujas respostas estão escondidas, disfarçadas no meio das letras. Respostas que para serem encontradas precisaram da habilidade de um grande garimpeiro, de paixões e emoções.

Poemas como “Velha e nova Pátria”, de Victor Shcleiff; “Teuto-brasileiro”, de Georg Knoll; “Minha casa paterna”, de Rudolf Damm; e, “Língua Materna”, de Maria Kahle, são algumas das obras que passam por um processo de dissecação literária nas mãos de Marcelo. Um processo que se vale da análise das estruturas do poema e da linguagem poética para alcançar a alma do poeta.

Marcelo se enfurnou nas poesias e conseguiu extrair uma realidade dura e até triste que os poetas alemães se esmeraram para tentar ocultar. É isto que torna o trabalho de Marcelo magnífico. Ele conseguiu romper as barreiras da sisudez germânica e penetrar nos mistérios de sua alma, buscando lá no fundo as respostas que tanto trabalho foi despendido para encobri-las. A resposta está em uma pátria deixada para trás e na busca em se construir a mesma pátria em um novo lugar. Uma pátria que precisou ser abandonada por que era fonte de sofrimento e dor, vindo daí a razão de não se partir, mas apenas se chegar. Sem dúvida algo terrível de ser admitido pelo bravo e orgulhoso povo alemão. Diferente de outros movimentos migratórios europeus que buscavam a expansão de impérios, o germânico (mas não só ele) foi uma questão de sobrevivência.

Isto fizeram aqueles migrantes, nossos antepassados, uma grande viagem, que por meio da obra de Marcelo ficamos sabendo o porquê ser ela só de chegada. A partida e o que motivou a partida ficaram rigorosamente deixados nas terras da mãe Alemanha.
Será que o objetivo de construir a mesma pátria, mas sem a dor e o sofrimento, em outras terras foi alcançado? Não era uma simples questão de apenas transferir uma parte da Alemanha para o Brasil, era uma questão de reafirmar a germanidade no paraíso. Dizem que sim, que o que os alemães construíram no Brasil não se encontra mais na Alemanha e muito menos em qualquer outro lugar do Brasil. Mas isto é outra história, que ainda está em construção e um dia vai ser contada.


Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

10 de out de 2008

Estréia no Ninho Literário: ELES


Apreciadores do Ninho Literário

Hoje, 10/10/2008, estréia uma família no blog. É a família "ELES".

Abraços,

Paulo

6 de set de 2008

Era uma vez...

Era uma vez, nos primórdios da humanidade, quando o ser humano, ou simplesmente bicho homem para os mais íntimos, começou a se desenvolver em comunidades.
Naquele tempo, hordas de arruaceiros e desordeiros se organizaram e espalhavam o terror por todos os cantos da terra, eram os homens maus. Para se defenderem, os homens bons, também se organizaram. Mas, os chamados homens bons, se organizaram em dois tipos de comunidades: a comunidade dos que mandavam, e a comunidade dos que eram mandados. Os que mandavam ofereceram proteção aos que eram mandados, mas em troca cobraram-lhes uma contrapartida financeira. Os que eram mandados, como sempre faziam, aceitaram. Não só aceitaram pagar pela segurança como ofereceram seus filhos para comporem um sub grupo que seria encarregado da tal segurança. Estes encarregados da segurança não chegaram o formar um novo grupo, ficaram vagando no limbo entre um e outro, por isso foram tratados de sub grupo, tanto pelo grupo dos que mandavam, como pelo grupo dos que eram mandados, e sendo assim passaram a não se identificar com nenhum deles. Quando iam prestar segurança ao grupo dos mandados, não se identificavam com estes, pois estavam cumprindo ordens do grupo dos que mandavam. Quando estavam com o grupo dos que mandavam não eram identificados por aqueles, pois não mandavam, apenas executam o que lhes era mandado. Este sub grupo ficou conhecido como aqueles do limbo. E, assim foi evoluindo a humanidade.
Com o passar dos tempos, o grupo dos que mandavam passou a usar o sub grupo do limbo para sua própria segurança e abandonaram o grupo dos que eram mandados a sua própria sorte. Vendo isso, o grupo dos homens maus se aproveitou e tomou o grupo dos que eram mandados. O grupo dos homens maus gostou tanto da nova situação, da nova ordem, que viu que poderia substituir o grupo dos que mandavam e se tornar um novo grupo, o grupo dos homens maus que mandavam. Mas para angariar o apoio do grupo dos que eram mandados, resolveram que eles, os homens maus que mandavam, iriam dar proteção ao grupo dos homens que eram mandados. Como o grupo dos que eram mandados já estavam acostumados a serem mandados e tinham sido abandonados pelo grupo dos homens que mandavam, aceitaram, mesmo sem saber contra quem era essa proteção. Mas, fazer o que, se eles sempre foram mandados.
Não se dando por satisfeito, o grupo dos que mandavam, para mostrar que continuavam mandando, vez por outra, mandavam que o sub grupo do limbo fizesse incursões contra os homens maus que agora mandavam. Mas como os homens maus que agora mandavam estavam misturados com os homens que eram mandados, era comum o sub grupo do limbo atingir os homens que eram mandados, e estes passaram a se revoltar contra o grupo dos que mandavam e seu sub grupo do limbo.
O grupo dos homens maus que agora mandavam entendeu que como o sub grupo do limbo era usado sem respeito pelo grupo dos que mandavam, poderiam, através de uma compensação financeira, angariar homens do sub grupo do limbo para seu lado. E assim, o grupo dos que eram mandados se viu diante de uma situação difícil. Todos mandavam neles e todos cobravam deles e o sub grupo do limbo não mais lhes dava proteção.
Vendo a aflição dos integrantes do grupo dos que eram mandados, alguns do sub grupo limbo resolveram agir por conta própria, e ganhar “um” por fora. Formaram um outro tipo de organização que ficou conhecida por todos como aqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer e ofereceram segurança ao grupo dos que eram mandados, contra o grupo dos homens maus que agora mandavam. Na esperança de terem sua tranqüilidade de volta, aceitaram. Assim o grupo dos que eram mandados agora pagava ao grupo dos que mandavam, ao grupo dos homens maus que agora mandavam e àqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer. Pagavam cada vez e tinham cada vez menos.
Para não perder o poder, o grupo dos que mandavam, e que eram homens bons, mandaram outra organização para defender os que eram mandados. Essa organização era especial, tinha mais equipamentos, mais armamentos e eram treinados para defender a todos contra agressões do que se chamou de agressões externas, e ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo.
Quando soube disso, o grupo dos que eram mandados ficou muito contente, pois agora iria ter a sua tranqüilidade, aquela que fazia tanto tempo que havia perdido, pois é, ela seria trazida de volta. Pelo serviço dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, o grupo dos que eram mandados não precisaria pagar mais nada, era tudo tão maravilhoso. Finalmente eles poderiam dizer que todos seriam felizes para sempre.
Mas, não foi bem assim. Num determinado dia, um grupo dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, vendo que não podia nada e não fazia nada, pegou alguns integrantes do grupo dos que eram mandados e entregou para o grupo dos homens maus que agora mandavam. Já que eles eram homens maus, mesmo agora mandando, eles mataram estes integrantes do grupo dos que eram mandados e jogaram seus corpos no lixo, como a dizer que lá era o lugar daqueles que faziam parte do grupo dos que eram mandados.
Assim se instalou uma crise geral. Para resolvê-la, o grupo dos que mandavam, já que mandavam, mandou o chefe maior daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada para conversar com o grupo dos que eram mandados. Assim se fez, mas não sem antes encherem o lugar em que habitava o grupo dos que eram mandados, de integrantes daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, de seus equipamentos e seus armamentos. Fizeram isso, não para proteger o grupo dos que eram mandados, mas para proteger o chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada. Ele iria dar uma resposta ao grupo dos que eram mandados. Quando lá chegou, o chefe foi indagado por uma daquelas que era integrante do grupo dos que eram mandados, sobre a morte de um de seus integrantes, seu ente querido. O chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, disse: morte! Pois é, morreram, mas eu estou aqui, e vim aqui para isso: para pedir desculpas!
A narrativa acima faz parte de um grupo de pergaminhos deixado por uma civilização extinta. O lugar e as condições em que os pergaminhos foram encontrados são mantidos em segredo, bem como o seu conteúdo. Comentários dão conta de que nos pergaminhos está escrito de que forma essa civilização foi extinta, por isso tanto segredo. Nem mesmo a narrativa acima deveria ter sido publicada, mas um amigo do primo do cunhado do irmão do tio de uma pessoa que é muito ligado ao colega do namorado de um amigo meu, conseguiu uma cópia e me mandou. Havia ainda uma informação sobre o local onde tudo isso ocorreu. Estava escrito que era um lugar lindo, com uma maravilhosa baía e alguns morros esplendorosos, e que para saudar os visitantes o grupo dos que mandavam fez construir uma estátua que de braços abertos dava boas vindas aos visitantes. Falam ainda que existem esforços no sentido de identificar essa civilização perdida, sua época e o local em que viveram. Outros dizem que tudo não passa de lenda, fruto da imaginação de alguém. Quem sabe? Só o futuro dirá!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta

A primeira vez

Temos um fascínio pela primeira vez. Em tudo a primeira vez é marcante. Dizem os românticos, que é pela entrega. Já os mais realistas, afirmam que é por que é ruim mesmo. Na primeira vez falta tudo, falta experiência (por isso é a primeira), falta compreensão e falta muita coisa. Por outro lado, sobra tudo, sobra nervosismo, sobre medo, receios e sobre muita coisa. Quem consegue esquecer da primeira vez que andou de montanha russa? Da primeira pescaria? Do primeiro dia de aula?
Para alguns sua primeira vez vem cedo, outros tem que esperar. Essa espera pode estar relacionada com o amadurecimento que é necessário e para muitos pode demorar mais que o normal. Outros vão postergando sua primeira vez por puro medo, por vergonha. E quanto mais o tempo passa, pior fica. O medo do fracasso vai tomando conta. O desespero de expor sua falta de jeito, de não saber como lidar com os detalhes, que já não são tão detalhes assim, pois podem representar a diferença entre o sucesso e o fracasso. Ter de se expor assim em sua intimidade para alguém é algo assustador, e quanto mais o tempo passa mais vai potencializando as angustias e como que entrando em um circulo vicioso, vai afastando do grande momento.
Mas se não acontecer, não é a primeira vez, por isso todos passamos por ela. É como um rito de passagem, a vida se divide entre o antes e o depois da primeira vez. Os iniciados formam um grupo invejado.
Foi em meio a todas essas interrogações que de repente me vi no limiar de minha primeira vez. Foi dificílimo e só me rendi após vários apelos de uma colega de mestrado. Várias vezes ela me disse: vai experimenta! Você vai gostar! É bom! Expande nossas fronteiras! Permite-nos interagir melhor com os amigos! E eu pensava comigo, isso é fácil pra ela, que já está acostumada e é bem mais jovem que eu. Mas e eu? Já passei dos 40, será que ainda existe esperança para mim?
Após muito refletir, tomei a decisão, eu faria! Mas, me impus uma condição, tinha que ser com ela, com a minha amiga do mestrado e teria de pega-la de surpresa, para não dar chances de um arrependimento, por parte dela é lógico. Não, não, não, não poderia ser com qualquer um, melhor com qualquer uma. Já que era para ser minha iniciação, teria de ser com alguém com experiência e acima de tudo, uma pessoa em quem eu confiava.
Preparei-me. Cumpri todo um ritual de preliminares, mas mesmo assim foi tumultuado. Não por culpa dela, nem minha, mas toda hora tinham outras pessoas que atrapalhavam e a gente não conseguia entrar em sintonia. Era um tal de espera ai, já volto, pronto, podemos recomeçar, espera ai (de novo), agora vai (pela vigésima vez), onde foi mesmo que paramos? Pra mim, foi um pouco ríspido, com todas essas interrupções. Como me atrapalharam, cheguei em certos momentos a achar que estava acima das minhas capacidades e que deveria desistir de tudo, me recolher a minha insignificância, desistir. O pior era ter que recomeçar tudo novamente, não dava para simplesmente seguir de onde paramos, pelo menos para mim, tinha que voltar um pouco e recomeçar. Confesso que foi estafante, em certos momentos beirava o desespero. Foram interrupções de mais de 10 minutos, e eu ali, parado, só podendo me contentar em meramente ser um espectador, nada de interação, ficava literalmente na mão.
Mas valeu a pena, como ela foi maravilhosa, como me conduziu com paciência (nos momentos certos), com maestria desvendava cada segredo, pelo menos para mim era segredo. Ensinava-me e demonstrava cada movimento. Revelou grande fluência, típica daqueles que tem muita experiência. De minha parte, ficava extasiado com cada nova descoberta, e quando eu pensei que havia acabado ele placidamente me provocou – fica melhor quando chamarmos mais amigos, em grupo também é bom, pode ser até melhor, dependo do grupo. Para mim aquilo soou como um desafio. Eu mal havia sido iniciado e já estava pronto para novas emoções. Então ta certo, a próxima vez vai ser em grupo.
Pois é, foi assim aos 42 anos de idade que tive minha primeira experiência, fui apresentado aos prazeres e desafios do MSN, o famoso programa de conversa on line. Como é bom esse tal de MSN. Viva o MSN!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

A Távola Redonda

Meus amigos e eu gostamos de encerrar nossa reuniões semanais em torno de uma mesa de bar. Nem tanto pelos acepipes que procuramos devorar vorazmente, mas sim pelo momento de relaxamento e descontração que nos proporciona. Dia destes em razão de termos prolongado a reunião, chegamos em nosso refugio e deparamos com o mesmo com suas portas cerradas. Decepção total nos rostos de todos nós. Por alguma razão, que a razão desconhece, havia sido quebrada nossa rotina. Mas não nos damos por vencidos. Não seria a má vontade de um dono de estabelecimento gastronômico, agora elevado a condição de simples dono de boteco - percebam a velocidade com que mudam nossos conceitos com relação às pessoas quando somos contrariados - que nos levaria para a lona.
Rapidamente em nosso grupo surgiram vozes de protesto, se formando uma linda cena, com alguns respeitáveis senhores parados em frente a um boteco, fechado, erguendo seus punhos ao ar em um honrado brado de protesto. Mais rápido ainda surgiu uma solução para o impasse, vamos para outro lugar. Sem o menor pudor e cheios de razão, nos propomos a buscar refugio em outro lugar que nos recebesse. Nos comportamos como aquela “pura donzela”, que quando pronta a se entregar de corpo e alma ao seu amante, encontra este indisposto ou por qualquer razão indisponível, e para honrar sua libido sai à procura do primeiro que lhe satisfaça e a este se entrega deliciosamente, sem o menor remorso. Saímos em carreata percorrendo as vazias ruas da cidade procurando por uma ínfima luz que denunciasse a disponibilidade daquele que seria nosso novo refugio.
Enquanto nos deslocávamos fiquei observando aquela fila de carros, cada qual ocupado por uma única e revoltada alma, mas que agia como se fosso é só organismo vivo. Parava, andava, mudava de direção em uma linda harmonia. Devido ao adiantado da hora éramos praticamente os únicos a ocupar as ruas naquele momento, de modo que nada nos importunou em nossa verdadeira caçada. Alguém que pudesse ver a harmonia daqueles cavaleiros errantes certamente ficaria surpreso, até mesmo assustado com tal espetáculo. Para nossa satisfação encontramos aquilo que procurávamos, não um simples boteco, mais um lindo e maravilhoso estabelecimento gastronômico, onde pudemos não só saciar nossa fome e dividir nossas alegrias, mas acima de tudo executar nossa vingança.
Ainda não sei se a nossa alegria se deu em razão da qualidade do ambiente e do tamanho da fome, que eu pude constatar mais uma vez que progride geometricamente, ou pela oportunidade ímpar, que com toda a certeza nunca mais iria se repetir de vingarmos nossa honra. Aumentando a nossa alegria nos deparamos com uma enorme mesa redonda, local propício para o deleite (fique a vontade para usar sua imaginação). Já perceberam que em um restaurante as mesas no formato redondo são as que recebem os clientes mais felizes, é só aferir o nível de ruídos que vem destas mesas.
Após cada qual tomar o seu lugar e de sermos servidos da mais deliciosa das cervejas, enquanto os pedidos ainda eram preparados, já nos sentíamos donos daquele local, como se o mesmo estivesse sido construído para nos atender e que aquela mesa havia se preservada até a nossa chegada, não sendo usada anteriormente por nenhum atrevido ser. Diante de tal constatação não nos restava nada mais a fazer se não proporcionar os mais demorados prazeres para a nossa companheira, a mesa, que entre um brinde e outro foi batizada de A TÁVOLA REDONDA, que tal qual a lenda, após ferozes batalhas recebia o Rei Artur e seus valorosos cavaleiros, talvez não tanto cavalheiros, mas tudo bem. Nos prolongamos tanto em nossa árdua tarefa de proporcionar tanto prazer a nossa Távola que o tempo passou e não nos demos conta, mais isto também não importava mais, o que mais importava era o raro momento.
Finda a nossa aventura épica fomos cada qual para sua casa, felizes, saciados, satisfeitos e acima de tudo com aquele sentimento heróico de dever cumprido. Porém, foi só chegar em casa para a fantasia se desfazer e a realidade mostrar suas terríveis garras, a verdadeira batalha épica se apresentou. A mais terrível de todas as batalhas já travada por este simples mortal, que espero que o imortal Rei Artur e seus cavaleiros não tenham tido que travar, qual seja, a de explicar para a esposa a razão do atrevimento de chegar tão tarde em casa. Não pelo fato de a amada esposa ser cruel, mas simplesmente em razão da desculpa ser ridícula.
Após esta derrota descomunal, que mais tarde fiquei sabendo, também, foi sofrida pelos demais cavaleiros da nossa távola redonda, não nos restou outra saída se não a de semanalmente nos socorrermos da mesma mesa, no mesmo bar, nomeá-la novamente de Távola Redonda, nos revestirmos das honrarias de Cavaleiros, porém, com o cuidado de nomearmos um Cavaleiro de Senhor do Tempo, o homem que cuida do relógio e nos salva de termos que enfrentar novamente batalhas domésticas. Pois, já ensinava aquele grande general, as batalhas que não podem ser vencidas tem obrigatoriamente que ser evitadas.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

5 de set de 2008

As meninas de saia curta

Sábado, compromisso marcado, aula o dia todo. O módulo era nada mais nada menos que comércio eletrônico. Na cidade mais um Stammitisch rolava solto. Muita comida e bebida deixadas de lado em nome do saber. Confesso que foi uma luta hercúlea até tomar a decisão de ir para a pós-graduação. Lá, no Stammitisch, eu sabia o que iria encontrar. Na sala de aula, por razoes obvias, existia apenas uma expectativa, que eu deixo para os leitores tentarem adivinhar se era boa ou não.
Aula começada sentei no centro do “U”, como sempre faço. Aqui cabe uma explicação, na pós as mesas são organizadas em “U”, talvez para um aluno não sentar na frente do outro, quem sabe é uma tentativa de nivelar a todos, não sei! Mas isto não tem a mínima importância. O que importa é que entraram duas, digamos assim, beldades, para ser um pouco educado. As duas tinham algo mais em comum, além do corpo escultural e os cabelos escuros, lisos e de mesmo comprimento. Era a roupa, iguais, blusa rosa e saia jeans. Formavam uma bela dupla, que pude notar mexeu intensamente com a imaginação fértil do clube masculino. Fato comprovado com as mexidas na cadeira e alguns sorrisos de canto de boca que se manifestaram. Pintou aquela cumplicidade em que não é preciso falar nada, mas todos se entendem.
O acaso de mulheres se vestirem iguais é odiado por elas. Para nós, do clube masculino, é até engraçado, ou melhor, vai alem do engraçado e caminha despudoradamente pela nossa, já citada, imaginação fértil do clube masculino. As blusas até que eram bonitinhas, uma era tomara que caia, mas resistiu bravamente durante todo o dia e não caiu. A outra era de alcinhas, que também não arrebentaram. A mentalidade masculina é de uma fertilidade a toda prova. Acontece que as blusas se tornaram peças de menor importância diante das saias jeans.Que saias! Minha querida esposa que me desculpe, mas um pretenso escritor, quando põem suas idéias no papel tem que ser fiel apenas a sua obra. Esta liberado para ser levemente, um pouco, quase canalha. As saias eram curtíssimas, deixando a mostra dois belos pares de coxas.
Alguns dos representantes do clube masculino, os mais afoitos, ou talvez os mais desesperados, foram mais além do que observar apenas o que as saias permitiam, ou pelo menos tentaram. Para piorar as coisas, talvez na tentativa vã de fugir da situação, uma sentou-se à direita do “U” e a outra à esquerda, ambas voltadas para o centro, onde se encontrava este quase desesperado cronista. A minha frente se encontrava o professor, que não teve a menor chance na disputa pela atenção da turma, pelo menos a do clube masculino. Até o computador se recusou a trabalhar direito. Assim seguiu a aula, até o seu encerramento.
De minha parte, me esforcei para manter ao máximo a linha. Lutei com todas as forças para manter equilibrada a frágil balança masculina, que de um lado sustenta o homem canalha e do outro o homem cavalheiro. Pobre balança. Nada contra o professor, mas era impossível manter o olhar e a atenção nele, quando desviava meu olhar, quer seja para a direita ou para a esquerda, não tinha jeito, lá estavam elas, as pernocas. Fazer o que? Diante de tamanha angustia restou apenas uma certeza, foi umas das melhores aulas de todo o curso. Mas, como tudo o que é bom acaba, as aulas terminaram e as meninas se foram. Eu fiquei com uma certeza, não foi para mim que aquela dupla se arrumou. Mas minha fértil imaginação masculina não deixou de imaginar que bem poderia ser que aquela dupla após a aula fosse se apresentar lá em casa. Coitada da balança masculina, quebrou de vez!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Espírito de Natal

O Natal é um misto de alegria e angustia. Inúmeros psicólogos já estudaram e publicaram muitos materiais sobre esta ambigüidade que o Natal representa. Ninguém escapa, é uma mistura de alegria e estresse (pelo menos das compras). Particularmente eu detesto esta coisa toda de compras e da obrigação de dar presentes, mas não tem como evitar, e todo ano se repete a mesma angustia. Acho que a alegria só vem mesmo quando tudo acaba. Pois bem, depois de todos os presentes comprados, minha esposa me intimou para irmos ao supermercado, em pleno 23 de dezembro.
De cara já pressenti que seria uma “maravilha”, o estacionamento estava lotado. Era só o começo! Agarrado a um carrinho começamos a árdua tarefa de tentar nos deslocarmos entre os corredores e gôndolas. Tive a impressão de que encontrei pessoas que nunca foram a um supermercado. Pessoas que achavam que estavam sozinhos, paravam os seus malditos carrinhos no meio do corredor, atrapalhando a tudo e a todos. Com muito custo e um esforço sobrenatural para manter a calma consegui chegar ao fim de uma odiosa lista de compras preparada pela digníssima esposa, que naquela altura eu já a estava classificando como meu verdugo particular.
Terminada a primeira parte da tortura, o preâmbulo, agora sim é que o inferno se materializou, tínhamos que encontrar um caixa. Ou melhor, havia uma profusão de caixas, o difícil era escolher o menos carregado. Eis, que vislumbrei um em que havia uma senhora com uma cestinha, pela lógica era o que deveria ser o mais rápido. A alegria começou a tomar conta de mim. Posicionei-me na fila, atrás daquela senhora e fique observando o movimento, rezando para que o tempo passasse rapidamente, mas que nada. Tive a nítida impressão que assim como nos engarrafamentos do trânsito, a minha fila era a que andava mais devagar. De repente se aproxima um ser meio disforme, com cara de duende, carregando uma cestinha abarrotada de compras, e sem cerimônia alguma furou a fila na minha frente se juntando aquela horrível senhora, que agora observando bem, tinha cara de bruxa malvada.
Quando iria interpelar aquele duende mal acabado e muito mal educado, minha esposa, que me conhece muito bem, me pegou pelo braço e sorrindo me disse, olha o espírito de Natal. Engoli em seco e deixei passar. Era esperar demais achar que uma bruxa malvada pudesse ensinar bons modos para um duende mau acabado. Eu deveria estar delirando, talvez eu estivesse entrando em um estado febril, como se meu corpo rejeitasse todo aquele estado em que eu havia me envolvido. Louco de raiva comecei a procurar algo que me distraísse, pois não poderia permitir que aquela família monstro me tirasse do sério.
Ao olhar para a esquerda tive uma magnífica visão. Era loira, cabelos longos, olhos verdes, seios fartos e mais tarde, quando ela passava no caixa pude perceber que aquela parte do corpo que é conhecida como a preferência nacional, nela era maravilhosa. Tentei disfarçar para minha esposa não notar. Até por que eu sempre fui um cavalheiro, e minha esposa sempre soube que para mim, apreciar o que natureza tem de belo, nada mais é do que isto mesmo, um efêmero exercício de observação e nada mais.Só que não custa nada evitar aborrecimentos.
Comecei a acreditar que o tal Papai Noel até que poderia existir, e que não custava nada fazer um pedido pra ele. No estacionamento comentei da beleza da loira, e minha digníssima sentenciou, é silicone! Tudo bem, não era tudo tão natural assim, mas no conjunto até que funcionava bem. Atrevi-me um pouco mais e comentei dos outros predicados, para saber se era silicone também. Será que estavam fazendo isto com a preferência nacional? Mas minha esposa me tranqüilizou afirmando que os glúteos da jovem eram naturais. Melhor assim. Aquela noite dormi com um leve sorriso nos lábios, e fiz um pedido pro velho Noel. Agora que estou acreditando nele, não posso perder a oportunidade, espero que ele me atenda e que eu possa saborear na noite de natal uma bela caixa de bombons. Isto é que é Espírito de Natal.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

O Brasil vai invadir os Estados Unidos

Não sou especialista em política internacional, alias não entendo nada deste assunto, mas algumas noticias vindas de Brasília (BSB) me levam a acreditar piamente que o Brasil esta preparando um ataque contra as terras do Tio Sam. O Presidente comprou um avião novo e o mesmo será batizado como Santos Dumont. Tenho lido e ouvido muitos debates sobre a necessidade e até sobre a oportunidade da compra de tal aparelho. Não dou bola para estas questões, até deveria, pois faço parte da massa que vai pagar a conta, mas tudo bem. O que me chamou a atenção no “SD”, como estou ajudando a pagar a conta, me sinto intimo do aparelho e, portanto para mim ele é apenas SD. Voltamos ao que me chamou a atenção, e foram duas características. Não foi o fato do presidente ter que diminuir a sua comitiva de agora em diante, já que o SD só pode levar no máximo 55 pessoas, abrindo mão de grande parte do séqüito que costuma o acompanhar. O que me chamou de verdade a atenção foi o sistema antimíssil e o sistema de comunicações que podem torna-lo em centro de comando, em caso de guerra.
Mas não é o SD isoladamente, ele chega acompanhado de outras noticias, que juntas formam um cenário perigosíssimo para os lados do Tio Sam. O Inglês foi abolido como língua de domínio necessário para ingressar no Instituto Barão do Rio Branco. O nosso Ministro das Relações Exteriores em recente pronunciamento internacional utilizou o idioma da terra de Dom Quixote, ignorando solenemente o de Shakespeare. Se for assim, por que não o faz no nosso bom português homenageando Camões e Saramago? Outros sinais estão vindo de BSB. O Brasil tem se afastado do grande satã do norte e procurado liderar os mais pobres, do que nós. Falar em ALCA e aproximação com os do lado de cima de equador tem dado urticária nos gabinetes governamentais de BSB.
Eu me recolho na minha insignificância e fico tentando imaginar onde tudo isto pode nos levar e de repente me veio na lembrança um filme que assisti quando criança. Uma comédia meio pastelão denominada de O RATO QUE RUGE. Não lembro bem do filme, mas lembro que era uma monarquia, onde os mandatários para saírem da pindaíba enviaram uma declaração de guerra ao Tio Sam. A lógica era simples, entrar em guerra com a superpotência e perder, assim como houve com os vencidos na Segunda Guerra Mundial, os vencedores aplicariam um plano de desenvolvimento e o tal pais administrado por pseudogovernantes sairia bem da empreitada.
Acontece que nas terras do Tio Sam, o burocrata de plantão que recebeu a ameaça, simplesmente a ignorou e não restou outra saída, e o USA teve de ser invadido. Não é que o incompetente do GENERAL encarregado de invadir as terras do “Uncle” foi lá e venceu, pois roubou uma bomba atômica. A situação toda era muito cômica. Bem semelhante ao que vemos vindo de BSB. Pelo andar da carruagem, logo teremos um novo rato que vai rugir e vai rugir muito alto. Te cuida “Uncle Sam”, pois reizinhos e incompetentes BSB esta cheia. Tanto que não perdoaram nem o nosso pai da aviação. Santos Dumont não merecia isto!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

O Celular

A vida moderna nos proporciona uma gama muito grande de comodidades, disto ninguém dúvida. Alias, esta afirmação tem sido feita tantas vezes e por tantos, que não é mais novidade nenhuma. Mas, existe um algo a mais nestas novidades, que é um mundo paralelo que orbita ao seu redor. Um fato interessante aconteceu dia destes no aeroporto internacional de Porto Alegre, quando eu e um grupo de amigos aguardávamos o nosso vôo para Buenos Aires. Sentados na praça de alimentação, tomando o chopp nosso de cada dia, nos chamou a atenção uma jovem ao celular. Não exatamente o fato de ela estar falando ao celular, tampouco sua beleza, pois a mesma era desprovida destes predicados, o que nos chamou a atenção era como ela falava ao celular, e como falava.
Destoante de todos os infelizes que se vêem obrigados a fazer sua refeição em uma praça de alimentação de aeroporto, a nossa donzela falante permanecia em pé, tal qual o bom soldado que só se dirige ao seu general nessa posição, a mesma talvez tentasse mostrar um respeito descabido ao minúsculo aparelho. Não apenas de pé, mas durante todos os mais de 40 minutos que durou a conversa, a nossa donzela tagarelante se movimentava constantemente interagindo com os objetos do ambiente. Não escapou nem uma coitada palmeira, que solitariamente tentava dar vida àquele ambiente de granito e aço. Pela vontade com que suas folhas eram fustigadas, conclui que se trata de exemplar natural de nossa agonizante floresta tropical, até porque ninguém perde seu tempo fustigando um pedaço de plástico, mesmo que este esteja fantasiado de palmeira. Durante 40 minutos nossa personagem central fez a alegria da operadora de telefonia móvel e foi o deleite de nossa fértil imaginação.
A questão central, de nossa conversa, girou em torno do seguinte ponto, o que leva alguém a doar 40 minutos de sua efêmera existência para uma conversa ao celular. A partir desta curiosidade, quase mórbida, e sob os primeiros efeitos do feitiço de Baco, deixamos nossa imaginação fluir, despudoradamente alçar vôos. Vôos altos e longínquos e ao mesmo tempo profundos e cruéis. Eu e meus colegas, melhor seria chamá-los de comparsas, não poupamos a pobre donzela de pulmões de aço. Fomos terríveis ao usá-la para saciar nossa mordaz imaginação. A pobre nem imagina que foi personagem central do enredo de inúmeras aventuras.
Deixando nossa imaginação fluir livremente nossa vítima mor foi personagem central de aventuras, dramas existências, terrorismo internacional, espionagem, amor, traição, sexo, muito sexo e tantas outras aventuras e desventuras. Passava de heroína a mais terrível vilã, de idolatrada esposa a mais despudorada messalina, em frações de segundo. Felizmente para ela, não era possível sentir em suas costas as lancinantes chicotadas de nossa ferina língua. Mas, como tudo que é bom sempre acaba, com um simples toque a conversa chegou a seu final, nossa heroína/vilã sentou-se e perdemos o interesse por ela, que agora voltava à condição de simples mortal, e para nós ficou o mais terrível de tudo, a danada nem se deu conta de nossa presença, quanta decepção!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Esta crônica foi premiada no 1º Concurso Talentos

O desafio - Minhas aventuras no arvorismo

Tornar uma aula de sábado, em dezembro, agradável constitui-se em si, um grande desafio. Desafio para nós alunos, que tivemos um ano atribulado e como presente de Papai Noel (sádico), somos brindados com aulas em três sábados no mês de dezembro. Após todas as revoltas de praxe, estávamos, todos, no primeiro sábado para recepcionar o novo Professor. Feitas as civilizadas apresentações, recebemos dele uma interessante proposta, que era a de executarmos o que alguns chamam de esportes radicais.
O desafio era a turma se dirigir até o parque Unipraias para a prática de ARVORISMO. E não é que o pessoal aceitou! Bateu o terror, de imediato o desespero tomou conta de mim. O que este pessoal estava fazendo? Eu paguei para fazer um curso dentro da sala de aula, com ar condicionado, “cofee braeck” e tendo como companhia os livros, entre outras mordomias, e nada mais. Traidores! Eu sou um aluno de MBA e não um macaco para andar pendurado em árvores. Senti que estavam todos contra mim. Com toda a certeza não estava nos meus planos andar pendurado em árvores ou qualquer outra coisa do gênero. Alias, eu já tinha feito tudo isto, muito antes destas atividades serem classificadas como esportes radicais. Em segundos recuperei lembranças que havia feito questão de esquecer. Em um instantâneo “flashback” recuperei meus tempos de Aluno Oficial na Academia, quando uma vez por ano realizávamos os chamados “treinamentos na selva”. Meu desafio agora era outro, como fugir desta armadilha? De repente uma luz. Um aluno sacou de seu pé e sentenciou, eu não posso! Quebrei meu pé e ele ainda não esta recuperado. A salvação se vislumbrava, um alento de felicidade tomou conta de mim. Quem sabe todos os alunos também tinham quebrado um pé, ou um braço e ninguém poderia ir. Triste ilusão, nada, ninguém se manifestava. Não teve jeito.
Dia marcado e lá estava eu, 20 anos depois, me encontrava diante, novamente, de uma mancha de mata atlântica que sobreviveu ao homem, odiei por uns instantes os ambientalistas, não se ofendam, foi só por uns míseros instantes. O primeiro desafio foi encontrar um capacete que tivesse o tamanho proporcional ao diâmetro de minha caixa craniana, resumindo que fosse grande o suficiente. Desafio vencido, de repente me vi todo equipado e pronto para encarar a copa das árvores. Éramos orientados e guiados por uma trupe de seres disformes e inominados, que se esforçavam em parecer alegres. Tratavam-se por codinomes estranhos, que devido a um forte bloqueio emocional Harry Potter é o único que eu consigo me lembrar. Tentavam nos incutir que seria tão fácil quanto caminhar no parque (mas nem isto eu faço). Que tudo era seguro. Realmente a segurança foi o ponto alto. Só que algo dentro de mim insistia em dizer que não era bem assim, que não deveria confiar em seres que não se tratam pelo próprio nome.
Entre as explicações de segurança fomos apresentados a uma tal corda sorriso, que recebeu este nome em razão de sua forma. Fiquei por alguns segundos olhando a tal corda sorriso, e ela olhando para mim. Pude então perceber que o seu sorriso era um deboche, uma provocação, um sarcasmo, um verdadeiro acinte. A cada etapa vencida eu tinha que me prender a tal corda sorriso e a mediada que eu ia progredindo o seu deboche só aumentava. Iniciado o processo de tortura, concentração a toda, venci rapidamente os primeiros obstáculos. A empolgação começou a tomar conta mim. De repente eu poderia vencer a tudo e a todos, disto eu tinha certeza. O que viesse pela frente seria rapidamente derrotado, eu simplesmente passaria por cima. Eis que então sou tirado daquele estado letárgico por uma voz feminina, “Capitão, Oh Capitão, olha que belezinha, fecha as pernas Capitão”. Fui jogado de volta para a realidade. A casa caiu! E agora? Voltar não dava mais. Aquele não era o meu ambiente, eu não fazia parte daquilo.
Olhei para o percurso que faltava e desanimei. O desespero novamente se apresentou e senti que ele seria o meu companheiro até o fim daquele suplicio, junto com a aquela adorável voz feminina. Quem disse que quando o estupro é inevitável, relaxa e goza, é porque nunca foi estuprado, disto, agora eu tenho certeza! Fui levando aos trancos e barrancos e torcendo para que acabasse logo, mas não acabava. Vencido um obstáculo já se apresentava outro. Em certos momentos a situação ficou crítica, beirava ao ridículo. O riso sem graça que tentava despistar o nervosismo já não funcionava mais. De repente, não mais que de repente, lá estava ela, a tirolesa, o último obstáculo e estava tudo acabado. Vislumbrei minha salvação, a felicidade suprema.
Quando cheguei na plataforma o que eu vejo? Além do sorriso idiota da tal corda sorriso, me deparei com o pior de todos os pesadelos. Sentados como que em um teatro, estava a platéia formada pelos meus colegas de aventura, todos aguardando o “gran finale” do Capitão. Não teve jeito, rapidamente, depois de umas oito ou nove tentativas, e algumas ameaças do instrutor, me lancei ao espaço, preso pelos equipamentos de segurança é lógico, e me preparei para a aterrissagem, que ocorreu sem traumas.
Estava acabado! Eu havia vencido, eu era um herói. Ninguém deu bola! Eu havia sobrevivido, passei incólume, pelo menos fisicamente, já que moralmente a recuperação foi um processo mais lento. Agora que tudo esta acabado até que foi divertido, e já estou com saudades, ou melhor, estou é sentindo falta. Acho que nasci para os esportes radicais. Corre nas minhas veias um espírito aventureiro que eu desconhecia. Já me vejo em outras aventuras, tais como “sky diver”, “base-jump”, “snowboard” e muitas outras um pouco mais radicais. Vencidos os primeiros desafios, que venham os outros. No momento luto bravamente para vencer mais um deles aqui em frente ao computador, enquanto digito este texto. Como ressaca da prática radical fiquei com o meu corpo, sedentário, todo doído, se constituindo em feroz batalha digitar qualquer coisa. Pensando bem, acho que vou colocar meu espírito aventureiro em repouso, é mais saudável.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

4 de set de 2008

Tormenta de emoções

Doce, o aroma se expande, contamina o ar.
Energia, lancinante, desfalece o ser.
A pele se amplia em cada um dos poros, arde!
Como hortelã, invade, refresca a alma.

Trovões de violinos embalam a fúria serena do mar.
A aridez da seda, sutil, embriaga o alvorecer.
O ardor da lava enrijece a fibra, desfigura a carne.
A sensualidade do aroma alastra, acalma.

Placidamente ouço (minha) voz urrar.
A fúria escaldante congela o prazer.
O fogo da liberdade destrói o limiar.
Realidade retumbante, abrupta, desperta.

Lampejos - de lucidez - fingem aflorar.
O desconhecido nutre o resplandecer.
O inédito impulsiona o desabrochar
Em êxtase, finalmente, a resposta liberta.

Foi... Só o amor!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

O pêndulo

Dizem que vai e vem
Mas ele vai e vai
Pois se fosse e viesse
Não iria
Então, já se foi.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

O eterno

O tempo passou e ele não viu
Que a busca do tempo o tempo ruiu
E assim, de novo, ele não viu
Que o tempo não é o que se busca
Mas sim o que se sentiu.
E, que eterno não é o que se quer
Mas, sim de onde ele partiu.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Desespero

A vida, desprezo.
O amor, desconheço.
A gratidão, ignoro.

A amizade, abandono.
A liberdade, anseio.
A morte, espero.

A morte não veio!

Recorro ao desespero.
Como achar?
Quem me salvará?

A solidão se oferece!

Do amor necessito
A gratidão acalento
Com amizade consigo a
Liberdade. Bem...
Essa só com a morte.
Mas a morte não veio!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Os sete pecados

Enquanto a Luxúria lhe motivava
Aos amigos Invejava e
Suas mulheres Cobiçava
Com Preguiça a vida levava
Da Gula se fartava
Com Ira se relacionava
Os Sete ignorava
O Orgulho...
Bem, este, a Vida lhe roubava.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Histórias de um mundo assombrado

Um amigo me contou que em sua aldeia, os pais, para assustarem as crianças, contavam a história de um mundo assombrado. A história orbitava em torno do eterno combate entre o bem e o mal, as forças da luz contra as das trevas, como em toda cultura. Mas naquela aldeia eles encontraram uma forma mais assustadora, ainda, de dar vida ao tema. Vamos a ela.
Cai a noite. As criaturas nefastas, ligadas ao maligno, se reúnem. A cidade calma prepara-se para mais uma noite tranqüila de descanso. Mas as pessoas não sabem o que as espera. Não passa pela cabeça, do mais simplório ao mais audaz dos chefes de família, e das demais pessoas que trabalharam e trabalham diariamente para ganhar seu sustento, o que está por vir. As famílias já estão reunidas, muitos já fizeram sua refeição noturna e estão se retirando para o repouso após um árduo dia na labuta. Labuta esta que irá proporcionar-lhes, ao final do mês, uma retribuição financeira para que o seu sustento esteja garantido por mais um mês, para os mais afortunados, ou pelo período que der, para a grande parte deles. A ampla maioria procura formas de aumentar esta retribuição financeira para terem um pouco mais de dignidade. Uns se entregam a mais horas de trabalho na mesma atividade, outros buscam uma segunda atividade, porém, tudo dentro de uma dignidade. Mas as criaturas nefastas não. Estas buscam formas menos dignas, na verdade, totalmente indignas para verem aumentada sua participação no quinhão. Obviamente, sem aumentarem o tempo que deveriam dedicar-se à sagrada arte do trabalho. O quinhão, disse esse meu amigo, era o que os aldeões eram obrigados a pagar às criaturas. E que as criaturas eram um pequeno grupo de aldeões que estavam a serviço do lado negro da força.
Tudo estava preparado, seria naquele dia e na calada da noite. As criaturas da noite começam a chegar. Para não chamarem muito a atenção, reúnem-se, quase que em segredo e tramam o pior. Algumas destas criaturas se assustam com a vilania da maldade que lhes é apresentada, temem pela forma como os da aldeia, que deveriam representar, irão receber a notícia. Outros, sem se importarem, sem darem a mínima para os aldeões, seguem em frente com seu intento e tratam de convencer os demais a aceitarem.
O tempo vai passando e quando as trevas da noite lançam suas sombras sobre o casario do belo vale, o castelo, agora transformado em covil, entra em ebulição. É um frenesi, algo semelhante ao de um cardume de piranhas quando estão a devorar sua presa. Outros, pelo movimento que fazem, lembram mais o giro da morte executado pelos jacarés quando arrancam grandes nacos de suas presas. Há, ainda, os que lembram mais o ritual de crueldade perpetrado pelo grande tubarão branco, que de posse de sua vítima brinca com ela antes de devorá-la. Para os mais criativos, ou nem tanto, o espetáculo lembrava mais aquele que minúsculos seres alados, conhecidos como moscas, estabelecem quando se banqueteiam em fedorentos exemplares de material orgânico em decomposição, conhecidos como bolo fecal.
Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir garantem que foi um espetáculo dantesco, triste mesmo. Chegaram a compará-lo com as cenas degradantes que tomam lugar quando populações em situação famélica se atiram contra qualquer coisa que possa lhes encher o bucho e aplacar um pouco sua fome. E vão mais longe ao afirmar que tão grotesca era a cena, que levaria às lágrimas aqueles de estômago mais sensível.
Tudo pronto, tudo preparado, as artimanhas funcionaram como nunca, os sortilégios do lado negro da força mostraram todo o esplendor de sua força e o golpe fulminante foi lançado contra a dignidade de todo um povoado. Quando os primeiros raios do sol fizeram repousar as trevas da noite, o mal, através dos maus, triunfara. Os senhores vis, as criaturas nefastas, que na verdade deveriam representar os interesses dos demais, quem sabe inspirados em Lúcifer, dançavam a dança da vitória. E o povo mais uma vez constatou o desprezo que lhes dedicava a horda de perversos. De forma escancarada eles haviam aumentado a sua cota de participação no quinhão. Mas os aldeões não se deram por vencidos. Protestaram e fizeram chegar sua indignação, sua revolta ao grande líder, que chamou as criaturas nefastas e negociou a paz, desfazendo momentaneamente o mal e resgatando a dignidade dos aldeões.
Nesta história, mesmo que de forma momentânea o mal triunfou. Ainda bem que é apenas uma história para assustar criancinhas. Mas é bom ficar atento, pois nunca sabemos as formas com que as forças do mal, do perverso, podem se manifestar. Lá, na aldeia do meu amigo, esta história é transmitida de geração em geração, para que os aldeões nunca se esqueçam do perigo a que estiveram submetidos naqueles longínquos dias, mas que continua a pairar sobre eles, espreitando, aguardando o melhor momento de voltar e fincar suas garras vis na dignidade da aldeia. Até hoje eu ainda me arrepio e chego a suar frio só de imaginar que isto possa um dia voltar a se materializar, mesmo que seja lá, naquele vale remoto, em que está localizada a aldeia do meu amigo.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta

O facínora de alta periculosidade e elevada idade

Eu tenho um amigo que me consta histórias fascinantes que aconteceram na aldeia dele. Em uma das oportunidades ele me contou de um perigoso facínora, um terrível malfeitor de elevada idade, ou melhor, como este perigoso celerado foi criado, se tornou alguém de alta periculosidade para a toda a aldeia.
O homem enveredou pela vida do crime já idoso, com quase 80 anos, mas foi fundo e terminou preso, enjaulado, segregado da sociedade. Ocorre que não foi o homem que alterou seu comportamento, mas sim o comportamento dele que passou a ser encarado pelo viés criminoso. Ele, o facínora, antes de o ser, passou quase a totalidade da sua vida amarrando a sua vaquinha para pastar em um local público. Esse foi o começo de sua vida criminosa.
Dia após dia, ele calmamente levava seus ruminantes de chifres e os deixava placidamente fazerem aquilo que a natureza exigia deles, ou seja, pastarem. Isso por décadas. Mas o tempo foi passando, a sociedade foi ficando mais complexa e para poder por ordem no caos os habitantes da aldeia foram alterando o seu código de leis. Assim, sempre que um tipo de comportamento começava a incomodar, eles determinavam que o mesmo passasse a ser crime e os criminosos eram punidos. Agindo assim, os aldeões achavam que conseguiriam resolver os seus problemas.
Então, após o tempo surtir seus efeitos em décadas de existência, as coisas complicaram para o lado daquele que viria a se tornar um perigoso criminoso. Alheio aos caprichos da aldeia, a natureza seguia seu curso exigindo que as vaquinhas continuassem a pastar. Como o pasto continuava apetitoso as vaquinhas eram levadas diariamente para o mesmo lugar. Mas, o pasto, mesmo apetitoso, estava em lugar errado. Não, o pasto não se moveu, foi o entorno dele que foi alterado pelo povo da aldeia, de forma que a presença dos chifrudos ruminantes passou a ser um perigo para vida dos integrantes da aldeia, mesmo que eles só pastassem. Um determinado dia, um dos aldeões achou que tinha dar um basta naquela grave quebra da ordem e determinou, em nome da normalidade, que os chifrudos não poderiam mais fazer sua alimentação naquele local, que o dono dos bichos estava proibido de conduzir as vaquinhas até aquele apetitoso e verdejante pasto.
Foi quando as coisas, que já estavam ruins, pioraram para o facínora. Ele simplesmente se recusou a cumprir a determinação, já que por décadas, religiosamente dia após dia ele conduzia seus animais ao mesmo local. Para ele, já com os efeitos do tempo agindo em sua longa existência, ficara difícil acompanhar a velocidade das mudanças no comportamento do povo da aldeia. Na sua forma de raciocinar ele não enxergava o terrível crime, ato vil, pecaminoso, abominável e desprezível, que insistia em reproduzir no seu cotidiano, em uma afronta aos agora sagrados códigos de conduta.
O vilão-mor foi conduzido para dar explicações. Na tentativa de justificar suas atitudes, e sem dominar o linguajar adequado, foi dado com o perigoso encrenqueiro e lhe atribuíram mais um crime. Coitado, não sabia que falar de forma inadequada tinha sido transformado em crime, e agora passara a ser um criminoso freqüente, um delinqüente de vários crimes. Para alguns ele era apenas birrento, alguém que as duras décadas de existência não permitiram se aperfeiçoar no trato com os demais aldeões. Mas, para outros, não. O seu comportamento era algo inadmissível, perigoso para o convívio com aldeões distintos, os considerados decentes. E ele foi encarcerado, segregado da aldeia. Foi entregue para cumprir sua pena longe do todos. Mas lá, ele conseguiu algumas regalias, coisas que a idade avançada ainda permitia, de modo que apenas passava a noite lá e durante o dia ele podia cuidar de sua companheira de longa data, e também das vaquinhas, que agora estavam em outro lugar, alheias a tudo saboreando outro pasto verdinho.
Até que um dia ele abusou da bondade do aparelho segregador, em determinada noite ele não voltou. Ficou cuidando da sua companheira, que estava adoecida. Novamente ele percorreu o caminho indevido e afrontou o sistema montado pelos aldeões para cuidar de gente como ele. Sendo assim, o sistema que foi criado para segregar os perigosos dos demais aldeões não podia permitir tal assanhamento, tamanha petulância, e ele perdeu toda e qualquer regalia, seus benefícios foram cortados, ele deu adeus aos privilégios, afinal regalia é prerrogativa apenas de quem merece. Assim nosso facínora, do alto de sua periculosidade angariada em quase oito décadas de existência passou a compartilhar sua companhia com gente tão perigosa quanto ele, homicidas, traficantes, ladrões e outros. A sociedade finalmente estava protegida de tamanho risco. Poderia agora retornar a sua calma. Lá, disse o meu amigo, referindo-se a aldeia dele, eles chamam isso de justiça. É?

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta

Tropa de Elite – Tráfico de Drogas e Direitos Autorais

Assisti recentemente um debate entre o Diretor do filme Tropa de Elite e alguns jornalistas. Um papo do tipo cabeça, que envolvia discussões sobre doutrinas totalitárias, citações de autores famosos, muita filosofia e outras coisas do tipo "eu-sou-da-elite-intelectual". Bem daquele tipo que se emprega quando queremos ficar distante da grande massa, do povão, daqueles que não dominam esse tipo de vocabulário. Os jornalistas se esforçavam para imprimir um viés cultural ao debate. O diretor, por sua vez, reforçava a posição do grupo e se mostrou muito bem articulado, fazendo várias citações a conhecidos "medalhões" nacionais que escrevem sobre a segurança pública.

Uma bem urdida tentativa de transformar em debate cultural um simples filme comercial. Digo simples no sentido de ser comercial, igual a qualquer outro, sem entrar em detalhes técnicos sobre roteiro, luz, movimento de câmera, cenografia, desempenhos dos atores e outros detalhes da mesma linha. Mas, chamou-me a atenção o fato de que os ditos "medalhões" citados eram sempre os mesmos. Ou seja, o universo acadêmico utilizado pelo diretor orbitava em não mais que duas ou três "estrelas".
Em dado momento pareceu-me aquelas discussões intelectualoides sobre o ciclo de cinema cultural sueco. Não tenho nada contra os suecos, ou contra o cinema cultural, ou ainda contra um tal ciclo de cinema cultural sueco, se é que ele algum dia existiu, mas é que isso tipo de debate não interessava a ninguém, somente aqueles que queiram se passar por intelectuais. No meio acadêmico aprendemos que em um debate devemos recorrer aos chamados amigos, que são na verdade pesquisadores que se notabilizaram através de pesquisas em suas respectivas áreas. Assim, se eu citar um desses amigos, o meu contendor vai ter que se armar para discutir com ele, refutar os argumentos dele, e não os meus. Assim seguia o nosso diretor, o roteiro costurado para aquela cena.

Voltando a constelação, nanica, diga-se de passagem, utilizada por nosso diretor, tive a impressão de que ele fez algo do tipo "decoreba". Assim como fazem alguns, que se dizem guias turísticos, e começam a desfiar uma ladainha aos incautos turistas que têm a má sorte de se verem presos a esses estupradores da cultura alheia. Ainda me chamou a atenção o fato de que o diretor não encarava as câmeras e nem olhava para os jornalistas, era um olhar voltado e fixo para o chão, além de ficar o tempo todo mexendo na aliança ou anel, não consegui ver direito, mas com certeza eram sinais de que ele não estava à vontade.

Tive a impressão de que se nosso solitário e sitiado diretor - sim, pois ele estava no meio de um circulo e os jornalistas, tal qual sedentos algozes, o circundavam – não sobreviveria a um debate sério, verdadeiramente fundamentado nas questões de segurança pública, já que os seus amigos da segurança pública eram poucos, muito poucos. Na verdade eu tinha a impressão de que logo o Capitão Nascimento e seu Batalhão iriam fazer uma tomada tática do estúdio e resgatar o diretor, nem sem antes meter a cabeça dos jornalistas dentro de sacos plásticos até eles confessarem que tudo aquilo era parte de um complô para imprimir um tom cultural em algo que tom o foco na bilheteria, apenas. Depois do resgate o Capitão Nascimento se voltaria para o diretor, e como se estivesse no curso de táticas policiais, aplicaria um severo tapa em sua cara e gritaria: "senhor diretor, olha pra mim, olha pra mim, não olha pro chão não! Larga já esse anel e olha pra mim! O senhor é uma vergonha, senhor diretor! O senhor está envergonhando o nosso nome, senhor diretor! O senhor não é digno de estar aqui, senhor diretor! Pede para desistir, senhor diretor, pede pra desistir senhor diretor!"

Em determinado momento, ele o diretor, disse que uma das propostas do filme era chamar a atenção para a descriminalização das drogas. Argumentava que quando o consumo e a venda de drogas deixassem de ser crimes, iria acabar com toda a rede criminosa que o cerca. Ora, esse tipo de argumento, é antigo e ainda não se provou verdadeiro, não havendo a necessidade de mais um filme para tratar da problemática das drogas. Não me convenceu! Para mim Tropa de Elite continua sendo mais filme comercial como tantos que têm por ai. Mas o filme não foi feito para me convencer de nada, alias, ele foi feito para me convencer de uma coisa, apenas uma, ou seja, eu tenho que comprar um ingresso e ir assisti-lo, assim como fiz, e faço, com tantos outros filmes, como o Schreck e o Garfild, só para ficar em dois exemplos.
Mas, em seguida ele soltou a pérola que para mim define tudo sobre Tropa de Elite, o interesse meramente comercial. Os debates, os papos cabeça e todo o resto são puro marketing, o que interesse mesmo é a bilheteria. Oras, após defender o fim do crime para as praticas relacionadas com o consumo de drogas, o nosso diretor sentou a lenha na pirataria, de forma elegante, é claro. Discorreu um rosário de razões contra essa prática cruel que aflige a produção intelectual e sustenta uma rede criminosa, que nem o BOPE do Capitão Pimentel conseguira acabar. Sacaram só a semelhança entre o tráfico de drogas e a pirataria? Os dois sustentam uma rede subterrânea do crime, criam uma sociedade paralela a nossa.

Então eu vou dar uma sugestão para acabar com a rede criminosa que sustenta e é sustentada pela pirataria, e vou buscar no diretor – lembram o que eu falei anteriormente de irmos nos socorrer dos amigos em nossos debates – pois é vou buscar no diretor e nos jornalistas, que com ele debatiam a solução. Vou usar os jornalistas por que nenhum deles ousou contradizer o diretor quando ele defendeu a descriminalização das drogas e como quem cala consente, lá vou.

A sugestão é bem simples, vamos descriminalizar a pirataria, isso mesmo, pirataria vai deixar de ser crime, assim vamos acabar com a rede que a sustenta e por ela é sustenta. Meu Deus como é simples! Só que ai o filme, vai perder o interesse comercial, não seria mais feio dizer: eu assisti o piratão. Mas, eles iriam ver os seus lucros escoarem pelo ralo, e isso não faz mal, pois iria sobrar mais dinheiro para os usuários comprarem drogas, as descriminalizadas, que agora já não sustentariam mais uma rede criminosa. Solução perfeita para a nossa sociedade!
Brincadeirinha escrevi o parágrafo anterior só pra sacanear. A proposta é absurda demais. Se fosse tão bom assim o nosso diretor-papo-cabeça e seus amigos intelectuais já a teriam apresentado.

É por tudo isso que o Tropa de Elite é para mim mais um filme comercial, apenas isso, e me libertem dessas pseudo-discussões, por favor! Deixem-me comprar meu ingresso em paz. Que saudades do Schreck e do Garfild!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Uma sexóloga no Ministério do Turismo

Via de regra a formação acadêmica serve como base para a vida profissional das pessoas. Via de regra, pois nem sempre é assim. Na vida política é diferente. Já tivemos um médico que foi Ministro da Economia e agora temos uma Sexóloga que é Ministra do Turismo. E eis que nossa “ministra-sexóloga” fez das suas. Em data politicamente importante, quando o Presidente da República fazia o anúncio de mais um plano, dessa vez para o turismo, ao ser questionada sobre o terrível problema que vem assolando nossos aeroportos, e atingindo a todos nós que precisamos usar do transporte aéreo, a “sexóloga-ministra” saiu com uma espetacular resposta: “relaxa e goza, pois quando chegar no destino esquece de tudo!” Tudo bem, temos que admitir que sua ousadia teve o mérito de oficializar aquilo que todos já sabíamos, que estamos sendo sistematicamente estuprados por quem deveria nos representar.

Diante de toda essa beleza de conselho eu fico me perguntando, por que não nomear logo uma prostituta para o cargo? Veja só, a sexóloga é a pessoa oriunda do meio acadêmico, ligado ao conhecimento científico, as pesquisas, aos teóricos da causa. Já a prostituta não, essa fez, e faz, seu aprendizado na vivência, está mais ligada com as práticas, com o rala e rola do dia-a-dia.

Por outro lado, o Presidente da República ao contratar uma prostituta, poderia ter seu tratamento ampliado. Não se restringiria mais apenas ao “Vossa Excelência”, mas poderíamos chamá-lo de “o senhor-rufião”, “gigolô-líder”, “proxeneta-mor”, ou para os mais carinhosos de “aquele-adorável-cafetão-de-barbas-grisalhas”.

Não podemos, ainda, nos esquecer de que com os milionários investimentos que estão sendo feitos em nossos aeroportos, os mesmos passariam a ser oficialmente reconhecidos como os bordéis mais luxuosos do mundo. Local onde as mais descaradas orgias acontecem e à luz do dia e diante (e por detrás) de todos, aliás queiram ou não, com a participação de todos.

Como os atrasos não são poucos e nem se restringem a poucos minutos, poderíamos classificá-los de acordo com as práticas sexuais, tanto as ortodoxas, como as mais heterodoxas possíveis. Assim, aqueles cujo atraso fosse superior a 8 horas, seriam os “sexos tântricos”, aquela prática oriental que permite aos seus seguidores se entregarem aos prazeres carnais por longos períodos. Os vôos cancelados seriam os “atos interrompidos”. Os atrasos menores, coisa de quinze minutos, ou um pouco mais, seriam os “ficantes” “ou peguetes” e assim por diante. Os que saíssem no horário, por sua vez ficariam sem graça, mas não faltariam gaiatos para batizá-los de “papai e mamãe”. Bem, assim tal qual o sexo, teríamos para todos os gostos.

As explicações que os passageiros dariam para quem os estivesse esperando nos destinos seriam igualmente interessantes: “é, tive um “ato interrompido” ontem e só consegui continuar hoje. Mas para meu desespero tive que enfrentar um “sexo tântrico” de 12 horas. Olha bem pra mim, estou um farrapo, minhas forças estão esgotadas, tão cedo não quero repetir essa experiência. De agora em diante, e por um bom tempo, só “papai e mamãe”, nem quero pensar na volta, não posso passar por tudo isso novamente. Não tenho mais idade para isso!”

Para os nossos políticos ficaria mais fácil explicar suas escapadas sexuais: “sabe como é, quando eu dei por mim estava enfiado em um daqueles “vôos peguetes” e aí aconteceu. A minha mulher é claro que entende, ela sabe que não foi premeditado. Simplesmente aconteceu, quando a gente se deu conta já tinha acontecido. Foi tudo meio sem compromisso, mas como fomos pegos de surpresa, estávamos sem proteção e aí não teve outra saída. Mas, resolvi tudo, arrumei um lobista que vai cobrir as minhas despesas”.

Quando a nossa “ministra-prostituta” fosse questionada sobre o caos nos aeroportos, ela com um autêntico sorriso, responderia: olha pessoal o que aconteceu foi que simplesmente fud...!

Com toda a certeza seria uma resposta mais convincente, pois seria uma resposta profissional.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

3 de set de 2008

Folia de Reis

A Folia de Reis é uma tradição de origem portuguesa que, lamentavelmente, vem se perdendo com o tempo e quase não é mais praticada. Mesmo nas comunidades descendentes dos colonizadores da terra de Camões, os mais jovens já não a conhecem. Mas, acontece que em alguns redutos ela resiste bravamente. Resiste graças à insistência de alguns audazes que teimam em manter viva esta bela tradição. De forma bem simplista, podemos descrever a Folia de Reis como sendo a representação da peregrinação feita por Gaspar, Baltazar e Belchior, os Reis Magos, há mais de dois mil anos em busca daquele que ficou popularmente conhecido como o Menino Jesus. Por esta razão, acontece no período de Natal.

A última vez que eu havia presenciado uma apresentação desta manifestação folclórica, já não lembrava mais. Forçando a memória, me vinham pequenos fragmentos como que em um “flash back” mal feito. Até que, para nossa surpresa, fomos acordados, em certa madrugada, após a terceira badalada do cuco, por uma cantoria. Começou meio que ao longe, mas na verdade era bem perto, apenas Morfeu, um tanto quanto zangado, se recusa a ir embora. Como vingança, provocava uma leve confusão. Fiquei quieto, iria resistir, pois a companhia de Morfeu me era agradável. Passados alguns instantes, ouvi uma voz que brandia “acorda, acorda”!

Pulamos da cama como em perfeita coreografia. O que fazer? O que fazer? O que fazer? Lavar o rosto foi a primeira coisa que me veio, e assim fiz. Ainda estava meio perdido, mas corri para a porta e ao abri-la, fiquei maravilhado. Melhor dizendo, fiquei bestificado. Em frente ao portão um grupo de músicos, bem uniformizado e muito bem treinado, entoava cânticos e ao redor deles um outro grupo, que eram os amigos e os amigos dos amigos. Continuava perdido, não sabia o que fazer. Voltei para dentro e fui me vestir, tirar aquele pijama, já que o mesmo não era condizente com a grandeza do momento.

Abri o portão e eles muito cerimoniosamente foram entrando. Primeiro no jardim e, após, em casa. E a cantoria continuava. Ainda sem saber o que fazer, fui para fora, deixando a casa para eles. Não foi uma situação premeditada de desrespeito, mas sim uma reação natural de quem de repente percebeu não estar à altura de tamanha cortesia. Não sei por que, mas continuava perdido.

Talvez vendo meu estado, ou pela experiência, meu amigo, o César, foi me orientando sobre como proceder. Improvisamos uma recepção, que por mais que nos esforçássemos, nunca seria um banquete à altura daquela corte real. Era o que conseguíamos fazer, diante da completa ausência de raciocínio. Mas meu amigo, o César, estava preparado. Em seu carro havia cerveja gelada e algumas centenas de salgadinhos para suprir aos desavisados; isto sim era realeza.

Feita uma pausa na cantoria, passamos a conversar com os integrantes daquele grupo folclórico e pudemos notar que eram pessoas alegres, descontraídas, assumidamente felizes, e que se esforçavam ao máximo, não apenas para manter viva a tradição, mas para amenizar ao máximo o trauma inicial que de certa forma causa em algumas pessoas, os desavisados. Trauma que se transforma em felicidade, não por imposição de decreto real, mas pela magia do momento que se revelou maravilhoso.

Quando o grupo partiu, não sem antes entoar uma cantoria de despedida, conjugada com um discreto, mas certeiro pedido de ajuda para que a tradição possa ser mantida, fiquei por alguns instantes me revirando na cama, procurando onde Morfeu tinha ido se esconder e me veio uma certeza. A certeza de que quem ao menos uma vez na vida for visitado pela corte dos três Reis Magos, pode dizer que tem amigos. No nosso caso, a corte de Baltazar, Belchior e Gaspar era capitaneada pelo não menos nobre César, não o imperador, mas o amigo. Ave César! Habemus César, habemus Amigos.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

O massacre

Já ouvi algumas vezes que a produção literária é cheia de surpresas, algumas boas, outras nem tanto, chegando até mesmo a serem dolorosas, ou doloridas. Recentemente me atrevi a transitar pelo mundo das crônicas. Algo sem pretensão, apenas para o deleite pessoal e alegria dos amigos, que tem me agraciado com inúmeros elogios. Na verdade não sei bem se estes elogios são pela qualidade do que é produzido, ou se é apenas um ato bondoso, afinal amigos são amigos. Acontece que acabei por me empolgar e, confesso que até me surpreendi com a quantidade de minha tão iniciante produção.

Minha inspiração somente me permite trilhar as veredas da crônica, mas mesmo assim procuro diversificar, com algumas tratando de assuntos mais sérios e outros indo para o lado mais cômico, deixando transparecer um pouco daquilo que eu chamaria de “o meu lado gaiato”. Talvez algum psicólogo se atreva a dizer que deixo transparecer minhas diferentes personalidades, mas não é nada disso. Trata-se apenas das diferentes faces da mesma pessoa. Toda esta introdução foi para esclarecer, e não justificar, que às vezes quando escrevemos podemos ser mau interpretados.

Como pretenso cronista tenho procurado me esmerar em retratar situações do cotidiano em que tomei parte, seja direta ou indiretamente, mas é a realidade retratada sob o meu ponto de vista, quer seja ele bonito ou não. Esta má interpretação dos fatos produzidos pelos autores acompanha a história da humanidade. Muitas são as histórias de intelectuais que foram perseguidos e tiveram sua obra censurada. A idade média ficou conhecida como a idade das trevas. No Brasil, mais recentemente tivemos da ditadura militar que perseguiu a muitos intelectuais. Não tenho a pretensão de me comparar a eles, apenas registro que agora, posso de forma mais clara, tentar entender o que eles passaram.

Já tive o amargo sabor de que com uma simples crônica desprovida de qualquer sentimento maléfico, despertar a ira de minha amada companheira. Lamentavelmente deixei-me entorpecer pelo doce prazer da criação literária e avancei alguns sinais. Em uma inocente crônica chamada “As meninas de saia curta”, cai em uma armadilha. Exercitando meus princípios de ser fiel ao máximo a minha criação, como tenho sido de uma fidelidade total a minha amada, derrapei e segui um viés literário que, confesso, avançou um pouco pelas fileiras de uma leve canalhice. Ao absorver toda energia gerada pela onda de reprovação que provoquei nela, lancinante dor percorreu o meu ser como a querer castrar minha tão iniciante carreira de pretenso cronista, tal foi à fúria do massacre a que fui submetido.

Procurei refugio entre os amigos, mas não fui feliz. Os homens se deleitaram com a leitura, mas suas enciumadas esposas não permitiram que os mesmos comigo fossem solidários. Não conseguia aceitar a idéia de ter causado tão terrível desconforto em quem tanto amo, e que só fez encher de alegria esta tão miserável vida. Para piorar, não foi um ato selvagem que cometi, mas apenas um atrevimento literário. Fiquei horas vagando entre a dor de ter maltratado minha amada, e a frustração de me sentir intelectualmente castrado. Estaria minha insignificante e debutante carreira fadada ao extermínio prematuro? Talvez sim, tamanha era a minha sensação de impotência diante de dantesco quadro. Terrivelmente amargurado e solitário, vagueei procurando a melhor forma de me redimir, se isto for possível.

No desespero vislumbrei a solução. Continuar a ser eu mesmo. Sim, eu mesmo, um eu com diversas faces, mas apenas um coração, um sentimento, um amor, mas com duas paixões. Uma paixão, se revelou tardia, pós quarenta anos, é a dedicação e a tentativa de ser reconhecido como cronista. A outra, me acompanha em uma longa e feliz vivência, que é algo em que já sou a muito reconhecido, que é o amor fiel e incondicional a minha amada. Agora, reconheço que fui infeliz quando me dediquei mais à paixão (literária) e não ao amor, mas tenho certeza de que foi apenas um deslize digno de um principiante, apenas isto.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota

Trilogia de uma noitada - Parte III - Um cantor amigo da família

Quem não está fazendo nada de errado não precisa se esconder, certo? Certíssimo! Com o desenvolvimento da tecnologia empregada à captação de imagens atingindo os níveis que estão, mesmo para aqueles que estão fazendo as coisas erradas fica mais difícil de esconder. Não é a toda que diariamente explodem escândalos os mais variados. Já não é exclusividade de agentes secretos, do tipo 007, o uso dessa parafernália.

Mas não é só a moderna e avança tecnologia que nos prega peças, o bom e sempre presente ser humano é que nos prega a maioria delas. Já escrevi algumas crônicas sobre vários episódios ocorridos quando sai com umas colegas do mestrado para um inocente chopinho – durante uma viagem de dez dias de minha esposa ao exterior - e recorro a esse momento para escrever mais uma. Acho que quando finalmente essa série de crônicas se esgotar, vou reunir todas, não em uma antologia, mas sim em uma enciclopédia. Uma enciclopédia destinada os maridos, a um tipo especial de marido, aquele marido incauto, com falta de prática em lidar com as situações que se apresentam quando a esposa se ausenta em viagem. Não que eu tenha feito algo de errado, ou que mereça reprovação. Muito pelo contrário, tudo o que fiz, faria sem problema algum mesmo se a minha esposa não estivesse fora do país por intermináveis dez dias. Mas acontece que durante a ausência dela as coisas tomam proporções diferentes, ou melhor, interessantes.

Um simples ato de ir a uma choperia e ficar sentado todo tempo tomando um saboroso chope com colegas de mestrado, algo inofensivo, diria até que trivial, banal, cria uma série tão grande de eventos que acaba desencadeando um infindável número de crônicas. Talvez não merecesse sequer uma linha, e assim seria se a esposa não estivesse ausento do país.

Então, chegamos à choperia e um cantor solitário se apresentava. Alias um bom cantor, com variado repertório, que lhe permitia incursões aos sucessos dos anos setenta, bem como aos atuais. Não prestei muita atenção à pessoa do cantor, apenas as suas qualidade líricas, até que em determinado momento ouvi o seu nome. De imediato um alerta soou, eu o conheço. Olhei bem para ele e a única opção que encontrei era a de que o nosso cantor fosse um conhecido da família da minha esposa. Comentei com minhas colegas - ele é da família - elas duvidaram e o riso foi geral. Chamei o garçom e solicitei algumas informações sobre o homem, ao que o garçom não soube responder e eu pedi que ele fosse se informar. De repente estava eu super interessado na figura, seria mesmo ele? Logo o garçom estava de volta com a resposta-confirmação, era mesmo o amigo da família. Devo dizer que por uns longos momentos fui uma infeliz e solitária vítima das gozações de minhas colegas. Fazer o que? Foi uma situação ao mesmo tempo estranha e engraçada, ainda bem que eu não estava fazendo nada de errado, nada mesmo de errado! Mas porque será que eu fico repetindo isso a toda hora? Não sei, mas que não estava, isso não estava!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Trilogia de uma noitada - Parte II - A foto na internet

Minha mulher viajando e eu numa baita “depre”. Os dias eram intermináveis e andava meio sem vontade de fazer nada. Eis que me vem o convite de duas colegas pra um chopinho. Quem tem amigos, tem um tesouro, pensei eu. E lá fui contente e satisfeito para partilhar da agradável companhia delas enquanto saboreava um dos deliciosos chopes produzidos na nossa região.

Cheguei primeiro, meio deslocado, pois havia perdido a prática de sair sozinho. Não lembro de quando foi a última vez que vivenciei essa experiência. Instintivamente me instalei em um canto do balcão e fiquei aguardando. Após longos 15 minutos e elas chegaram o fomos para uma mesa. Durante esse tempo já havia derrubado duas tulipas de chope, acho que estava nervoso, não que achasse ou que realmente estivesse fazendo algo errado, mas era o inusitado da situação.

Sentamos e pedimos mais uma rodada de chope. Mais uma para mim, pois para elas era a primeira. Logo chegou mais uma pessoa, era alguém que não conhecia, era uma amiga delas e se incorporou ao grupo. Pedimos uma pizza e ficamos jogando muita conversa fora.

Era uma situação bem diferente, não que estivesse me sentindo mau com a situação, ao contrário estava me sentindo muito bem, muito a vontade, e talvez fosse isto que estava me incomodando. Não tinha a menor intenção de me esconder de quem quer que seja, ou de omitir esse fato para minha esposa quando ela retornasse de seus dez dias fora do país. Mas sempre fica aquele clima de “homem casado quando fica sozinho...” Aquelas histórias de quando no verão a mulher fica na praia e o marido aproveita e se aproveita da situação, fazendo tudo àquilo que não lhe era permitido. Não era o meu caso, até porque estávamos em um local que semanalmente freqüento com um grupo de amigos. Como a casa tem três ambientes, eu e meus colegas, de toda a semana, ficamos no térreo e apenas observamos “o povo” subindo para os outros ambientes nos demais andares.

Já estava mais calmo, havia diminuído a freqüência com que as tulipas de chope eram trocadas e me sentia mais ambientado, mais a vontade, afinal era um encontro normal de colegas do mestrado, não havia nada de anormal nisso. Conversa vai, conversa vem, alias muita conversa, e chega em nossa mesa um homem com uma máquina fotográfica digital e pergunta se pode tirar uma foto nossa. Explicou que era de um site de divulgação da vida noturna da região. A gargalhada foi geral e as três jogaram a responsabilidade para mim, a foto dependia da minha autorização. Era uma situação totalmente inusitada, mas mesmo assim, sem relutar, autorizei. Após nos posicionarmos, atendendo as orientações do fotografo, o clique foi feito e logo em seguido apresentado para nossa aprovação. Ficou uma bela foto com quatro alegres e felizes colegas. Questionei minhas companheiras de aventura fotográfica-digital sobre a razão de sermos escolhidos para tal. Elas me mandaram olhar para as demais mesas e só então me dei conta. As demais mesas ou estavam ocupadas por homens solitários, ou ainda por grupos de homens, e umas poucas por casais. A nossa era a única em que havia um único homem dividindo a mesa com três mulheres. Com toda a certeza chamávamos a atenção. Ali naquele momento assumo que experimentei um sentimento de alegria e de enorme satisfação. Morram de inveja seus incompetentes, mas tenham muito cuidado com a tecnologia, e isso serve não só para as modelos famosas flagradas com seus companheiros nas praias da Espanha.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota