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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


18 de mai. de 2009

Código Morse – um sistema de comunicação cada vez mais atual

O sistema de comunicação conhecido como código Morse foi desenvolvido em meados do século XIX, por Samuel Morse, o inventor do telégrafo e um de seus assistentes. Por muito tempo foi utilizado, principalmente, nas comunicações de longa distância. Várias são as formas se transmitir uma mensagem codificada através do Morse. As mais conhecidas são os pulsos elétricos, as ondas sonoras, sinais luminosos e as ondas de rádio.

Não vou falar de nenhum deles, vou ater-me a uma forma que vem ganhando rapidamente uma grande dimensão, fato que está permitindo ao código manter-se atualizado, a despeito do grande avanço tecnológico. Foram os modernos meios de comunicação que diminuíram a importância de seu uso. Ficou difícil pro velho Morse competir com rádio, celular, e-mail, MSN, Orkut, Twitter e tantos outros. Apenas alguns abnegados se mantêm fiel ao código, como os radioamadores.

Por outro lado, essa mesma tecnologia até que tenta dar um novo fôlego ao famoso código, oferecendo um alento aos saudosistas. No meu Iphone existe um aplicativo que simula uma lanterna. Entre as formas de apresentação da lanterna está um inofensivo isqueiro. Como ele não serve para acender nada, creio que os desenvolvedores do aplicativo imaginaram o seu emprego em shows, quando a platéia ao som de melosas canções produz uma coreografia de luzes. Não é só isso, outra versão da lanterna apresenta um pedido de socorro em código Morse. Isso mesmo, no bom e velho Morse. Só tenho que me preocupar com a carga da bateria – quando a Apple vai fabricar uma bateria decente? – e rezar para que alguém entenda o que significa aquela luz piscando sem parar. Pensando melhor, é bom não confiar na bateria e andar com um isqueiro de verdade no bolso.

Alheio a tudo isso, por incrível que pareça, o velho código resiste. Resiste bravamente através daquelas pessoas que irritantemente insistem em conversar com a gente através de toques, de cutucões mesmo. Costumezinho danado! Tem gente que chega ao absurdo de a cada palavra emitida disparar um irritante cutucão. Tem uns que dão um tapinha, coisinha de leve, algo meio carinhoso, se não fosse a forma que abusam de sua frequência. Outros, de mão pesada, usam a ponta do dedo indicador. Coitado de você se não prestar a atenção, o miserável aumenta a intensidade e a frequência dos tais cutucões. Tenho a impressão de que a amarrar as mãos destas pessoas teria o mesmo efeito que aplicar-lhes uma mordaça. Seria um silêncio absoluto, não conseguiriam falar nada.

Trago comigo a certeza que ao ler este texto você identificou, não apenas um, mas vários de seus conhecidos que agem desta forma. Quando tenho intimidade, suficiente, com a pessoa eu a aviso de que eu não entendo código Morse, que a comunicação deverá se restringir apenas aos sinais sonoros, verbais que fique bem entendido. Quando não tenho muita intimidade sou forçado a aturar o operador de telégrafo. Mas quando a inconveniência se torna muito grande, eu apelo e mando um “não cutuca, meu”.

Costuma funcionar, pelo menos por cinco minutos. Depois o cara liga o telégrafo novamente. Já fiz a experiência de responder na mesma moeda. Transformo-me, momentaneamente, em um “cutucador”. Não adianta, o sujeito não se “toca”. Parece que não se incomoda. Pior, funciona como uma senha que abre caminho para uma intimidade regada a toques e cutucões.

Não tem jeito, acho que é uma praga da modernidade. Não sou psicólogo, mas penso que é algo inconsciente, que está ligado à necessidade das pessoas romperem seu isolamento. Elas precisam tocar em alguém, geralmente em mim, para o meu desespero.

Queria entender por que só os homens têm este costume. Nunca vi, ou fui vítima de uma mulher operadora de telegrafo. As mulheres, me parecem, não têm essa necessidade de se comunicarem através dos toques, ou melhor, dos cutucões. Acho que é coisa só de macho, ou como dizem hoje, coisa de menino.

Esses meninos têm cada tipo de brincadeira! Se você ainda não teve um amigo, destes que utilizam o Morse para reforçar a comunicação verbal, tenha certeza de que você ainda vai ter, pois é tão moderno quanto um Iphone. Pena que a bateria deles não acaba tão cedo quanto ao do aparelhinho da Apple.

Paulo Roberto Bornhofen.
PS: se você tem um destes amigos aproveita e manda o meu texto pra ele. Mas manda com uma dedicatória.

7 de mai. de 2009

Pizza sabor PM

Leio constantemente os colunistas do Santa (jornal diário em Blumenau) e ontem (06/5) achei muito interessante a coluna intitulada “Rodízio ou a la carte” em que o autor faz uma série de considerações que pode ser resumida na seguinte frase: “Quando (sic) mais vejo gente implorando por polícia sem se preocupar com a qualidade destes quadros, me sinto um apreciador de pizza a la carte num rodízio barulhento e nervoso”. Interessante a colocação feita pelo articulista.

No meio de texto, ou autor alerta que não está questionando a formação dos policiais e admite que não a conhece a fundo. Esta afirmação contém uma certeza embutida nela, a de que o autor tem um conhecimento, mesmo que superficial, de como é o processo de formação de um policial. Só isto já o coloca em uma situação privilegiada, pois garanto que a maioria esmagadora da população não conhece, sequer, o emprego, quanto mais à formação de um policial. O pesquisador norte-americano David H. Bailey aponta, entre outras coisas, o fato do serviço policial não apresentar qualquer glamour, para justificar esta falta de interesse. Concordo com ele.

Entre as opções apresentadas no título da coluna, “Rodízio ou a la carte”, está faltando uma, para a Polícia Militar, que não é nem o rodízio, muito menos a la carte. É na verdade o tele-entrega. Basta você ligar para o 190, relatando o seu problema, que a entrega é providenciada. O meio de transporte mais usual, para o serviço de entrega, é o automóvel, existindo ainda as motos, bicicletas, barcos, aeronaves, cavalos e o tradicional a pé, às vezes acompanhado por cães.

Como se prepara a pizza sabor PM? Cada estado da federação tem a sua receita. A pizza sabor PM básica, versão Catarina, contém os seguintes ingredientes: Abordagem Sócio – Psicológica do crime e da Violência; Sistema de segurança pública no Brasil; Qualidade em serviço; Ética e cidadania; Fundamentos de polícia Comunitária; Criminalística aplicada; Teoria de Tiro; Defesa pessoal; Direção defensiva e policial; Pronto socorrismo; Prevenção e combate a incêndios; Direito ambiental; Direito constitucional; Direito da criança e do adolescente; Direito Penal; Direito Processual Penal; Direito militar; Direitos humanos; Legislação de trânsito; Introdução ao estudo do direito; Termo Circunstanciado; Gerenciamento do estresse; Saúde física; Resolução de problemas e tomada de decisão; Relações interpessoais e saúde mental; Português instrumental (documentos PM); Cerimonial e Protocolo; Telecomunicações; Informática; Policiamento ostensivo; Técnicas de Informação; Tiro Policial; Prevenção e combate do uso e abuso de drogas; Técnicas de polícia preventiva; Operações de policiamento de Trânsito; Operações de polícia; Gerenciamento de conflitos e negociação; Ordem unida; Legislação institucional. Preparo: adicione todos os ingredientes, aos poucos, de maneira a produzir uma massa uniforme. Depois leve ao forno por pelo menos 1.000 horas, que é o que dura o treinamento para Soldado da PMSC, isso sem considerarmos os processos de recrutamento e seleção.

Como toda pizza, a sabor PM tem algumas variações, ou especializações, mas todas partindo da pizza sabor PM básica. Existe a Operações especiais (que às vezes vem com muita pimenta), trânsito e rodoviário (as mais salgadas), ambiental (com ingredientes ecologicamente corretos), PROERD (sucesso absoluto com a criançada), comunitária (ainda com pouca aceitação), e a ostensiva geral, entre outras. A ostensiva geral é a mais comum, a que mais sai, a mais pedida.

Quando pedir uma pizza sabor PM? Você pode solicitar um tele-entrega em várias situações. Por exemplo, quando está precisando de um auxílio (não confundir com serviço de taxi). Só que o auxílio não é só para o cidadão, é feito, também, para os mais variados órgãos da administração pública, entre eles a justiça. Pode ainda solicitar quando estiver ocorrendo um crime, mas neste caso apenas 35% dos pedidos são em decorrência de crime. Notou o detalhe? È que 65% dos “pedidos” não estão relacionados com crimes ou contravenções, mas como é o gosto do cliente que manda, nada pode ser feito. Tem ainda os casos de acidente de trânsito, ou quando houver uma criança perdida, alguém desaparecido, na verdade uma infinidade de situações. A nossa Constituição fala em situações que envolvam a ordem pública, sem definir o que vem a ser a tal ordem pública.

Alguns especialistas dizem que a ordem pública não se define, se sente. Cada comunidade e cada pessoa sente de uma forma muito própria o que é ordem pública. Por isso, ela varia no tempo e no espaço. O que é ordem pública aqui e agora pode não ser lá e agora, ou aqui e depois, entendeu?

Em quais locais é feita a entrega? A entrega é feita em qualquer lugar e a qualquer horário. Entrega-se no litoral, na serra, no interior, resumindo, no campo e na cidade. No centro e na periferia. De dia e de noite. No inverno e no verão, na verdade no outono e na primavera também. Com chuva, com sol, nublado ou com frio. Sete dias por semana, o ano todo. Não fecha fim de semana e nem em feriados. Às vezes nem precisa pedir. Em outras, o pedido não chega, ou chega atrasado.

E se a entrega não for bem feita? Bem, isso pode ocorrer, e ocorre, afinal de contas, em Santa Catarina, as entregas já estão se aproximando de 1.500.000 (um milhão e quinhentos mil) a cada ano. Quando isso ocorre basta abrir o jornal que vai estar tudo lá, muito bem documentado e ilustrado com fabulosas fotos. Às vezes nem precisa abrir o jornal, está na capa, quando não como a principal manchete. Essa é a pizza sabor PM!

Tá servido?

Paulo Roberto Bornhofen
08/05/2009

6 de mai. de 2009

Histórias de um mundo assombrado – Parte II - O fracasso

Eu tenho um amigo que vive me surpreendendo com as histórias que aconteceram na aldeia dele. O que mais me surpreende é que todas as histórias que ele conta são verdadeiras e pela tradição da aldeia elas devem ser passadas oralmente. Eles não têm o hábito de escrever estas maravilhas. Como eu não faço parte da aldeia dele eu ponho no papel o que ele vai me contando.

Disse ele que certa vez o mandatário máximo do povo dele enviou para a sua aldeia um representante. Este representante deveria ser como a presença viva do mandatário e para tanto deveria trabalhar pelo bem de toda a comunidade. Isso é o que deveria ter acontecido, mas não foi o que aconteceu. Ao contrário, o representante enfiou os pés pelas mãos, como nós costumamos dizer, e teve que deixar a aldeia no meio da noite, com o rabinho entre as pernas.

Tão logo chegou à aldeia, o representante reuniu o conselho dos líderes e já foi mandando o recado. Disse que estava ali por outros caminhos e negou que o mandatário máximo o tivesse enviado. Chegou a zombar do mandatário, dizendo que se dependesse dele, do mandatário, o representante seria outro. Foi mais longe, disse que estava lançando suas bases e que queria fixar seus domínios por ali.

Aos poucos ele foi isolando os integrantes do conselho de lideres e foi chamando gente nova, gente que deveria ir, lentamente, tirando a liderança dos integrantes do conselho de líderes. Em outra frente, começou a fazer favores pessoais usando a estrutura da aldeia. Queria agradar algumas pessoas para conseguir apoio para suas ambições.

Em pouco tempo, devido a sua pratica abusiva e as suas ações funestas o tal do representante já havia angariado uma antipatia geral. Seu plano de fixar seus domínios na aldeia começou a fazer água. Ele foi ficando isolado. Alguns aldeões conseguiram perceber que ele estava corrompendo toda uma estrutura que já vinha funcionando. Tudo em proveito particular.

Não demorou muito para que começassem a eclodir manifestações de inconformismo e até mesmo de revolta com o tal do representante. A situação rapidamente foi se deteriorando e ele foi sendo cada vez mais isolado. Não demorou muito para ele notar que seu plano havia fracassado. Seu isolamento era quase total. Até aqueles que ele havia chamado como sendo “gente nova” ao verem no que haviam se metido, começaram a negar a sua liderança e a fazer criticas ao seu modo de agir.

Ele não tinha mais clima entre os aldeões. O mandatário máximo de seu povo relutu em remover aquela figura incomoda da aldeia. A situação estava ficando insustentável com alguns integrantes do conselho de líderes exigindo a sua remoção imediata.

Até que um belo dia ninguém mais soube noticias suas. Silencio, era só que se ouvia. Nenhuma informação, nada. O seu paradeiro era desconhecido. Assim foi por alguns dias, até que noticias chegadas deram conta de que o representante do mandatário não representava mais nada. Tinha pedido para sair. Foi direto ao mandatário máximo e apresentou sua renuncia. Nem para dizer adeus ele deu as caras na aldeia.

Corre a boca pequena que em um determinado dia ele furtivamente voltou à aldeia e durante a noite fez uma, muito reservada, despedida. Não tinha muitos aldeões para convidar. Os que foram não gostavam de comentar sobre a despedida. Alguns ficavam até constrangidos. Assim foi que a aldeia conseguiu se livrar daquela figura incomoda. Ele, o representante, teve uma saída melancólica que até hoje é contada de geração em geração para que os mais jovens não se esqueçam de um famoso ditado popular, da aldeia dele, que diz que depois da soberba vem o fracasso.


Paulo Roberto Bornhofen
06/05/2009.

4 de mai. de 2009

Cartão “vipado”

Você, certamente conhece aquelas piadinhas em que o ouvinte é enrolado, enrolado, enrolado e no final fica sem saber do melhor da piada. Aquela, do tipo do cara que queria muito transar com uma determinada mulher, mas ela diz que só vai transar com ele depois de casada e dá um determinado nome pra transa. O cara fica tão louco pela tal transa que aceita casar e na lua-de-mel a mulher morre antes de transarem e ninguém fica sabendo como é a tal transa.

Você fica “p” da vida pelo tempo que perdeu. Pois é, eu passei por uma situação dessas, não com relação a tal transa, mas com a perda de tempo. Na verdade me senti como o cara da piada. Cheguei até a achar que estava caindo em alguma pegadinha da televisão. Não era, foi real.

Eu sou cliente de uma grande rede de supermercados com sede em Santa Catarina. Compro desde que eles inauguraram sua primeira loja em Blumenau. Mesmo com a abertura de outras lojas de grandes redes eu permaneço fiel. Semanalmente, às vezes duas ou mais vezes, vou ao supermercado. Tenho o cartão de fidelidade e o cartão de crédito, internacional, da rede.

Dias destes ao passar pelo caixa, em um sábado, a atendente me informou que meu cartão estava “vipado” e que eu deveria procurar o setor de atendimento do clube de fidelidade. No começo achei que tinha ouvido mau, mas ela me confirmou que era mesmo “vipado”. Que diabos pode ser isto, imaginei. De imediato relacionei com VIP, e na certa eu iria ganhar algum tipo de beneficio. Um neologismo, assim como deletado, agora tem vipado. Vamos enriquecer nosso maltratado português.

Fui até o tal clube e não havia ninguém para me atender. Já comecei a estranhar. Será que estão me sacaneando? Como a curiosidade era maior, igual ao do marido da piada, fui até o balcão de atendimento e conversei com a mocinha que lá estava. Relatei a minha situação e ela prontamente disse: o seu cartão está “vipado” e falou com uma alegria, com um tremendo sorriso que eu tive certeza de que iria ganhar mais um beneficio. Disse, ainda, a atendente: - olha a moça que irá atendê-lo está bem aqui na nossa frente, preenchendo uma proposta de adesão, vamos. Lá fui eu, feliz da vida. A tal moça olhou-me e disse: - “cartão vipado, só um momento que eu vou terminar aqui e já lhe atendo”. Ansioso eu disse, tudo bem, mas o que é cartão “vipado”? Ela abriu um sorriso e disse para não me preocupar que era coisa boa e continuou a preencher a proposta de adesão.

Eu fiquei ali, parado, feito um poste, no meio do corredor dos caixas. O tempo foi passando e nada de terminar a proposta. Então, eis que ela termina pega à senhora que era a dona da proposta e vão embora. Eu fiquei parado, com cara de idiota. Agora tinha certeza de que era pegadinha. Disfarçadamente olhei para ver se tinha alguém me filmando. Não achei ninguém. Esperei alguns instantes na esperança de que ela fosse voltar, ou pelo menos me chamar para acompanhá-la. Nada, absolutamente nada aconteceu. Juntei toda a minha insignificância de cliente “vipado” e fui embora.

Passei todo o fim de semana imaginando o que seria o tal cliente “vipado”. Não contendo minha curiosidade, na segunda-feira, logo cedo fui até a loja do supermercado e entrei direto no clube de fidelidade. Tinha uma atendente sentada. Olhei para ela e proclamei, eu sou um cliente “vipado”! Você poderia me dizer o que isto significa? Caro leitor, vou poupá-lo da resposta. Acredite em mim (ou deveria dizer: believe me?), você não vai gostar de saber!


Paulo Roberto Bornhofen
02/05/2009

20 de fev. de 2009

QUERIA SER A RESPOSTA DO PORQUÊ A SOCIEDADE MATA O QUE CRIA


A frase acima compõe uma das obras da artista e escritora Suzana Sedrez juntamente com uma foto de uma mão fechada com o dedo indicador apontado diretamente para o espectador. Usando de suas habilidades de artista plástica com a de escritora Suzana planta uma provocação na nossa mente.

O “dedo da Suzana” como passei a referir-me à obra me deixou cismado. Fiquei com a pulga atrás da orelha, como dizemos por ai. Quando ele apontou para mim será que queria arrancar de mim a resposta, ou estava me acusando de fazer parte da resposta, já que pertenço a sociedade?

Pensei, pensei e pensei. Nada, a resposta não veio. Voltei a pensar mais um pouco e alguns lampejos esclarecedores começaram a se formar em minha mente. A resposta foi sendo construída e tomou forma: a sociedade mata o que cria para se perpetuar, para se reconstruir, para se renovar. Pronto, fiquei feliz por ter “matado” a charada.

Após este medíocre lampejo de felicidade fui tomado por violenta angustia. Oras, a obra da Suzana, é o “dedo da Suzana”, por que fui eu me arvorar o direito de matá-la? Em uma resposta simplista poderia dizer simplesmente que matei por que ela foi criada. Simples assim. Mas a resposta não me convenceu.

Se a sociedade mata o que cria para se renovar, esta renovação não esta criando uma nova sociedade, ou seja, não está permitindo uma evolução da sociedade. Ainda estamos na mesma etapa evolutiva do pós-macaco. Explico, se a sociedade realmente se renovasse não teria mais a necessidade de matar suas crias. Ou não evoluímos, ou eu não encontrei a resposta, não matei a charada. Se não “matei” a charada, não faço mais parte da sociedade. Em não fazendo parte da sociedade não poderei por ela ser morto. Então minha morte será única e exclusivamente responsabilidade minha.

Pensando bem, como seria se caso o “dedo da Suzana” não fosse o indicador apontando, mas sim o dedo médio apontando para cima, com os demais fechados em punho? Agora a resposta está mais clara!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

4 de dez. de 2008

Três formas de terror

O cenário estava se armando. Quase quatro meses de chuvas. O solo estava encharcado, o rio, o famoso Itajaí-Açu, ganhava volume e tentava fugir de sua calha. O final de semana apenas começara, era sábado. Pela manhã, fui participar da Conferência Municipal de Cultura. Em meio a discussões sobre a cultura, um único assunto ganhava unanimidade, a chuva.

Quando voltei, no período da tarde, para o encerramento dos trabalhos, fui informado de que a conferência estava suspensa. O prefeito havia decretado estado de emergência. Voltei para casa e no caminho pude notar que as pessoas andavam apressadas, preocupadas. Cheguei a casa e fui deitar.

O barulho da chuva, que caía de forma torrencial, acordou-me. Fui até a cozinha e comecei a saborear uma castanha, quando pela janela da área de serviço notei o trânsito parado e sobre a pista da estrada havia uma lâmina de água barrenta, vermelha. A cidade começava a sangrar e eu não percebera. Fui até a sala, para olhar pela sacada, quando o trânsito parado na via que sai do Parque Vila Germânica chamou minha atenção. Quando cheguei à sacada a surpresa chocou. A rua em frente ao meu condomínio estava tomada pelas águas. Os carros passavam de forma cuidadosa. A água começava tomar a entrada do condomínio.

De súbito, corri e acordei minha esposa. Liguei para o COPOM para saber da situação e fui informado de que o Comandante do Batalhão estava presente. Liguei para ele e ouvi a sentença: “o plano de chamada está sendo ativado e és o primeiro a ser chamado!”. Já havia passado por esta situação antes, em meus 24 anos de serviço policial militar, dos quais 90% servidos em Blumenau; era a minha 5ª enchente.
Rapidamente preparei uma mochila, com alguns itens básicos, como o material de higiene, meias e cuecas. O fardamento eu guardo no quartel. Moro perto do Quartel do meu Batalhão e, pela experiência, sabia que não devia ir de carro. O Quartel pega água e sempre que Blumenau sofre com uma enchente, a casa da Polícia Militar é uma das primeiras a ser atingida. Não conseguia encontrar caminho para o quartel, estava tudo alagado. Liguei novamente para o Comandante, solicitando uma viatura.

Fui socorrido por uma de nossas viaturas do tipo camionete e no retorno ao quartel fomos parados por um grupo de pessoas que pedia auxílio para uma mãe com uma criança de 18 dias. Eram evangélicos que estavam participando de um encontro no Parque Vila Germânica, encontro este que também havia sido cancelado. Diante da situação, coloquei a mãe, com a criança nos braços, e mais uma senhora na viatura e partimos para a sua casa. Ele nos informou que morava na Rua José Reuter, no Ristow. O caminho foi longo. O cenário já era preocupante. Muitos alagamentos e deslizamentos pela via davam uma pequena mostra do que viria. A cidade não apenas sangrava, mas em alguns lugares ela já deixava sua carne à mostra. A cidade começava a mostrar suas entranhas, mas eu não percebia, não só eu, acho que até aquele momento ninguém percebia.

Quando chegamos à rua indicada, a senhora pediu-me que a deixasse antes de sua casa, que era em um morro, pois se parássemos em frente, ela não conseguiria sair, já que a viatura era muito alta. Lembro que ela ainda apontou para a sua casa e disse: - é lá que eu moro. Hora mais tarde, aquela região foi uma das mais castigadas da cidade, com a destruição de inúmeras casas pelo deslizamento de terra e muita gente morreu.

Quando cheguei ao quartel, me reuni com o Comandante e adotamos algumas medidas visando proteger o patrimônio. Por volta das 22:00h fomos dispensados. As previsões não apontavam para cheias. Confesso que fiquei feliz em voltar para casa. Fui a pé. As águas já haviam baixado e não encontrei nenhuma área alagada. Era uma trégua diabólica, apenas para transmitir uma falsa sensação de segurança. Uma pausa para o pior.

Blumenau e todo o Vale seriam tomados pelo terror. Silenciosamente a cidade era tomada por forças de proporções catastróficas. A cidade que aprendera a conviver com as seguidas cheias do rio não estava preparado para o que a aguardava. De forma sistemática e cruel, e natureza iria revelar toda a sua ira. A enchente teria companhia. Como que em uma bizarra aventura épica, um monstro com três corpos iria atacar o vale. A população seria acuada, judiada, massacrada. Os morros, que em épocas passadas eram o refúgio para as cheias, haviam se transformado em mortais armadilhas. Deslizamentos iriam tirar a vida de mais de uma centena de aterrorizados moradores do Vale.

Mas não no Domingo durante o dia. Novamente as águas recuaram. Nós voltamos ao quartel, havia sido chamado, novamente às 02:00h, em plena madrugada. Podemos dizer que o Domingo foi ameno durante o dia. Quando a noite se aproximou, nos preparamos para ficar ilhados no prédio do COPOM. Continuamente, as águas foram subindo. Não como nas enchentes que a cidade já havia testemunhado. O volume de água foi demasiado para um solo já castigado e ensopado por quase quatro meses de chuva. A enchente seria precedida de alagamentos. Lugares que tradicionalmente eram atingidos com determinadas cotas do rio, simplesmente ficaram embaixo d’água, independente da cota. Assim, de forma sorrateira, com total vilania, as águas pegaram os moradores de surpresa. É tradição que se adote determinada medida em função das cotas. Esta tradição foi destruída, desmoralizada, não serve mais para nada.

De agora em diante, quem se guiar pelas cotas estará placidamente esperando a morte chegar e não, como no passado, estará em estado de alerta para enfrentar, e vencer como tantas vezes já ocorreu, com a bravura (a bravura que moldou a multicolorida Blumenau) indômita dos orgulhosos blumenauenses, mais uma enchente. Triste ilusão que cega os sofridos bravos!

Com a chegada da noite nos instalamos no COPOM. Os telefones de emergência não paravam, assim com as águas do Ribeirão da Velha, que perigosamente passam e míseros metros dos fundos do aquartelamento. Sem pedir licença, e muito menos encontrar resistências, as águas foram tomando o quartel. Rapidamente uma furiosa lâmina tomou conta de todo o pátio. O Ribeirão da Velha, ardilosamente se apoderou do nosso quartel e lançou um braço que cortou caminho para evitar uma curva que contorna os fundos do mesmo. Agora, tínhamos as águas do Ribeirão, e sua astuta correnteza, nos cercando.

Pelo telefone, a comunidade continuava com seu grito de socorro. À medida que a noite avançava, o desespero aumentava, refletido nos ininterruptos chamados ao telefone 190. A cada telefonema, uma história de horror e desgraça nos alcançava. Pelo rádio, o que os policiais militares, homens e mulheres reportavam não era menos estarrecedor. Desmoronamentos, alagamentos, chuva torrencial e o rio, que fazia valer a sua qualificação de “Açu”, que em Guarani significa grande. O Itajaí-Açu alargava suas margens e engolia a cidade, engolia o vale.

O COPOM se viu envolto em um medonho frenesi. Dividíamos o espaço com os funcionários do SAMU, para alguns deles, a primeira experiência em catástrofes. Rapidamente a situação na cidade se deteriorou e o caos se instalou. Os deslizamentos não paravam. Morte e destruição em cada telefonema. Patrimônios, sonhos e vidas eram levados pelas avalanches de terra. Não demorou muito para que nossas viaturas se vissem sitiadas, suas rotas estavam bloqueadas, idem para as viaturas do SAMU. O socorro não circulava mais. Não chegava e quando chegava não saía. Estávamos vivendo algo inédito. Nunca antes tínhamos enfrentado situação parecida. Era uma guerra contra um inimigo astucioso, mas covarde. Batalhas eclodiam em todos os cantos da cidade na forma de deslizamentos, que produziam baixas e mais baixas entre os moradores. A luta era inglória. O número de vítimas ganhava corpo de forma assustadora.

Começamos a receber toda a carga da fúria da natureza. A cidade era atacada por todos os lados. Uma força descomunal a estava devorando, literalmente. Já não eram mais sinais, era todo o furor em seu esplendor máximo; a cidade estava com suas entranhas expostas. Entranhas famintas, que afloravam para o banquete diabólico. A terra dos morros se liquefazia e descia a encosta levando anos de trabalho duro, de sonhos, de projetos, de patrimônio duramente conquistado, de vidas, vidas e mais vidas. Entre as solicitações de ajuda, uma veio da Rua José Reuter, no Ristow, dando conta de que cerca de quinze casas haviam desmoronado como que em um efeito dominó, em que as pedras do jogo são casas, são vidas. Será que aquela mãe com seu bebê de dezoito dias foram atingidos? Passados dez dias daquela noite, ainda não sei. Falta-me coragem para retornar e saber daquelas pessoas. Acho que prefiro não saber. Uma contabilização macabra foi desenvolvida no COPOM. Tentávamos imaginar a quantidade de mortos, com base nas súplicas, nos pedidos desesperados por socorro que nos chegavam. Isso na Polícia Militar; e no Corpo de Bombeiros? Nem dava para imaginar.

Já havíamos perdido a energia elétrica e usávamos o sistema de suporte para emergência, um conjunto de baterias administradas por um software. Aos poucos este sistema foi falhando. Os computadores apagaram. Fazia horas que estávamos à luz de velas. Apenas o rádio e telefone 190 funcionavam. Não tínhamos mais como fazer os registros. O sistema rádio, que é ligado aos computadores foi perdido junto com eles; conseguíamos operar apenas através de um rádio tipo HT (aqueles rádios que os policias usam na cintura). Todo o sistema de segurança da cidade, ligado à manutenção da ordem pública, dependia de uma mísera bateria de HT, e quando ela acabasse...

Em meio ao caos que assolava a cidade e se refletia em cada policial ilhado naquela sala, um soldado se aproxima de mim e com os olhos arregalados diz: “Major estão morrendo lá fora e não podemos fazer nada!” Simplesmente assenti com a cabeça. No pátio do quartel, aquela lâmina de água agora já tinha mais de um metro de espessura e era varrida por uma forte correnteza. Pensei comigo: se este prédio resistir e não desabar, podemos dizer que temos sorte.

Passados alguns instantes, perdemos o telefone 190. Todo o sistema caiu, e a bateria do HT resistia bravamente. Aos poucos, fomos percebendo o silêncio e como que um alívio tomou conta do ambiente. As más notícias não paravam de chegar, só que agora em menor número, apenas pela comunicação com as viaturas. Fomos informados de que um gasoduto explodira em Gaspar. Qual o tamanho da destruição? Havia mortos? Quantos? Apenas especulações. Aquela noite de terror estava longe de terminar. Pela janela do COPOM podíamos enxergar por detrás dos morros a claridade do incêndio no gasoduto. Diante de nós, uma paisagem diabólica ganhou forma. A claridade do incêndio era como que um pôr do sol, ou uma lua cheia a iluminar a morte e a destruição que se abatia sobre a cidade, que alagada desmoronava sob o seu próprio peso.

Terra, água e fogo estavam juntos, unidos contra os habitantes do vale. Desta forma, a primeira noite foi vencida e chegou o dia. O primeiro de uma seqüência de dias macabros. Dias que mostraram toda a nossa impotência e incompetência diante da fúria grotesca da natureza, que, sem pedir licença, foi devorando o que encontrava pela frente. Dias que mostraram, também, como a nossa arrogância pode potencializar as forças da natureza quando esta simplesmente resolve seguir seu curso normal. Mas, ainda não tínhamos conhecido o verdadeiro drama, o tamanho da tragédia. Era só o começo!

Paulo Roberto Bornhofen
Major da Polícia Militar de Santa Catarina e escritor.
Membro da Academia de Letras Blumenauense,da Academia de Letras de Canelinha e da Sociedade Escritores de Blumenau.

29 de nov. de 2008

LUTO

O Ninho Literário está de luto em razão da tragédia que mais uma vez castiga a minha querida Santa Catarina e mais especificamente a minha amada Blumenau.

Paulo Roberto Bornhofen

9 de nov. de 2008

Lenço de seda
O lenço de seda vermelha, caindo pelo pescoço, emoldura o belo par de seios que saltam da blusa, agora aberta.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Condução
Um toque de sonolência, as pálpebras pesam, quando os lábios relaxam, quero levá-la para dormir.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Sede de aprender
Jeans colado ao corpo, sapato vermelho de salto, óculos que conferem uma aura intelectual. Tenho tanta sede de aprender.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta