A Folia de Reis é uma tradição de origem portuguesa que, lamentavelmente, vem se perdendo com o tempo e quase não é mais praticada. Mesmo nas comunidades descendentes dos colonizadores da terra de Camões, os mais jovens já não a conhecem. Mas, acontece que em alguns redutos ela resiste bravamente. Resiste graças à insistência de alguns audazes que teimam em manter viva esta bela tradição. De forma bem simplista, podemos descrever a Folia de Reis como sendo a representação da peregrinação feita por Gaspar, Baltazar e Belchior, os Reis Magos, há mais de dois mil anos em busca daquele que ficou popularmente conhecido como o Menino Jesus. Por esta razão, acontece no período de Natal.
A última vez que eu havia presenciado uma apresentação desta manifestação folclórica, já não lembrava mais. Forçando a memória, me vinham pequenos fragmentos como que em um “flash back” mal feito. Até que, para nossa surpresa, fomos acordados, em certa madrugada, após a terceira badalada do cuco, por uma cantoria. Começou meio que ao longe, mas na verdade era bem perto, apenas Morfeu, um tanto quanto zangado, se recusa a ir embora. Como vingança, provocava uma leve confusão. Fiquei quieto, iria resistir, pois a companhia de Morfeu me era agradável. Passados alguns instantes, ouvi uma voz que brandia “acorda, acorda”!
Pulamos da cama como em perfeita coreografia. O que fazer? O que fazer? O que fazer? Lavar o rosto foi a primeira coisa que me veio, e assim fiz. Ainda estava meio perdido, mas corri para a porta e ao abri-la, fiquei maravilhado. Melhor dizendo, fiquei bestificado. Em frente ao portão um grupo de músicos, bem uniformizado e muito bem treinado, entoava cânticos e ao redor deles um outro grupo, que eram os amigos e os amigos dos amigos. Continuava perdido, não sabia o que fazer. Voltei para dentro e fui me vestir, tirar aquele pijama, já que o mesmo não era condizente com a grandeza do momento.
Abri o portão e eles muito cerimoniosamente foram entrando. Primeiro no jardim e, após, em casa. E a cantoria continuava. Ainda sem saber o que fazer, fui para fora, deixando a casa para eles. Não foi uma situação premeditada de desrespeito, mas sim uma reação natural de quem de repente percebeu não estar à altura de tamanha cortesia. Não sei por que, mas continuava perdido.
Talvez vendo meu estado, ou pela experiência, meu amigo, o César, foi me orientando sobre como proceder. Improvisamos uma recepção, que por mais que nos esforçássemos, nunca seria um banquete à altura daquela corte real. Era o que conseguíamos fazer, diante da completa ausência de raciocínio. Mas meu amigo, o César, estava preparado. Em seu carro havia cerveja gelada e algumas centenas de salgadinhos para suprir aos desavisados; isto sim era realeza.
Feita uma pausa na cantoria, passamos a conversar com os integrantes daquele grupo folclórico e pudemos notar que eram pessoas alegres, descontraídas, assumidamente felizes, e que se esforçavam ao máximo, não apenas para manter viva a tradição, mas para amenizar ao máximo o trauma inicial que de certa forma causa em algumas pessoas, os desavisados. Trauma que se transforma em felicidade, não por imposição de decreto real, mas pela magia do momento que se revelou maravilhoso.
Quando o grupo partiu, não sem antes entoar uma cantoria de despedida, conjugada com um discreto, mas certeiro pedido de ajuda para que a tradição possa ser mantida, fiquei por alguns instantes me revirando na cama, procurando onde Morfeu tinha ido se esconder e me veio uma certeza. A certeza de que quem ao menos uma vez na vida for visitado pela corte dos três Reis Magos, pode dizer que tem amigos. No nosso caso, a corte de Baltazar, Belchior e Gaspar era capitaneada pelo não menos nobre César, não o imperador, mas o amigo. Ave César! Habemus César, habemus Amigos.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.
3 de set. de 2008
O massacre
Já ouvi algumas vezes que a produção literária é cheia de surpresas, algumas boas, outras nem tanto, chegando até mesmo a serem dolorosas, ou doloridas. Recentemente me atrevi a transitar pelo mundo das crônicas. Algo sem pretensão, apenas para o deleite pessoal e alegria dos amigos, que tem me agraciado com inúmeros elogios. Na verdade não sei bem se estes elogios são pela qualidade do que é produzido, ou se é apenas um ato bondoso, afinal amigos são amigos. Acontece que acabei por me empolgar e, confesso que até me surpreendi com a quantidade de minha tão iniciante produção.
Minha inspiração somente me permite trilhar as veredas da crônica, mas mesmo assim procuro diversificar, com algumas tratando de assuntos mais sérios e outros indo para o lado mais cômico, deixando transparecer um pouco daquilo que eu chamaria de “o meu lado gaiato”. Talvez algum psicólogo se atreva a dizer que deixo transparecer minhas diferentes personalidades, mas não é nada disso. Trata-se apenas das diferentes faces da mesma pessoa. Toda esta introdução foi para esclarecer, e não justificar, que às vezes quando escrevemos podemos ser mau interpretados.
Como pretenso cronista tenho procurado me esmerar em retratar situações do cotidiano em que tomei parte, seja direta ou indiretamente, mas é a realidade retratada sob o meu ponto de vista, quer seja ele bonito ou não. Esta má interpretação dos fatos produzidos pelos autores acompanha a história da humanidade. Muitas são as histórias de intelectuais que foram perseguidos e tiveram sua obra censurada. A idade média ficou conhecida como a idade das trevas. No Brasil, mais recentemente tivemos da ditadura militar que perseguiu a muitos intelectuais. Não tenho a pretensão de me comparar a eles, apenas registro que agora, posso de forma mais clara, tentar entender o que eles passaram.
Já tive o amargo sabor de que com uma simples crônica desprovida de qualquer sentimento maléfico, despertar a ira de minha amada companheira. Lamentavelmente deixei-me entorpecer pelo doce prazer da criação literária e avancei alguns sinais. Em uma inocente crônica chamada “As meninas de saia curta”, cai em uma armadilha. Exercitando meus princípios de ser fiel ao máximo a minha criação, como tenho sido de uma fidelidade total a minha amada, derrapei e segui um viés literário que, confesso, avançou um pouco pelas fileiras de uma leve canalhice. Ao absorver toda energia gerada pela onda de reprovação que provoquei nela, lancinante dor percorreu o meu ser como a querer castrar minha tão iniciante carreira de pretenso cronista, tal foi à fúria do massacre a que fui submetido.
Procurei refugio entre os amigos, mas não fui feliz. Os homens se deleitaram com a leitura, mas suas enciumadas esposas não permitiram que os mesmos comigo fossem solidários. Não conseguia aceitar a idéia de ter causado tão terrível desconforto em quem tanto amo, e que só fez encher de alegria esta tão miserável vida. Para piorar, não foi um ato selvagem que cometi, mas apenas um atrevimento literário. Fiquei horas vagando entre a dor de ter maltratado minha amada, e a frustração de me sentir intelectualmente castrado. Estaria minha insignificante e debutante carreira fadada ao extermínio prematuro? Talvez sim, tamanha era a minha sensação de impotência diante de dantesco quadro. Terrivelmente amargurado e solitário, vagueei procurando a melhor forma de me redimir, se isto for possível.
No desespero vislumbrei a solução. Continuar a ser eu mesmo. Sim, eu mesmo, um eu com diversas faces, mas apenas um coração, um sentimento, um amor, mas com duas paixões. Uma paixão, se revelou tardia, pós quarenta anos, é a dedicação e a tentativa de ser reconhecido como cronista. A outra, me acompanha em uma longa e feliz vivência, que é algo em que já sou a muito reconhecido, que é o amor fiel e incondicional a minha amada. Agora, reconheço que fui infeliz quando me dediquei mais à paixão (literária) e não ao amor, mas tenho certeza de que foi apenas um deslize digno de um principiante, apenas isto.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Minha inspiração somente me permite trilhar as veredas da crônica, mas mesmo assim procuro diversificar, com algumas tratando de assuntos mais sérios e outros indo para o lado mais cômico, deixando transparecer um pouco daquilo que eu chamaria de “o meu lado gaiato”. Talvez algum psicólogo se atreva a dizer que deixo transparecer minhas diferentes personalidades, mas não é nada disso. Trata-se apenas das diferentes faces da mesma pessoa. Toda esta introdução foi para esclarecer, e não justificar, que às vezes quando escrevemos podemos ser mau interpretados.
Como pretenso cronista tenho procurado me esmerar em retratar situações do cotidiano em que tomei parte, seja direta ou indiretamente, mas é a realidade retratada sob o meu ponto de vista, quer seja ele bonito ou não. Esta má interpretação dos fatos produzidos pelos autores acompanha a história da humanidade. Muitas são as histórias de intelectuais que foram perseguidos e tiveram sua obra censurada. A idade média ficou conhecida como a idade das trevas. No Brasil, mais recentemente tivemos da ditadura militar que perseguiu a muitos intelectuais. Não tenho a pretensão de me comparar a eles, apenas registro que agora, posso de forma mais clara, tentar entender o que eles passaram.
Já tive o amargo sabor de que com uma simples crônica desprovida de qualquer sentimento maléfico, despertar a ira de minha amada companheira. Lamentavelmente deixei-me entorpecer pelo doce prazer da criação literária e avancei alguns sinais. Em uma inocente crônica chamada “As meninas de saia curta”, cai em uma armadilha. Exercitando meus princípios de ser fiel ao máximo a minha criação, como tenho sido de uma fidelidade total a minha amada, derrapei e segui um viés literário que, confesso, avançou um pouco pelas fileiras de uma leve canalhice. Ao absorver toda energia gerada pela onda de reprovação que provoquei nela, lancinante dor percorreu o meu ser como a querer castrar minha tão iniciante carreira de pretenso cronista, tal foi à fúria do massacre a que fui submetido.
Procurei refugio entre os amigos, mas não fui feliz. Os homens se deleitaram com a leitura, mas suas enciumadas esposas não permitiram que os mesmos comigo fossem solidários. Não conseguia aceitar a idéia de ter causado tão terrível desconforto em quem tanto amo, e que só fez encher de alegria esta tão miserável vida. Para piorar, não foi um ato selvagem que cometi, mas apenas um atrevimento literário. Fiquei horas vagando entre a dor de ter maltratado minha amada, e a frustração de me sentir intelectualmente castrado. Estaria minha insignificante e debutante carreira fadada ao extermínio prematuro? Talvez sim, tamanha era a minha sensação de impotência diante de dantesco quadro. Terrivelmente amargurado e solitário, vagueei procurando a melhor forma de me redimir, se isto for possível.
No desespero vislumbrei a solução. Continuar a ser eu mesmo. Sim, eu mesmo, um eu com diversas faces, mas apenas um coração, um sentimento, um amor, mas com duas paixões. Uma paixão, se revelou tardia, pós quarenta anos, é a dedicação e a tentativa de ser reconhecido como cronista. A outra, me acompanha em uma longa e feliz vivência, que é algo em que já sou a muito reconhecido, que é o amor fiel e incondicional a minha amada. Agora, reconheço que fui infeliz quando me dediquei mais à paixão (literária) e não ao amor, mas tenho certeza de que foi apenas um deslize digno de um principiante, apenas isto.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Trilogia de uma noitada - Parte III - Um cantor amigo da família
Quem não está fazendo nada de errado não precisa se esconder, certo? Certíssimo! Com o desenvolvimento da tecnologia empregada à captação de imagens atingindo os níveis que estão, mesmo para aqueles que estão fazendo as coisas erradas fica mais difícil de esconder. Não é a toda que diariamente explodem escândalos os mais variados. Já não é exclusividade de agentes secretos, do tipo 007, o uso dessa parafernália.
Mas não é só a moderna e avança tecnologia que nos prega peças, o bom e sempre presente ser humano é que nos prega a maioria delas. Já escrevi algumas crônicas sobre vários episódios ocorridos quando sai com umas colegas do mestrado para um inocente chopinho – durante uma viagem de dez dias de minha esposa ao exterior - e recorro a esse momento para escrever mais uma. Acho que quando finalmente essa série de crônicas se esgotar, vou reunir todas, não em uma antologia, mas sim em uma enciclopédia. Uma enciclopédia destinada os maridos, a um tipo especial de marido, aquele marido incauto, com falta de prática em lidar com as situações que se apresentam quando a esposa se ausenta em viagem. Não que eu tenha feito algo de errado, ou que mereça reprovação. Muito pelo contrário, tudo o que fiz, faria sem problema algum mesmo se a minha esposa não estivesse fora do país por intermináveis dez dias. Mas acontece que durante a ausência dela as coisas tomam proporções diferentes, ou melhor, interessantes.
Um simples ato de ir a uma choperia e ficar sentado todo tempo tomando um saboroso chope com colegas de mestrado, algo inofensivo, diria até que trivial, banal, cria uma série tão grande de eventos que acaba desencadeando um infindável número de crônicas. Talvez não merecesse sequer uma linha, e assim seria se a esposa não estivesse ausento do país.
Então, chegamos à choperia e um cantor solitário se apresentava. Alias um bom cantor, com variado repertório, que lhe permitia incursões aos sucessos dos anos setenta, bem como aos atuais. Não prestei muita atenção à pessoa do cantor, apenas as suas qualidade líricas, até que em determinado momento ouvi o seu nome. De imediato um alerta soou, eu o conheço. Olhei bem para ele e a única opção que encontrei era a de que o nosso cantor fosse um conhecido da família da minha esposa. Comentei com minhas colegas - ele é da família - elas duvidaram e o riso foi geral. Chamei o garçom e solicitei algumas informações sobre o homem, ao que o garçom não soube responder e eu pedi que ele fosse se informar. De repente estava eu super interessado na figura, seria mesmo ele? Logo o garçom estava de volta com a resposta-confirmação, era mesmo o amigo da família. Devo dizer que por uns longos momentos fui uma infeliz e solitária vítima das gozações de minhas colegas. Fazer o que? Foi uma situação ao mesmo tempo estranha e engraçada, ainda bem que eu não estava fazendo nada de errado, nada mesmo de errado! Mas porque será que eu fico repetindo isso a toda hora? Não sei, mas que não estava, isso não estava!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Mas não é só a moderna e avança tecnologia que nos prega peças, o bom e sempre presente ser humano é que nos prega a maioria delas. Já escrevi algumas crônicas sobre vários episódios ocorridos quando sai com umas colegas do mestrado para um inocente chopinho – durante uma viagem de dez dias de minha esposa ao exterior - e recorro a esse momento para escrever mais uma. Acho que quando finalmente essa série de crônicas se esgotar, vou reunir todas, não em uma antologia, mas sim em uma enciclopédia. Uma enciclopédia destinada os maridos, a um tipo especial de marido, aquele marido incauto, com falta de prática em lidar com as situações que se apresentam quando a esposa se ausenta em viagem. Não que eu tenha feito algo de errado, ou que mereça reprovação. Muito pelo contrário, tudo o que fiz, faria sem problema algum mesmo se a minha esposa não estivesse fora do país por intermináveis dez dias. Mas acontece que durante a ausência dela as coisas tomam proporções diferentes, ou melhor, interessantes.
Um simples ato de ir a uma choperia e ficar sentado todo tempo tomando um saboroso chope com colegas de mestrado, algo inofensivo, diria até que trivial, banal, cria uma série tão grande de eventos que acaba desencadeando um infindável número de crônicas. Talvez não merecesse sequer uma linha, e assim seria se a esposa não estivesse ausento do país.
Então, chegamos à choperia e um cantor solitário se apresentava. Alias um bom cantor, com variado repertório, que lhe permitia incursões aos sucessos dos anos setenta, bem como aos atuais. Não prestei muita atenção à pessoa do cantor, apenas as suas qualidade líricas, até que em determinado momento ouvi o seu nome. De imediato um alerta soou, eu o conheço. Olhei bem para ele e a única opção que encontrei era a de que o nosso cantor fosse um conhecido da família da minha esposa. Comentei com minhas colegas - ele é da família - elas duvidaram e o riso foi geral. Chamei o garçom e solicitei algumas informações sobre o homem, ao que o garçom não soube responder e eu pedi que ele fosse se informar. De repente estava eu super interessado na figura, seria mesmo ele? Logo o garçom estava de volta com a resposta-confirmação, era mesmo o amigo da família. Devo dizer que por uns longos momentos fui uma infeliz e solitária vítima das gozações de minhas colegas. Fazer o que? Foi uma situação ao mesmo tempo estranha e engraçada, ainda bem que eu não estava fazendo nada de errado, nada mesmo de errado! Mas porque será que eu fico repetindo isso a toda hora? Não sei, mas que não estava, isso não estava!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Trilogia de uma noitada - Parte II - A foto na internet
Minha mulher viajando e eu numa baita “depre”. Os dias eram intermináveis e andava meio sem vontade de fazer nada. Eis que me vem o convite de duas colegas pra um chopinho. Quem tem amigos, tem um tesouro, pensei eu. E lá fui contente e satisfeito para partilhar da agradável companhia delas enquanto saboreava um dos deliciosos chopes produzidos na nossa região.
Cheguei primeiro, meio deslocado, pois havia perdido a prática de sair sozinho. Não lembro de quando foi a última vez que vivenciei essa experiência. Instintivamente me instalei em um canto do balcão e fiquei aguardando. Após longos 15 minutos e elas chegaram o fomos para uma mesa. Durante esse tempo já havia derrubado duas tulipas de chope, acho que estava nervoso, não que achasse ou que realmente estivesse fazendo algo errado, mas era o inusitado da situação.
Sentamos e pedimos mais uma rodada de chope. Mais uma para mim, pois para elas era a primeira. Logo chegou mais uma pessoa, era alguém que não conhecia, era uma amiga delas e se incorporou ao grupo. Pedimos uma pizza e ficamos jogando muita conversa fora.
Era uma situação bem diferente, não que estivesse me sentindo mau com a situação, ao contrário estava me sentindo muito bem, muito a vontade, e talvez fosse isto que estava me incomodando. Não tinha a menor intenção de me esconder de quem quer que seja, ou de omitir esse fato para minha esposa quando ela retornasse de seus dez dias fora do país. Mas sempre fica aquele clima de “homem casado quando fica sozinho...” Aquelas histórias de quando no verão a mulher fica na praia e o marido aproveita e se aproveita da situação, fazendo tudo àquilo que não lhe era permitido. Não era o meu caso, até porque estávamos em um local que semanalmente freqüento com um grupo de amigos. Como a casa tem três ambientes, eu e meus colegas, de toda a semana, ficamos no térreo e apenas observamos “o povo” subindo para os outros ambientes nos demais andares.
Já estava mais calmo, havia diminuído a freqüência com que as tulipas de chope eram trocadas e me sentia mais ambientado, mais a vontade, afinal era um encontro normal de colegas do mestrado, não havia nada de anormal nisso. Conversa vai, conversa vem, alias muita conversa, e chega em nossa mesa um homem com uma máquina fotográfica digital e pergunta se pode tirar uma foto nossa. Explicou que era de um site de divulgação da vida noturna da região. A gargalhada foi geral e as três jogaram a responsabilidade para mim, a foto dependia da minha autorização. Era uma situação totalmente inusitada, mas mesmo assim, sem relutar, autorizei. Após nos posicionarmos, atendendo as orientações do fotografo, o clique foi feito e logo em seguido apresentado para nossa aprovação. Ficou uma bela foto com quatro alegres e felizes colegas. Questionei minhas companheiras de aventura fotográfica-digital sobre a razão de sermos escolhidos para tal. Elas me mandaram olhar para as demais mesas e só então me dei conta. As demais mesas ou estavam ocupadas por homens solitários, ou ainda por grupos de homens, e umas poucas por casais. A nossa era a única em que havia um único homem dividindo a mesa com três mulheres. Com toda a certeza chamávamos a atenção. Ali naquele momento assumo que experimentei um sentimento de alegria e de enorme satisfação. Morram de inveja seus incompetentes, mas tenham muito cuidado com a tecnologia, e isso serve não só para as modelos famosas flagradas com seus companheiros nas praias da Espanha.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Cheguei primeiro, meio deslocado, pois havia perdido a prática de sair sozinho. Não lembro de quando foi a última vez que vivenciei essa experiência. Instintivamente me instalei em um canto do balcão e fiquei aguardando. Após longos 15 minutos e elas chegaram o fomos para uma mesa. Durante esse tempo já havia derrubado duas tulipas de chope, acho que estava nervoso, não que achasse ou que realmente estivesse fazendo algo errado, mas era o inusitado da situação.
Sentamos e pedimos mais uma rodada de chope. Mais uma para mim, pois para elas era a primeira. Logo chegou mais uma pessoa, era alguém que não conhecia, era uma amiga delas e se incorporou ao grupo. Pedimos uma pizza e ficamos jogando muita conversa fora.
Era uma situação bem diferente, não que estivesse me sentindo mau com a situação, ao contrário estava me sentindo muito bem, muito a vontade, e talvez fosse isto que estava me incomodando. Não tinha a menor intenção de me esconder de quem quer que seja, ou de omitir esse fato para minha esposa quando ela retornasse de seus dez dias fora do país. Mas sempre fica aquele clima de “homem casado quando fica sozinho...” Aquelas histórias de quando no verão a mulher fica na praia e o marido aproveita e se aproveita da situação, fazendo tudo àquilo que não lhe era permitido. Não era o meu caso, até porque estávamos em um local que semanalmente freqüento com um grupo de amigos. Como a casa tem três ambientes, eu e meus colegas, de toda a semana, ficamos no térreo e apenas observamos “o povo” subindo para os outros ambientes nos demais andares.
Já estava mais calmo, havia diminuído a freqüência com que as tulipas de chope eram trocadas e me sentia mais ambientado, mais a vontade, afinal era um encontro normal de colegas do mestrado, não havia nada de anormal nisso. Conversa vai, conversa vem, alias muita conversa, e chega em nossa mesa um homem com uma máquina fotográfica digital e pergunta se pode tirar uma foto nossa. Explicou que era de um site de divulgação da vida noturna da região. A gargalhada foi geral e as três jogaram a responsabilidade para mim, a foto dependia da minha autorização. Era uma situação totalmente inusitada, mas mesmo assim, sem relutar, autorizei. Após nos posicionarmos, atendendo as orientações do fotografo, o clique foi feito e logo em seguido apresentado para nossa aprovação. Ficou uma bela foto com quatro alegres e felizes colegas. Questionei minhas companheiras de aventura fotográfica-digital sobre a razão de sermos escolhidos para tal. Elas me mandaram olhar para as demais mesas e só então me dei conta. As demais mesas ou estavam ocupadas por homens solitários, ou ainda por grupos de homens, e umas poucas por casais. A nossa era a única em que havia um único homem dividindo a mesa com três mulheres. Com toda a certeza chamávamos a atenção. Ali naquele momento assumo que experimentei um sentimento de alegria e de enorme satisfação. Morram de inveja seus incompetentes, mas tenham muito cuidado com a tecnologia, e isso serve não só para as modelos famosas flagradas com seus companheiros nas praias da Espanha.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Trilogia de uma noitada - Parte I - Molecada
Dias desses marquei com umas colegas do mestrado para um chope. Cheguei ao local combinado um pouco mais cedo e me instalei no balcão. Eu adoro os balcões, sempre que posso me acomodo em um deles, na verdade é o local que mais aprecio nesses ambientes.
O balcão é interessante não porque a gente fica com a cara enfiada pra dentro olhando um monte de garrafas arrumadas nos mais diversos tipos de prateleira, mas com o sempre presente fundo de espelho. Seria um desperdício dedicar tempo a isso. O balcão é bom porque a gente pode observar o ambiente, observar as pessoas. Verificar os casais, uns felizes trocando caricias, outros, ainda relutantes iniciando os primeiros contatos físicos, mergulhando nos intrigantes jogos da sedução. Tem aqueles que saem em duplas, amigos e amigas que estão à caça. Tem os solitários, aqueles seres que se sentam só e ficam em sua profunda melancolia se entregando a um copo ou a um cigarro, ou quando não a ambos. Como é triste, melancólico, até mesmo deprimente o comportamento desses solitários. Com o passar das horas o quadro vai se agravando com alguns solitarios perigosamente seguindo a trilha que os conduz rumo ao ridículo, com grandes chances de enveredarem ao vexame. O interessante é que esse é um comportamento tipicamente masculino. É o macho querendo chamar a atenção das fêmeas, assim como na natureza faz o pavão macho com seu esplendoroso rabo multicolor , e machos de muitas outras espécies. No bar o álcool se encarrega de emprestar o “rabo do pavão” para alguns.
Mas tem um grupo que também chama a atenção, e é grupo mesmo, são os homens de meia idade, e até um pouco mais da meia idade, que se reúnem em volta de uma mesa, para saborearem uma boa bebida e contarem vantagem uns aos outros. Quando possível ainda trocam olhares luxuriosos, libidinosos mesmo com alguma representante do sexo feminino, o que irá alimentar o seu ego por um bom tempo. Não apenas o ego será alimentado, mas é conversa garantida para os próximos encontros, para as próximas rodadas, mesmo que os olhares por parte das mulheres não tenham lá sido tão insidiosos assim. Por serem vários machos e cada um querendo chamar a atenção para si fica fácil entender que essas mesas geralmente são barulhentas. Imaginem só se fosse uma mesa de pavões macho, a loucura que seria com tantos rabos coloridos se agitando. E, havia uma mesa dessas lá na choperia e eu os observei um pouco. A conversa era bem interessante e não convém reproduzi-la aqui, mas para entenderem, basta saber que em determinado momento um dos integrantes perguntou se alguém tinha experimentado a costela de porco que certo fulano tinha preparado, ao que foi rapidamente corrigido por outro: “não é costela de porco, é costela de suíno, não se fala mais porco!”. Isso é que nível cultural pensei eu.
Logo em seguida se aproximou da mesa um grupo de jovens, daqueles recém saídos da adolescência e cumprimentaram o grupo. No meio dos cumprimentos, veio a sentença – Lugar da molecada é lá em cima – e apontaram para andar superior, onde funcionava outro espaço da casa. Até então não havia notado a movimentação do piso superior e para minha surpresa havia uma meninada, um povo jovem, com muitas belas meninas se divertindo. E eu ali, sentado em um balcão, cercado de tios. Que grande momento deprimente, esse. Ainda bem que logo fui salvo por minhas colegas que chegaram passaram a me fazer companhia.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
O balcão é interessante não porque a gente fica com a cara enfiada pra dentro olhando um monte de garrafas arrumadas nos mais diversos tipos de prateleira, mas com o sempre presente fundo de espelho. Seria um desperdício dedicar tempo a isso. O balcão é bom porque a gente pode observar o ambiente, observar as pessoas. Verificar os casais, uns felizes trocando caricias, outros, ainda relutantes iniciando os primeiros contatos físicos, mergulhando nos intrigantes jogos da sedução. Tem aqueles que saem em duplas, amigos e amigas que estão à caça. Tem os solitários, aqueles seres que se sentam só e ficam em sua profunda melancolia se entregando a um copo ou a um cigarro, ou quando não a ambos. Como é triste, melancólico, até mesmo deprimente o comportamento desses solitários. Com o passar das horas o quadro vai se agravando com alguns solitarios perigosamente seguindo a trilha que os conduz rumo ao ridículo, com grandes chances de enveredarem ao vexame. O interessante é que esse é um comportamento tipicamente masculino. É o macho querendo chamar a atenção das fêmeas, assim como na natureza faz o pavão macho com seu esplendoroso rabo multicolor , e machos de muitas outras espécies. No bar o álcool se encarrega de emprestar o “rabo do pavão” para alguns.
Mas tem um grupo que também chama a atenção, e é grupo mesmo, são os homens de meia idade, e até um pouco mais da meia idade, que se reúnem em volta de uma mesa, para saborearem uma boa bebida e contarem vantagem uns aos outros. Quando possível ainda trocam olhares luxuriosos, libidinosos mesmo com alguma representante do sexo feminino, o que irá alimentar o seu ego por um bom tempo. Não apenas o ego será alimentado, mas é conversa garantida para os próximos encontros, para as próximas rodadas, mesmo que os olhares por parte das mulheres não tenham lá sido tão insidiosos assim. Por serem vários machos e cada um querendo chamar a atenção para si fica fácil entender que essas mesas geralmente são barulhentas. Imaginem só se fosse uma mesa de pavões macho, a loucura que seria com tantos rabos coloridos se agitando. E, havia uma mesa dessas lá na choperia e eu os observei um pouco. A conversa era bem interessante e não convém reproduzi-la aqui, mas para entenderem, basta saber que em determinado momento um dos integrantes perguntou se alguém tinha experimentado a costela de porco que certo fulano tinha preparado, ao que foi rapidamente corrigido por outro: “não é costela de porco, é costela de suíno, não se fala mais porco!”. Isso é que nível cultural pensei eu.
Logo em seguida se aproximou da mesa um grupo de jovens, daqueles recém saídos da adolescência e cumprimentaram o grupo. No meio dos cumprimentos, veio a sentença – Lugar da molecada é lá em cima – e apontaram para andar superior, onde funcionava outro espaço da casa. Até então não havia notado a movimentação do piso superior e para minha surpresa havia uma meninada, um povo jovem, com muitas belas meninas se divertindo. E eu ali, sentado em um balcão, cercado de tios. Que grande momento deprimente, esse. Ainda bem que logo fui salvo por minhas colegas que chegaram passaram a me fazer companhia.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2 de set. de 2008
A Argentina quer jogar duro com o Brasil
Cedo pela manhã ouço esta manchete nos telejornais. Lá vem mais uma aprontada dos “hermanos”, pensei. Não dei muita bola, mas durante o dia era só o que circulava pela internet. Resolvi ir mais a fundo e vi que o presidente portenho esta muito, mas muito chateado com o Brasil. Razões não lhe faltavam.
Os brasileiros entraram na Argentina e compraram suas maiores empresas. Compramos a maior cervejaria, a maior companhia de petróleo privada, a maior produtora de cimento e outras. Vejo nisto um certo sentimento de inferioridade, pois se compramos a maior deles, é porque a nossa maior era maior que a deles. Isto me lembrou aquela história dos adolescentes que ficam discutindo quem tem o órgão sexual maior. Preocupam-se tanto com o tamanho por que ainda não descobriram pra que serve, mas tudo bem, não é só isto.
O Néstor ta brabo, até fazendo beicinho, porque o Brasil quer todos as cadeiras em organismos internacionais, quer na ONU, na FAO, na OMC e falam os maldosos que até de termos um candidato a Papa o Néstor reclamou.Vão mais longe e dizem que ele não foi ao enterro de Sua Santidade porque o Lula foi. Talvez tenha ficado intimidado com a presença portentosa do nosso aerolula. Mas nós sabemos que não é bem assim. Não ficava bem o Lula oferecer carona pro Néstor.
O Néstor não é tão mesquinho assim. Ele esta apenas tentando jogar com a opinião pública portenha. A situação doméstica dos hermanos não esta boa. Deram um calote na comunidade financeira mundial. No inicio do século XX a Argentina detinha 50% da riqueza da América do Sul, agora só tem 8%, os caras tem motivo pra se sentirem inferiorizados. A Condoleesa veio ao Brasil e não visitou as terras do prata, não quer papo com caloteiros. O tio Sam disse que só se interessa por líderes, que aqui pelas bandas do Sul o líder é o Brasil e ponto final.
Seguindo a linha do tempo da ditadura, quando entrou em guerra com a Inglaterra para que os hermanos se esquecessem da pindaíba interna, quando eles tomaram o maior pau da história, o Néstor ta procurando um bode expiatório. O que conseguiram com as Malvinas? Nada. Perderam a auto-estima, além das perdas materiais e das vidas dos coitados que morreram. Agora o Néstor quer recriar uma Malvinas diplomática.
Para piorar a situação a comunidade européia publicou seu novo mapa onde aparecem as Malvinas, ou melhor Falklands como sendo território europeu. Dizem que o Nestor perdeu toda a elegância que ainda lhe restava: como os europeus puderam fazer isto com a Argentina? Oras a Argentina também é européia, ou os europeus se esqueceram disto?!
O Néstor disse que não vai perdoar. Os brasileiros e os europeus vão se arrepender. Vai devolver o status europeu para os portenhos. Para começar mandou construir uma catedral como a famosa Notre-Dame de Paris, inclusive com direito a quasimodo tocando o sino, tal qual o corcunda se tornou personagem de fama mundial pela obra de Vitor Hugo. Os portenhos tem direito a ter o seu. Como havia um impasse sobre quem seria nomeado quasimodo, estavam indecisos entre o Dieguito Maradona e o Carlito Teves, foram consultar o poderoso Néstor para que ele decidisse. Furioso da vida e aos berros sentenciou, aquela cadeira é minha, está ninguém me tira! O Dieguito e o Carlitos que se virem como gárgulas, bradou um irritado Néstor.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Os brasileiros entraram na Argentina e compraram suas maiores empresas. Compramos a maior cervejaria, a maior companhia de petróleo privada, a maior produtora de cimento e outras. Vejo nisto um certo sentimento de inferioridade, pois se compramos a maior deles, é porque a nossa maior era maior que a deles. Isto me lembrou aquela história dos adolescentes que ficam discutindo quem tem o órgão sexual maior. Preocupam-se tanto com o tamanho por que ainda não descobriram pra que serve, mas tudo bem, não é só isto.
O Néstor ta brabo, até fazendo beicinho, porque o Brasil quer todos as cadeiras em organismos internacionais, quer na ONU, na FAO, na OMC e falam os maldosos que até de termos um candidato a Papa o Néstor reclamou.Vão mais longe e dizem que ele não foi ao enterro de Sua Santidade porque o Lula foi. Talvez tenha ficado intimidado com a presença portentosa do nosso aerolula. Mas nós sabemos que não é bem assim. Não ficava bem o Lula oferecer carona pro Néstor.
O Néstor não é tão mesquinho assim. Ele esta apenas tentando jogar com a opinião pública portenha. A situação doméstica dos hermanos não esta boa. Deram um calote na comunidade financeira mundial. No inicio do século XX a Argentina detinha 50% da riqueza da América do Sul, agora só tem 8%, os caras tem motivo pra se sentirem inferiorizados. A Condoleesa veio ao Brasil e não visitou as terras do prata, não quer papo com caloteiros. O tio Sam disse que só se interessa por líderes, que aqui pelas bandas do Sul o líder é o Brasil e ponto final.
Seguindo a linha do tempo da ditadura, quando entrou em guerra com a Inglaterra para que os hermanos se esquecessem da pindaíba interna, quando eles tomaram o maior pau da história, o Néstor ta procurando um bode expiatório. O que conseguiram com as Malvinas? Nada. Perderam a auto-estima, além das perdas materiais e das vidas dos coitados que morreram. Agora o Néstor quer recriar uma Malvinas diplomática.
Para piorar a situação a comunidade européia publicou seu novo mapa onde aparecem as Malvinas, ou melhor Falklands como sendo território europeu. Dizem que o Nestor perdeu toda a elegância que ainda lhe restava: como os europeus puderam fazer isto com a Argentina? Oras a Argentina também é européia, ou os europeus se esqueceram disto?!
O Néstor disse que não vai perdoar. Os brasileiros e os europeus vão se arrepender. Vai devolver o status europeu para os portenhos. Para começar mandou construir uma catedral como a famosa Notre-Dame de Paris, inclusive com direito a quasimodo tocando o sino, tal qual o corcunda se tornou personagem de fama mundial pela obra de Vitor Hugo. Os portenhos tem direito a ter o seu. Como havia um impasse sobre quem seria nomeado quasimodo, estavam indecisos entre o Dieguito Maradona e o Carlito Teves, foram consultar o poderoso Néstor para que ele decidisse. Furioso da vida e aos berros sentenciou, aquela cadeira é minha, está ninguém me tira! O Dieguito e o Carlitos que se virem como gárgulas, bradou um irritado Néstor.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
A Boneca
Boneca é brinquedo de menina e carrinho é brinquedo de menino! Assim fomos criados, e até hoje nossas crianças ainda assim são criadas. Não vemos mães ou pais entrando em lojas e comprando bonecas para os seus filhos homens, ou carrinhos para suas filhas mulheres, não, isso não. Quando crianças, era assim que nos divertíamos, os meninos brincando com carrinhos e as meninas com boneca. O máximo que nos era permitido, eram as brincadeiras de médico, quando meninos e meninas se encontravam, mas esse ainda é um assunto meio proibido, os meninos – hoje crescidinhos – até gostam de contar com certa vantagem suas primeiras aventuras no mundo da pseudo-medicina. Já por outro lado, as meninas não gostam muito de contar que se submeteram, com certa complacência, as investidas nada cientificas dos falsos médicos.
Pois bem, a vida passa, mas continuamos sendo eternas crianças. Os meninos substituem os seus carrinhos de brinquedo por belos carros, mas não aderem às bonecas. As meninas, por sua vez, preservam suas bonecas, mas aderem aos belos carros dos meninos. E, não é que dia desses uma boneca teve participação especial em nossa aula de mestrado. Em uma série de eventos programados e alguns não programados uma boneca, dessas de brinquedo foi levada para a sala de aula. O objetivo era brindar aqueles alunos que com suas contribuições, mais atrapalhassem que ajudassem o desenvolvimento da disciplina, com a guarda da bonequinha. Foi uma brincadeira que as meninas não tiveram chance. A boneca foi ferozmente disputada momento a momento por marmanjões. Em determinadas situações chegou a ser comovente ver a candura com que alguns marmanjos dispensavam seus carinhos para com o pequeno objeto, que de objeto de diversão passou a ser objeto de desejo. Em alguns rostos conseguia-se visualizar um certo ar de decepção quando a guarda da pequena lhes era negada. Por outro lado, aqueles que a recebiam não conseguiam disfarçar o ar de felicidade.
Em determinado momento a disputa ficou tão feroz que a dona do pequeno mimo se viu diante da situação de perdê-la, para mãos rudes, não treinadas na arte de bem tratar pequenas bonecas de porcelana. Alias, esse é outro detalhe que pude constatar. Um leve e profundo ar de frustração que certos meninões ostentavam em seus semblantes, como que lamentando a infância perdida, pois a falta da uma boneca em suas vidas, agora revelava uma infância desgraçada, medonha, que foi escondida, subjugada por de frotas de carrinhos, quando a verdadeira felicidade estava na eterna esperança de ganhar uma linda e meiga bonequinha. Algo que nunca aconteceu. Os natais vieram e se foram, os aniversários idem, na páscoa nem uma bonequinha de chocolate, que talvez fosse devorada com uma volúpia desmedida, ou então preservada eternamente, jamais saberemos. Nunca até aquele maravilhoso dia, quando na frente de todos podiam expor toda a sua alegria, mesmo que efêmera, mas verdadeira. Foi um momento mágico, que ficará eternamente marcado em nossa caminhada. De minha parte, recordei maravilhosos momentos de minha infância. Não que eu brincasse de boneca, quanto aos carrinhos, bem esses eram poucos, e mesmo assim foram a minha companhia. Agora o que eu não perdia mesmo era uma oportunidade de brincar de médico, bastava ter uma paciente. Dessa forma confesso que a oportunidade de voltar aos primórdios de minha existência pela via da medicina sem compromisso me atrai. Por isso enquanto os marmanjos disputavam quase que a tapa a tal da boneca, me bateu uma tremenda melancolia misturada com uma enorme frustração. Meu Deus, que vontade louca de brincar de médico!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2007
Pois bem, a vida passa, mas continuamos sendo eternas crianças. Os meninos substituem os seus carrinhos de brinquedo por belos carros, mas não aderem às bonecas. As meninas, por sua vez, preservam suas bonecas, mas aderem aos belos carros dos meninos. E, não é que dia desses uma boneca teve participação especial em nossa aula de mestrado. Em uma série de eventos programados e alguns não programados uma boneca, dessas de brinquedo foi levada para a sala de aula. O objetivo era brindar aqueles alunos que com suas contribuições, mais atrapalhassem que ajudassem o desenvolvimento da disciplina, com a guarda da bonequinha. Foi uma brincadeira que as meninas não tiveram chance. A boneca foi ferozmente disputada momento a momento por marmanjões. Em determinadas situações chegou a ser comovente ver a candura com que alguns marmanjos dispensavam seus carinhos para com o pequeno objeto, que de objeto de diversão passou a ser objeto de desejo. Em alguns rostos conseguia-se visualizar um certo ar de decepção quando a guarda da pequena lhes era negada. Por outro lado, aqueles que a recebiam não conseguiam disfarçar o ar de felicidade.
Em determinado momento a disputa ficou tão feroz que a dona do pequeno mimo se viu diante da situação de perdê-la, para mãos rudes, não treinadas na arte de bem tratar pequenas bonecas de porcelana. Alias, esse é outro detalhe que pude constatar. Um leve e profundo ar de frustração que certos meninões ostentavam em seus semblantes, como que lamentando a infância perdida, pois a falta da uma boneca em suas vidas, agora revelava uma infância desgraçada, medonha, que foi escondida, subjugada por de frotas de carrinhos, quando a verdadeira felicidade estava na eterna esperança de ganhar uma linda e meiga bonequinha. Algo que nunca aconteceu. Os natais vieram e se foram, os aniversários idem, na páscoa nem uma bonequinha de chocolate, que talvez fosse devorada com uma volúpia desmedida, ou então preservada eternamente, jamais saberemos. Nunca até aquele maravilhoso dia, quando na frente de todos podiam expor toda a sua alegria, mesmo que efêmera, mas verdadeira. Foi um momento mágico, que ficará eternamente marcado em nossa caminhada. De minha parte, recordei maravilhosos momentos de minha infância. Não que eu brincasse de boneca, quanto aos carrinhos, bem esses eram poucos, e mesmo assim foram a minha companhia. Agora o que eu não perdia mesmo era uma oportunidade de brincar de médico, bastava ter uma paciente. Dessa forma confesso que a oportunidade de voltar aos primórdios de minha existência pela via da medicina sem compromisso me atrai. Por isso enquanto os marmanjos disputavam quase que a tapa a tal da boneca, me bateu uma tremenda melancolia misturada com uma enorme frustração. Meu Deus, que vontade louca de brincar de médico!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2007
A conquista
Dia desses uma colega, do mestrado, me enviou uma historinha que envolvia macacos, escadas e bananas, uma historinha bastante interessante, divertida e ao mesmo tempo profunda, o que me conduziu a fazer uma analogia com um alpinista naquilo que se refere à conquista e as quase conquista, que são na verdade fracassos, ou não, depende. Não que a pratica de desafiar as alturas alguma vez tenha despertado meu interesse, mas a aventura em si me fascina. Para escrever esse texto eu escolhi um alpinista específico, aquele que vislumbra uma bela e misteriosa montanha, cuja glória da conquista se torna um grande desafio passando-lhe a fazer companhia constante, em uma instigante e intrigante relação de atração e desejo, um verdadeiro jogo de conquista. Mas falta algo, a consciência do alpinista sobre a sua capacidade de conquista, a diferença entre o querer e o obter.
Ele sabe que a conquista da montanha, só se concretiza com o que é chamado – pelos iniciados – de ataque ao cume ou, ataque final ao cume. Porém quando o grande momento se aproxima, estando bem perto do clímax, da tão sonhada e desejada conquista ele se vê forçado a desistir e tem que retornar, o ataque final não vai se concretizar, a conquista não vai acontecer, nesse momento ele tomou consciência da sua incapacidade, pois a montanha estava além, transcendia ao seu desejo.
Tudo estava tão perto, já podia sentir o prazer que lhe aguardava. O momento que tinha fantasiado tantas vezes não se concretizou, pois ele foi forçado a parar, teve que recuar. Condicionantes que ele não controla serviram de impedimento. Enquanto contemplava a beleza de seus contornos e a maciez da neve que a revestia, tal qual um lindo tecido cobrindo um corpo feminino, e o desejo da conquista o absorvia cada vez mais, um lampejo de lucidez o trouxe de volta a realidade. “Acorda, não é pra ti! O que pensas seu atrevido?” Como a força de um trovão, essa mensagem lhe atingiu profundamente, e fez efeito.
Toda a preparação feita, todos os equipamentos de que dispõem, todo o caminho percorrido (que o levou tão perto), os desafios que teve que superar, dias e dias de estudos, de observação, os avanços, os recuos estratégicos, os precipícios que teve que vencer, os paredões inespugnáveis que suplantou, as negativas, nada disso tem valor, nada conta, o que vale é ataque final, mas esse, esse ele é incapaz de completar, não é para ele!
Alguns desavisados dirão: pobre alpinista deixou a montanha para outros, mais destemidos, que com certeza irão conquistá-la, pois ela assim o merece e assim há de ser. Para o nosso alpinista isso não interessa. Ele é experiente e sabe reconhecer a importância escondida por trás de uma não conquista. As questões não se resumem a esta simples dualidade entre conquista e não conquista, existe um algo mais, que se materializa e se manifesta somente entre ele e a montanha. Algo exclusivo, portanto inatingível para a tosca percepção do público, elevados a condição de meros espectadores.
Por outro lado permanece com nosso alpinista uma eterna fascinação, um constante desejo de ter algo que fisicamente e aos olhos estava e está tão perto, mas que a prática mostrou ser inatingível, inalcançável, o prazer proibido, representado pela frustração do fracasso em que se converteu o ataque final, que sequer foi tentado. Com sua experiência ele sabe que quando uma decisão pode trazer mais prejuízos que as glórias da vitória, é o momento em que se exige a grandiosidade da retirada estratégica. É neste momento que uma vitória de Pirro é perfeitamente dispensável e dever ser evitada a todo custo.
Ele sabe que algumas conquistas por mais fascinantes, misteriosas, belas e perigosas que possam ser, jamais deverão ser alcançadas. O que não tira delas o charme, o interesse, o fascínio, a sedução. Ao contrário, tudo isso é alimentado diariamente.
E, assim a vida continua seu curso normal, com alpinistas, montanhas e conquistas e as não conquistas, também. Lembrando sempre que se algum macaquinho desavisado tentar alcançar uma banana “proibida”, terá sempre uma turma de outros macaquinhos prontos a lhe aplicar uma calorosa surra. Vida complicada essa!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
2006
Ele sabe que a conquista da montanha, só se concretiza com o que é chamado – pelos iniciados – de ataque ao cume ou, ataque final ao cume. Porém quando o grande momento se aproxima, estando bem perto do clímax, da tão sonhada e desejada conquista ele se vê forçado a desistir e tem que retornar, o ataque final não vai se concretizar, a conquista não vai acontecer, nesse momento ele tomou consciência da sua incapacidade, pois a montanha estava além, transcendia ao seu desejo.
Tudo estava tão perto, já podia sentir o prazer que lhe aguardava. O momento que tinha fantasiado tantas vezes não se concretizou, pois ele foi forçado a parar, teve que recuar. Condicionantes que ele não controla serviram de impedimento. Enquanto contemplava a beleza de seus contornos e a maciez da neve que a revestia, tal qual um lindo tecido cobrindo um corpo feminino, e o desejo da conquista o absorvia cada vez mais, um lampejo de lucidez o trouxe de volta a realidade. “Acorda, não é pra ti! O que pensas seu atrevido?” Como a força de um trovão, essa mensagem lhe atingiu profundamente, e fez efeito.
Toda a preparação feita, todos os equipamentos de que dispõem, todo o caminho percorrido (que o levou tão perto), os desafios que teve que superar, dias e dias de estudos, de observação, os avanços, os recuos estratégicos, os precipícios que teve que vencer, os paredões inespugnáveis que suplantou, as negativas, nada disso tem valor, nada conta, o que vale é ataque final, mas esse, esse ele é incapaz de completar, não é para ele!
Alguns desavisados dirão: pobre alpinista deixou a montanha para outros, mais destemidos, que com certeza irão conquistá-la, pois ela assim o merece e assim há de ser. Para o nosso alpinista isso não interessa. Ele é experiente e sabe reconhecer a importância escondida por trás de uma não conquista. As questões não se resumem a esta simples dualidade entre conquista e não conquista, existe um algo mais, que se materializa e se manifesta somente entre ele e a montanha. Algo exclusivo, portanto inatingível para a tosca percepção do público, elevados a condição de meros espectadores.
Por outro lado permanece com nosso alpinista uma eterna fascinação, um constante desejo de ter algo que fisicamente e aos olhos estava e está tão perto, mas que a prática mostrou ser inatingível, inalcançável, o prazer proibido, representado pela frustração do fracasso em que se converteu o ataque final, que sequer foi tentado. Com sua experiência ele sabe que quando uma decisão pode trazer mais prejuízos que as glórias da vitória, é o momento em que se exige a grandiosidade da retirada estratégica. É neste momento que uma vitória de Pirro é perfeitamente dispensável e dever ser evitada a todo custo.
Ele sabe que algumas conquistas por mais fascinantes, misteriosas, belas e perigosas que possam ser, jamais deverão ser alcançadas. O que não tira delas o charme, o interesse, o fascínio, a sedução. Ao contrário, tudo isso é alimentado diariamente.
E, assim a vida continua seu curso normal, com alpinistas, montanhas e conquistas e as não conquistas, também. Lembrando sempre que se algum macaquinho desavisado tentar alcançar uma banana “proibida”, terá sempre uma turma de outros macaquinhos prontos a lhe aplicar uma calorosa surra. Vida complicada essa!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
2006
A iniciação cientifica
As complexidades das vicissitudes que envolvem certas atividades apresentam uma terminologia própria, somente revelada aos iniciados, fato que permite uma identificação restrita ao grupo específico. Assim também acontece com a iniciação cientifica.
Ao iniciar o mestrado fomos apresentados a certas disciplinas que nos levaram a um momento solene de inflexão, cuja imprevisibilidade objetivava trazer a tona, explicitar, uma construção detalhada e rigorosa, para em um processo de confronto permitir a redescoberta não de um novo saber, mas sim permitir um novo desenho, traçando uma linha temporal que alastrando-se por fatores subjacentes nos permitirá ser reconhecidos pelo grupo. Simplificando, é o momento de afastar os curiosos, abrindo as portas do clube somente aos iniciados. Sim, deveríamos passar por um processo de iniciação, um ritual, tal qual as mais primitivas tribos impõem aos seus, cuja finalidade é separar os homens dos meninos. Não uma iniciação com a crueldade desmedida da escarificação total da pele dos homens crocodilos na África, ou a solidão da caça ao tubarão nas Polinésias, ou ainda a desinteligência do solto de plataforma, apenas preso aos calcanhares por frágeis cordas de ratam, feito por tribos da Melanésia, ou quem sabe os segredos que envolvem a iniciação maçônica, mas com certeza exige de cada um de nós a mesma coragem e persistência, exigida em cada uma das situações anteriores. Como nos seria revelado, logo ficamos sabendo que não passaríamos impunes por ela.
Os primeiros impactos já pudemos sentir quando da apresentação de algumas disciplinas, cujas siglas permitem interpretações dúbias. As disciplinas tradicionais foram deixadas, ou melhor, incorporadas por outras mais complexas, em um novo desenho interdisciplinar. TDR I foi entendida, por muitos, como Terror Da Revelação I, que por si só seria um aperitivo para Terror Da Revelação II. Por sua vez, Organização do Espaço se mostrou ao mesmo tempo complexa e reveladora. Porém, quem ficou encarregado da verdadeira iniciação foi Pesquisa Aplicada ao Desenvolvimento Regional I – PADR-I, para alguns simplesmente Perdidos Aleatoriamente Dentro da Revelação I.
Passados os momentos iniciais pudemos constatar que as coisas não eram tão terríveis assim, éramos atores importantes em busca de uma realidade objetiva, estávamos sendo colocados em confronto com a imprevisibilidade, em um processo de grandiloqüência que se alastrava, horas percorrendo o caminho da ortodoxia, horas fugindo para a heterodoxia, dependendo do ponto vista analisado, ou seja, se a nossa leitura era com base nos princípios da verificação do positivismo lógico, ou no principio da falsificação do racionalismo critico ou ainda sob a luzes do paradigma no historicismo. Apesar de todo o nosso esforço empírico para encontrarmos a porta dos fundos da ciência em construção, a inacabada, a dialética não nos deixava, em um processo que envolvia síntese e antítese carregadas de imprevisibilidades, que nos forçava a inúmeras articulações, e até mesmo a negação, dentro de uma escolha narrativa que nos levaria, ou deveria nos levar, dentro de uma linha interpretativa, a uma nova redescoberta. Espero ter tido sucesso na construção de pequeno resumo explicativo e tudo tenha ficado bem esclarecido.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2005
Ao iniciar o mestrado fomos apresentados a certas disciplinas que nos levaram a um momento solene de inflexão, cuja imprevisibilidade objetivava trazer a tona, explicitar, uma construção detalhada e rigorosa, para em um processo de confronto permitir a redescoberta não de um novo saber, mas sim permitir um novo desenho, traçando uma linha temporal que alastrando-se por fatores subjacentes nos permitirá ser reconhecidos pelo grupo. Simplificando, é o momento de afastar os curiosos, abrindo as portas do clube somente aos iniciados. Sim, deveríamos passar por um processo de iniciação, um ritual, tal qual as mais primitivas tribos impõem aos seus, cuja finalidade é separar os homens dos meninos. Não uma iniciação com a crueldade desmedida da escarificação total da pele dos homens crocodilos na África, ou a solidão da caça ao tubarão nas Polinésias, ou ainda a desinteligência do solto de plataforma, apenas preso aos calcanhares por frágeis cordas de ratam, feito por tribos da Melanésia, ou quem sabe os segredos que envolvem a iniciação maçônica, mas com certeza exige de cada um de nós a mesma coragem e persistência, exigida em cada uma das situações anteriores. Como nos seria revelado, logo ficamos sabendo que não passaríamos impunes por ela.
Os primeiros impactos já pudemos sentir quando da apresentação de algumas disciplinas, cujas siglas permitem interpretações dúbias. As disciplinas tradicionais foram deixadas, ou melhor, incorporadas por outras mais complexas, em um novo desenho interdisciplinar. TDR I foi entendida, por muitos, como Terror Da Revelação I, que por si só seria um aperitivo para Terror Da Revelação II. Por sua vez, Organização do Espaço se mostrou ao mesmo tempo complexa e reveladora. Porém, quem ficou encarregado da verdadeira iniciação foi Pesquisa Aplicada ao Desenvolvimento Regional I – PADR-I, para alguns simplesmente Perdidos Aleatoriamente Dentro da Revelação I.
Passados os momentos iniciais pudemos constatar que as coisas não eram tão terríveis assim, éramos atores importantes em busca de uma realidade objetiva, estávamos sendo colocados em confronto com a imprevisibilidade, em um processo de grandiloqüência que se alastrava, horas percorrendo o caminho da ortodoxia, horas fugindo para a heterodoxia, dependendo do ponto vista analisado, ou seja, se a nossa leitura era com base nos princípios da verificação do positivismo lógico, ou no principio da falsificação do racionalismo critico ou ainda sob a luzes do paradigma no historicismo. Apesar de todo o nosso esforço empírico para encontrarmos a porta dos fundos da ciência em construção, a inacabada, a dialética não nos deixava, em um processo que envolvia síntese e antítese carregadas de imprevisibilidades, que nos forçava a inúmeras articulações, e até mesmo a negação, dentro de uma escolha narrativa que nos levaria, ou deveria nos levar, dentro de uma linha interpretativa, a uma nova redescoberta. Espero ter tido sucesso na construção de pequeno resumo explicativo e tudo tenha ficado bem esclarecido.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2005
A loira do outdoor
Todo os dias quando eu passo lá esta ela, imóvel, sempre na mesma posição, mas tem algo que marca sua presença, que chama a atenção dos transeuntes. Não se trata do olhar marcante e o volumoso cabelo loiro que realçam o seu corpo maravilhoso. Ela simplesmente veste apenas uma deliciosa lingerie branca. Não importa o dia, nem a hora, esta é a sua única vestimenta. Fascina-me a sua nudez, nudez não mostrada, escondida, não por folhas como a de Eva depois do pecado, a sua precede, convida ao pecado, é pura sedução. Uma deusa em lingerie. Foge do padrão de beleza que se estabeleceu para aquelas do top internacional. Ou seja, nossa jovem tem atrativos, tem predicados, tem o que mostrar.
Sua beleza é para isto mesmo, para ser mostrada, revelada, realçada e não ficar escondida sob a materialização das mais estranhas fantasias de um estilista qualquer. Assim nós pobres mortais é que podemos fantasiar. Ao se decidir por mostrar quão generosa a natureza foi com ela, o fez com uma naturalidade estonteante e um requinte de crueldade a toda prova. Sim cruel, pois sua sedução maltrata, é um convite para o imaginário, talvez inatingível, com certeza desejado. Acessórios pretos complementam o quadro, onde uma sensual lingerie branca é o diferencial.
O branco e o preto se completam em uma perfeita harmonia de contrastes, tendo por pano de fundo, uma formidável escultura, que nem os mais renomados mestres do renascimento florentino conseguiram revelar. Não bebo da mesma fonte poética de Vinicius, mas ela bem que merece ser eternizada em verso e prosa, porém, a minha incompetência é intransponível abismo, triste frustração. Estática, conduz até mesmo o mais desavisado a se perder em um mundo sem fim da imaginação, onde a sedução ganha forma e vida, pois ela fala, ou melhor, sussurra aos nossos ouvidos. O que me disse não posso revelar.
Não precisa ser um adolescente imberbe e cheio de espinhas, os mais maduros, os resolvidos, os “coroas” ou tios, como dizem nossos adolescentes, sempre dão uma olhadinha e um suspiro, com toda certeza, também, os avós. Se a intenção foi simplesmente provocar, acertaram em cheio. Mas, se foi para divulgar a marca, foram de uma competência sem igual, pois agora, muitos marmanjos estão comentando a loira de branco da D Basic Darling. Os mais íntimos, ou mais afoitos falam apenas da loira da Darling. Alguns nem notam que ela esta segurando o salto alto de uma bota de couro preto, objeto que tem uma das mais altas cotações entre todos os fetiches masculinos.
Não interessa o seu nome, idade, ocupação ou qualquer outra informação, basta a sua imagem. Ao admirá-la, me vem no coração uma tristeza imensa, não por mim, mas por figuras do porte de um Donatelo, um Michelangelo, um Leonardo e um Rafael, os quatro grandes do renascimento, que nunca em sua mais louca imaginação puderam contar com tão espetacular modelo, que com apenas duas maravilhosas peças que ousam esconder sua nudez, revelou uma obra-prima do bom gosto. Que os quatro morram de inveja, eu de minha parte vou seguindo a vida apreciando e me deliciando com as obras-primas de outro tipo de arte, a arte da sedução. Bem dita sejas tu, maravilhosa lingerie! Bem dita sejam as mulheres que com apenas o básico ousam no dia-a-dia, maravilhosas!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2005
Sua beleza é para isto mesmo, para ser mostrada, revelada, realçada e não ficar escondida sob a materialização das mais estranhas fantasias de um estilista qualquer. Assim nós pobres mortais é que podemos fantasiar. Ao se decidir por mostrar quão generosa a natureza foi com ela, o fez com uma naturalidade estonteante e um requinte de crueldade a toda prova. Sim cruel, pois sua sedução maltrata, é um convite para o imaginário, talvez inatingível, com certeza desejado. Acessórios pretos complementam o quadro, onde uma sensual lingerie branca é o diferencial.
O branco e o preto se completam em uma perfeita harmonia de contrastes, tendo por pano de fundo, uma formidável escultura, que nem os mais renomados mestres do renascimento florentino conseguiram revelar. Não bebo da mesma fonte poética de Vinicius, mas ela bem que merece ser eternizada em verso e prosa, porém, a minha incompetência é intransponível abismo, triste frustração. Estática, conduz até mesmo o mais desavisado a se perder em um mundo sem fim da imaginação, onde a sedução ganha forma e vida, pois ela fala, ou melhor, sussurra aos nossos ouvidos. O que me disse não posso revelar.
Não precisa ser um adolescente imberbe e cheio de espinhas, os mais maduros, os resolvidos, os “coroas” ou tios, como dizem nossos adolescentes, sempre dão uma olhadinha e um suspiro, com toda certeza, também, os avós. Se a intenção foi simplesmente provocar, acertaram em cheio. Mas, se foi para divulgar a marca, foram de uma competência sem igual, pois agora, muitos marmanjos estão comentando a loira de branco da D Basic Darling. Os mais íntimos, ou mais afoitos falam apenas da loira da Darling. Alguns nem notam que ela esta segurando o salto alto de uma bota de couro preto, objeto que tem uma das mais altas cotações entre todos os fetiches masculinos.
Não interessa o seu nome, idade, ocupação ou qualquer outra informação, basta a sua imagem. Ao admirá-la, me vem no coração uma tristeza imensa, não por mim, mas por figuras do porte de um Donatelo, um Michelangelo, um Leonardo e um Rafael, os quatro grandes do renascimento, que nunca em sua mais louca imaginação puderam contar com tão espetacular modelo, que com apenas duas maravilhosas peças que ousam esconder sua nudez, revelou uma obra-prima do bom gosto. Que os quatro morram de inveja, eu de minha parte vou seguindo a vida apreciando e me deliciando com as obras-primas de outro tipo de arte, a arte da sedução. Bem dita sejas tu, maravilhosa lingerie! Bem dita sejam as mulheres que com apenas o básico ousam no dia-a-dia, maravilhosas!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2005
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