Socorro
Ajudem-me a sair desta miséria, implorou. Bondosamente um desconhecido atendeu-lhe. Agora jaz um corpo na calçada.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.
9 de nov. de 2008
25 de out. de 2008
Poemas de Fritz Müller – História Natural de Sonhos

Fritz Müller é o patrono da cadeira que ocupo na Academia de Letras Blumenauense, o que me leva a ter uma relação muito especial com está interessante figura. Home sensível de rude aparência. Um poeta em meio à natureza como mostram algumas de suas fotos.
O livro Poemas de Fritz Müller, que tem como subtítulo História Natural de Sonhos, cujos poemas foram traduzidos por Lia Carmem Puff e Dennis Radünz (Nauemblu; 56 páginas), veio-me às mãos quando adquiri umas obras do Guido Heuer, cuja temática era inspirada na natureza e o livro fazia parte do conjunto. Idéia fantástica esta de associar os quadros com o livro. O livro já atrai pela beleza da capa, que lembra alguns livros infantis da minha infância. Estas gravuras vão se reproduzindo ao longo do livro em harmonia com a temática de cada poema. Este é um dos aspectos. O outro é a beleza dos poemas que revela um Frits Müller sensível, observador, não apenas um estudioso da natureza, mas um apaixonado, um amante.
Mas nem por isso, ou talvez seja por causa disso, que ele apresenta na forma de poema alguns dos dramas que diariamente se revelam na natureza e que dizem respeito à sobrevivência. Sobrevivência que para uns significa a morte dos outros. Caso do poema do Pica-Pau quando o autor usa o todo o poema para descrever de forma encantadora as atividades desta belo pássaro. Apenas no último verso é que o belo pássaro é apresentado como o devorador, àquele que põem fim a vida do infeliz verme que tinha o tronco como morada protetora.
A morte acompanha grande parte dos poemas que são apresentados no livro. Mas não é a morte covarde, gratuita que se vê em nosso meio. É a morte natural, é a transformação, o transcurso regular das coisas da vida. A cadeia alimentar se manifestando. E ele, um naturalista, observador por obrigação retrata estes dramas com verdadeira sutileza.
Os poemas em que o homem se faz presente, ai sim encontramos crueldade. O homem é cruel quando monta uma armadilha e mata a solitária paca. O homem é exterminador quando dizima com veneno e fogo o formigueiro em que habitam trabalhadores formigas. Finalizando as atrocidades humanas o poeta nos apresenta a figura de um menino que ilude uma faminta gaivota que de forma bárbara vê o fim de sua vida chegar através de um anzol preso em sua garganta. Pobre gaivota.
Mas o poeta faz a natureza revidar na astúcia de uma tartaruga que quando esta para padecer sob o golpe fulminante de um remo consegue fugir através das águas do rio, deixando para trás seu irado algoz.
O que se esperar de um naturalista poeta? Talvez isto, que ele com sua sensibilidade consiga apresentar de forma natural os dramas que são da natureza e já naquele tempo fazer um alerta sobre o comportamento do homem com relação à natureza.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
15 de out. de 2008
Saboreando crônicas

O que pode se esconder por trás de um título como este: Saboreando crônicas (Luiz Eduardo Caminha; Nova Letra;110 páginas), de autoria do meu amigo Caminha? Uma deliciosa leitura, é claro! Pois é esta a proposta do Caminha e é bem isto que ele consegue. Com o perdão do trocadilho, mas saboreando crônicas é daquelas deliciosas leitura que a gente devora cada página. Não como um glutão que come por impulso, mas como um gourmet que tem prazer em saborear cada uma das suas crônicas como se fossem iguarias que compõem um simples, mas bem elaborado prato.
Caminha é uma daquelas pessoas iluminadas, um autentico multitarefa. Médico, dos mais capacitados, escritor primoroso que trilha – ou caminha – as veredas da poesia e da crônica com a mesma fluência e dedicação com que pesquisava o interior de seus pacientes.
O Caminha teve a felicidade de nascer em Florianópolis e conviver com o pessoal que estava no centro dos acontecimentos quando a Ilha da Magia ainda era paradisíaca e não tinha adotados os ares de uma falsa metrópole cosmopolita. Transferir esta atmosfera bucólica para a literatura através da construção de inúmeras crônicas entremeadas com receitas da culinária açoriana praticada na ilha é a receita de sucesso trilhada pelo Caminha.
Saboreando Crônicas é uma sucessão de narrativas, muitas delas hilárias, perfeitamente harmonizadas com saborosas receitas gastronômicas fazendo com que o leitor se sinta como é um belo banquete. É uma oportunidade para aqueles que, como eu, foram criados naquela Florianópolis, e também, para aqueles que só conheceram Floripa, saberem como a Capital sempre foi maravilhosa e por isso tanto e a tantos encantou.
Mas o livro não é só isso, é um desafio! As receitas gastronômicas lá estão, então que o leitor se lance aos prazeres da boa mesa, testando cada uma delas. Não basta apenas fazer a leitura, temos que viver o livro! Que tal preparar um berbigão ensopado com pirão de “nailho” e espaguete ou arroz, harmonizado com a interessante crônica Máquina de descarcar Berbigão?
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Uma viagem só de chegada

Tive a grata satisfação de ser presenteado por Marcelo Steil com um exemplar desta magnífica obra, de sua autoria e que foi acertadamente batizada de “Uma viagem só de chegada” (Marcelo Steil; Edifurb/Ed. da UFSC; 149 páginas). Você pode estar se perguntando sobre o que faz alguém ter a ousadia de classificar uma obra como sendo magnífica? É um belo questionamento que tratarei de responder ao longo do texto.
Marcelo Steil fez seu mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina e da sua dissertação extraiu o material que usou para dar forma e vida ao livro, publicado em 2002. “Uma viagem só de chegada” não é um livro de turismo, muito menos um romance de aventuras. É na verdade um drama, que para se apresentar, faz uso da poesia em língua alemã produzida pelos colonizadores no Brasil, em uma apropriação muito feliz. Para poder compor seu drama Marcelo fez um profundo trabalho de pesquisa que ao ser transportado para o livro perdeu todo aquele peso e enquadramento científico tornando-se uma leitura prazerosa.
Entre aqueles que tentam definir poesia muitos falam que poesia é sentimento, é alma, é paixão. E foi isto que Marcelo garimpou entre os poetas alemães que para cá vieram. Sim, vieram! Mas, de onde saíram, por que saíram e como saíram? Perguntas, cujas respostas estão escondidas, disfarçadas no meio das letras. Respostas que para serem encontradas precisaram da habilidade de um grande garimpeiro, de paixões e emoções.
Poemas como “Velha e nova Pátria”, de Victor Shcleiff; “Teuto-brasileiro”, de Georg Knoll; “Minha casa paterna”, de Rudolf Damm; e, “Língua Materna”, de Maria Kahle, são algumas das obras que passam por um processo de dissecação literária nas mãos de Marcelo. Um processo que se vale da análise das estruturas do poema e da linguagem poética para alcançar a alma do poeta.
Marcelo se enfurnou nas poesias e conseguiu extrair uma realidade dura e até triste que os poetas alemães se esmeraram para tentar ocultar. É isto que torna o trabalho de Marcelo magnífico. Ele conseguiu romper as barreiras da sisudez germânica e penetrar nos mistérios de sua alma, buscando lá no fundo as respostas que tanto trabalho foi despendido para encobri-las. A resposta está em uma pátria deixada para trás e na busca em se construir a mesma pátria em um novo lugar. Uma pátria que precisou ser abandonada por que era fonte de sofrimento e dor, vindo daí a razão de não se partir, mas apenas se chegar. Sem dúvida algo terrível de ser admitido pelo bravo e orgulhoso povo alemão. Diferente de outros movimentos migratórios europeus que buscavam a expansão de impérios, o germânico (mas não só ele) foi uma questão de sobrevivência.
Isto fizeram aqueles migrantes, nossos antepassados, uma grande viagem, que por meio da obra de Marcelo ficamos sabendo o porquê ser ela só de chegada. A partida e o que motivou a partida ficaram rigorosamente deixados nas terras da mãe Alemanha.
Será que o objetivo de construir a mesma pátria, mas sem a dor e o sofrimento, em outras terras foi alcançado? Não era uma simples questão de apenas transferir uma parte da Alemanha para o Brasil, era uma questão de reafirmar a germanidade no paraíso. Dizem que sim, que o que os alemães construíram no Brasil não se encontra mais na Alemanha e muito menos em qualquer outro lugar do Brasil. Mas isto é outra história, que ainda está em construção e um dia vai ser contada.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
10 de out. de 2008
Estréia no Ninho Literário: ELES
6 de set. de 2008
Era uma vez...
Era uma vez, nos primórdios da humanidade, quando o ser humano, ou simplesmente bicho homem para os mais íntimos, começou a se desenvolver em comunidades.
Naquele tempo, hordas de arruaceiros e desordeiros se organizaram e espalhavam o terror por todos os cantos da terra, eram os homens maus. Para se defenderem, os homens bons, também se organizaram. Mas, os chamados homens bons, se organizaram em dois tipos de comunidades: a comunidade dos que mandavam, e a comunidade dos que eram mandados. Os que mandavam ofereceram proteção aos que eram mandados, mas em troca cobraram-lhes uma contrapartida financeira. Os que eram mandados, como sempre faziam, aceitaram. Não só aceitaram pagar pela segurança como ofereceram seus filhos para comporem um sub grupo que seria encarregado da tal segurança. Estes encarregados da segurança não chegaram o formar um novo grupo, ficaram vagando no limbo entre um e outro, por isso foram tratados de sub grupo, tanto pelo grupo dos que mandavam, como pelo grupo dos que eram mandados, e sendo assim passaram a não se identificar com nenhum deles. Quando iam prestar segurança ao grupo dos mandados, não se identificavam com estes, pois estavam cumprindo ordens do grupo dos que mandavam. Quando estavam com o grupo dos que mandavam não eram identificados por aqueles, pois não mandavam, apenas executam o que lhes era mandado. Este sub grupo ficou conhecido como aqueles do limbo. E, assim foi evoluindo a humanidade.
Com o passar dos tempos, o grupo dos que mandavam passou a usar o sub grupo do limbo para sua própria segurança e abandonaram o grupo dos que eram mandados a sua própria sorte. Vendo isso, o grupo dos homens maus se aproveitou e tomou o grupo dos que eram mandados. O grupo dos homens maus gostou tanto da nova situação, da nova ordem, que viu que poderia substituir o grupo dos que mandavam e se tornar um novo grupo, o grupo dos homens maus que mandavam. Mas para angariar o apoio do grupo dos que eram mandados, resolveram que eles, os homens maus que mandavam, iriam dar proteção ao grupo dos homens que eram mandados. Como o grupo dos que eram mandados já estavam acostumados a serem mandados e tinham sido abandonados pelo grupo dos homens que mandavam, aceitaram, mesmo sem saber contra quem era essa proteção. Mas, fazer o que, se eles sempre foram mandados.
Não se dando por satisfeito, o grupo dos que mandavam, para mostrar que continuavam mandando, vez por outra, mandavam que o sub grupo do limbo fizesse incursões contra os homens maus que agora mandavam. Mas como os homens maus que agora mandavam estavam misturados com os homens que eram mandados, era comum o sub grupo do limbo atingir os homens que eram mandados, e estes passaram a se revoltar contra o grupo dos que mandavam e seu sub grupo do limbo.
O grupo dos homens maus que agora mandavam entendeu que como o sub grupo do limbo era usado sem respeito pelo grupo dos que mandavam, poderiam, através de uma compensação financeira, angariar homens do sub grupo do limbo para seu lado. E assim, o grupo dos que eram mandados se viu diante de uma situação difícil. Todos mandavam neles e todos cobravam deles e o sub grupo do limbo não mais lhes dava proteção.
Vendo a aflição dos integrantes do grupo dos que eram mandados, alguns do sub grupo limbo resolveram agir por conta própria, e ganhar “um” por fora. Formaram um outro tipo de organização que ficou conhecida por todos como aqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer e ofereceram segurança ao grupo dos que eram mandados, contra o grupo dos homens maus que agora mandavam. Na esperança de terem sua tranqüilidade de volta, aceitaram. Assim o grupo dos que eram mandados agora pagava ao grupo dos que mandavam, ao grupo dos homens maus que agora mandavam e àqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer. Pagavam cada vez e tinham cada vez menos.
Para não perder o poder, o grupo dos que mandavam, e que eram homens bons, mandaram outra organização para defender os que eram mandados. Essa organização era especial, tinha mais equipamentos, mais armamentos e eram treinados para defender a todos contra agressões do que se chamou de agressões externas, e ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo.
Quando soube disso, o grupo dos que eram mandados ficou muito contente, pois agora iria ter a sua tranqüilidade, aquela que fazia tanto tempo que havia perdido, pois é, ela seria trazida de volta. Pelo serviço dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, o grupo dos que eram mandados não precisaria pagar mais nada, era tudo tão maravilhoso. Finalmente eles poderiam dizer que todos seriam felizes para sempre.
Mas, não foi bem assim. Num determinado dia, um grupo dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, vendo que não podia nada e não fazia nada, pegou alguns integrantes do grupo dos que eram mandados e entregou para o grupo dos homens maus que agora mandavam. Já que eles eram homens maus, mesmo agora mandando, eles mataram estes integrantes do grupo dos que eram mandados e jogaram seus corpos no lixo, como a dizer que lá era o lugar daqueles que faziam parte do grupo dos que eram mandados.
Assim se instalou uma crise geral. Para resolvê-la, o grupo dos que mandavam, já que mandavam, mandou o chefe maior daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada para conversar com o grupo dos que eram mandados. Assim se fez, mas não sem antes encherem o lugar em que habitava o grupo dos que eram mandados, de integrantes daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, de seus equipamentos e seus armamentos. Fizeram isso, não para proteger o grupo dos que eram mandados, mas para proteger o chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada. Ele iria dar uma resposta ao grupo dos que eram mandados. Quando lá chegou, o chefe foi indagado por uma daquelas que era integrante do grupo dos que eram mandados, sobre a morte de um de seus integrantes, seu ente querido. O chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, disse: morte! Pois é, morreram, mas eu estou aqui, e vim aqui para isso: para pedir desculpas!
A narrativa acima faz parte de um grupo de pergaminhos deixado por uma civilização extinta. O lugar e as condições em que os pergaminhos foram encontrados são mantidos em segredo, bem como o seu conteúdo. Comentários dão conta de que nos pergaminhos está escrito de que forma essa civilização foi extinta, por isso tanto segredo. Nem mesmo a narrativa acima deveria ter sido publicada, mas um amigo do primo do cunhado do irmão do tio de uma pessoa que é muito ligado ao colega do namorado de um amigo meu, conseguiu uma cópia e me mandou. Havia ainda uma informação sobre o local onde tudo isso ocorreu. Estava escrito que era um lugar lindo, com uma maravilhosa baía e alguns morros esplendorosos, e que para saudar os visitantes o grupo dos que mandavam fez construir uma estátua que de braços abertos dava boas vindas aos visitantes. Falam ainda que existem esforços no sentido de identificar essa civilização perdida, sua época e o local em que viveram. Outros dizem que tudo não passa de lenda, fruto da imaginação de alguém. Quem sabe? Só o futuro dirá!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta
Naquele tempo, hordas de arruaceiros e desordeiros se organizaram e espalhavam o terror por todos os cantos da terra, eram os homens maus. Para se defenderem, os homens bons, também se organizaram. Mas, os chamados homens bons, se organizaram em dois tipos de comunidades: a comunidade dos que mandavam, e a comunidade dos que eram mandados. Os que mandavam ofereceram proteção aos que eram mandados, mas em troca cobraram-lhes uma contrapartida financeira. Os que eram mandados, como sempre faziam, aceitaram. Não só aceitaram pagar pela segurança como ofereceram seus filhos para comporem um sub grupo que seria encarregado da tal segurança. Estes encarregados da segurança não chegaram o formar um novo grupo, ficaram vagando no limbo entre um e outro, por isso foram tratados de sub grupo, tanto pelo grupo dos que mandavam, como pelo grupo dos que eram mandados, e sendo assim passaram a não se identificar com nenhum deles. Quando iam prestar segurança ao grupo dos mandados, não se identificavam com estes, pois estavam cumprindo ordens do grupo dos que mandavam. Quando estavam com o grupo dos que mandavam não eram identificados por aqueles, pois não mandavam, apenas executam o que lhes era mandado. Este sub grupo ficou conhecido como aqueles do limbo. E, assim foi evoluindo a humanidade.
Com o passar dos tempos, o grupo dos que mandavam passou a usar o sub grupo do limbo para sua própria segurança e abandonaram o grupo dos que eram mandados a sua própria sorte. Vendo isso, o grupo dos homens maus se aproveitou e tomou o grupo dos que eram mandados. O grupo dos homens maus gostou tanto da nova situação, da nova ordem, que viu que poderia substituir o grupo dos que mandavam e se tornar um novo grupo, o grupo dos homens maus que mandavam. Mas para angariar o apoio do grupo dos que eram mandados, resolveram que eles, os homens maus que mandavam, iriam dar proteção ao grupo dos homens que eram mandados. Como o grupo dos que eram mandados já estavam acostumados a serem mandados e tinham sido abandonados pelo grupo dos homens que mandavam, aceitaram, mesmo sem saber contra quem era essa proteção. Mas, fazer o que, se eles sempre foram mandados.
Não se dando por satisfeito, o grupo dos que mandavam, para mostrar que continuavam mandando, vez por outra, mandavam que o sub grupo do limbo fizesse incursões contra os homens maus que agora mandavam. Mas como os homens maus que agora mandavam estavam misturados com os homens que eram mandados, era comum o sub grupo do limbo atingir os homens que eram mandados, e estes passaram a se revoltar contra o grupo dos que mandavam e seu sub grupo do limbo.
O grupo dos homens maus que agora mandavam entendeu que como o sub grupo do limbo era usado sem respeito pelo grupo dos que mandavam, poderiam, através de uma compensação financeira, angariar homens do sub grupo do limbo para seu lado. E assim, o grupo dos que eram mandados se viu diante de uma situação difícil. Todos mandavam neles e todos cobravam deles e o sub grupo do limbo não mais lhes dava proteção.
Vendo a aflição dos integrantes do grupo dos que eram mandados, alguns do sub grupo limbo resolveram agir por conta própria, e ganhar “um” por fora. Formaram um outro tipo de organização que ficou conhecida por todos como aqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer e ofereceram segurança ao grupo dos que eram mandados, contra o grupo dos homens maus que agora mandavam. Na esperança de terem sua tranqüilidade de volta, aceitaram. Assim o grupo dos que eram mandados agora pagava ao grupo dos que mandavam, ao grupo dos homens maus que agora mandavam e àqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer. Pagavam cada vez e tinham cada vez menos.
Para não perder o poder, o grupo dos que mandavam, e que eram homens bons, mandaram outra organização para defender os que eram mandados. Essa organização era especial, tinha mais equipamentos, mais armamentos e eram treinados para defender a todos contra agressões do que se chamou de agressões externas, e ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo.
Quando soube disso, o grupo dos que eram mandados ficou muito contente, pois agora iria ter a sua tranqüilidade, aquela que fazia tanto tempo que havia perdido, pois é, ela seria trazida de volta. Pelo serviço dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, o grupo dos que eram mandados não precisaria pagar mais nada, era tudo tão maravilhoso. Finalmente eles poderiam dizer que todos seriam felizes para sempre.
Mas, não foi bem assim. Num determinado dia, um grupo dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, vendo que não podia nada e não fazia nada, pegou alguns integrantes do grupo dos que eram mandados e entregou para o grupo dos homens maus que agora mandavam. Já que eles eram homens maus, mesmo agora mandando, eles mataram estes integrantes do grupo dos que eram mandados e jogaram seus corpos no lixo, como a dizer que lá era o lugar daqueles que faziam parte do grupo dos que eram mandados.
Assim se instalou uma crise geral. Para resolvê-la, o grupo dos que mandavam, já que mandavam, mandou o chefe maior daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada para conversar com o grupo dos que eram mandados. Assim se fez, mas não sem antes encherem o lugar em que habitava o grupo dos que eram mandados, de integrantes daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, de seus equipamentos e seus armamentos. Fizeram isso, não para proteger o grupo dos que eram mandados, mas para proteger o chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada. Ele iria dar uma resposta ao grupo dos que eram mandados. Quando lá chegou, o chefe foi indagado por uma daquelas que era integrante do grupo dos que eram mandados, sobre a morte de um de seus integrantes, seu ente querido. O chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, disse: morte! Pois é, morreram, mas eu estou aqui, e vim aqui para isso: para pedir desculpas!
A narrativa acima faz parte de um grupo de pergaminhos deixado por uma civilização extinta. O lugar e as condições em que os pergaminhos foram encontrados são mantidos em segredo, bem como o seu conteúdo. Comentários dão conta de que nos pergaminhos está escrito de que forma essa civilização foi extinta, por isso tanto segredo. Nem mesmo a narrativa acima deveria ter sido publicada, mas um amigo do primo do cunhado do irmão do tio de uma pessoa que é muito ligado ao colega do namorado de um amigo meu, conseguiu uma cópia e me mandou. Havia ainda uma informação sobre o local onde tudo isso ocorreu. Estava escrito que era um lugar lindo, com uma maravilhosa baía e alguns morros esplendorosos, e que para saudar os visitantes o grupo dos que mandavam fez construir uma estátua que de braços abertos dava boas vindas aos visitantes. Falam ainda que existem esforços no sentido de identificar essa civilização perdida, sua época e o local em que viveram. Outros dizem que tudo não passa de lenda, fruto da imaginação de alguém. Quem sabe? Só o futuro dirá!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta
A primeira vez
Temos um fascínio pela primeira vez. Em tudo a primeira vez é marcante. Dizem os românticos, que é pela entrega. Já os mais realistas, afirmam que é por que é ruim mesmo. Na primeira vez falta tudo, falta experiência (por isso é a primeira), falta compreensão e falta muita coisa. Por outro lado, sobra tudo, sobra nervosismo, sobre medo, receios e sobre muita coisa. Quem consegue esquecer da primeira vez que andou de montanha russa? Da primeira pescaria? Do primeiro dia de aula?
Para alguns sua primeira vez vem cedo, outros tem que esperar. Essa espera pode estar relacionada com o amadurecimento que é necessário e para muitos pode demorar mais que o normal. Outros vão postergando sua primeira vez por puro medo, por vergonha. E quanto mais o tempo passa, pior fica. O medo do fracasso vai tomando conta. O desespero de expor sua falta de jeito, de não saber como lidar com os detalhes, que já não são tão detalhes assim, pois podem representar a diferença entre o sucesso e o fracasso. Ter de se expor assim em sua intimidade para alguém é algo assustador, e quanto mais o tempo passa mais vai potencializando as angustias e como que entrando em um circulo vicioso, vai afastando do grande momento.
Mas se não acontecer, não é a primeira vez, por isso todos passamos por ela. É como um rito de passagem, a vida se divide entre o antes e o depois da primeira vez. Os iniciados formam um grupo invejado.
Foi em meio a todas essas interrogações que de repente me vi no limiar de minha primeira vez. Foi dificílimo e só me rendi após vários apelos de uma colega de mestrado. Várias vezes ela me disse: vai experimenta! Você vai gostar! É bom! Expande nossas fronteiras! Permite-nos interagir melhor com os amigos! E eu pensava comigo, isso é fácil pra ela, que já está acostumada e é bem mais jovem que eu. Mas e eu? Já passei dos 40, será que ainda existe esperança para mim?
Após muito refletir, tomei a decisão, eu faria! Mas, me impus uma condição, tinha que ser com ela, com a minha amiga do mestrado e teria de pega-la de surpresa, para não dar chances de um arrependimento, por parte dela é lógico. Não, não, não, não poderia ser com qualquer um, melhor com qualquer uma. Já que era para ser minha iniciação, teria de ser com alguém com experiência e acima de tudo, uma pessoa em quem eu confiava.
Preparei-me. Cumpri todo um ritual de preliminares, mas mesmo assim foi tumultuado. Não por culpa dela, nem minha, mas toda hora tinham outras pessoas que atrapalhavam e a gente não conseguia entrar em sintonia. Era um tal de espera ai, já volto, pronto, podemos recomeçar, espera ai (de novo), agora vai (pela vigésima vez), onde foi mesmo que paramos? Pra mim, foi um pouco ríspido, com todas essas interrupções. Como me atrapalharam, cheguei em certos momentos a achar que estava acima das minhas capacidades e que deveria desistir de tudo, me recolher a minha insignificância, desistir. O pior era ter que recomeçar tudo novamente, não dava para simplesmente seguir de onde paramos, pelo menos para mim, tinha que voltar um pouco e recomeçar. Confesso que foi estafante, em certos momentos beirava o desespero. Foram interrupções de mais de 10 minutos, e eu ali, parado, só podendo me contentar em meramente ser um espectador, nada de interação, ficava literalmente na mão.
Mas valeu a pena, como ela foi maravilhosa, como me conduziu com paciência (nos momentos certos), com maestria desvendava cada segredo, pelo menos para mim era segredo. Ensinava-me e demonstrava cada movimento. Revelou grande fluência, típica daqueles que tem muita experiência. De minha parte, ficava extasiado com cada nova descoberta, e quando eu pensei que havia acabado ele placidamente me provocou – fica melhor quando chamarmos mais amigos, em grupo também é bom, pode ser até melhor, dependo do grupo. Para mim aquilo soou como um desafio. Eu mal havia sido iniciado e já estava pronto para novas emoções. Então ta certo, a próxima vez vai ser em grupo.
Pois é, foi assim aos 42 anos de idade que tive minha primeira experiência, fui apresentado aos prazeres e desafios do MSN, o famoso programa de conversa on line. Como é bom esse tal de MSN. Viva o MSN!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Para alguns sua primeira vez vem cedo, outros tem que esperar. Essa espera pode estar relacionada com o amadurecimento que é necessário e para muitos pode demorar mais que o normal. Outros vão postergando sua primeira vez por puro medo, por vergonha. E quanto mais o tempo passa, pior fica. O medo do fracasso vai tomando conta. O desespero de expor sua falta de jeito, de não saber como lidar com os detalhes, que já não são tão detalhes assim, pois podem representar a diferença entre o sucesso e o fracasso. Ter de se expor assim em sua intimidade para alguém é algo assustador, e quanto mais o tempo passa mais vai potencializando as angustias e como que entrando em um circulo vicioso, vai afastando do grande momento.
Mas se não acontecer, não é a primeira vez, por isso todos passamos por ela. É como um rito de passagem, a vida se divide entre o antes e o depois da primeira vez. Os iniciados formam um grupo invejado.
Foi em meio a todas essas interrogações que de repente me vi no limiar de minha primeira vez. Foi dificílimo e só me rendi após vários apelos de uma colega de mestrado. Várias vezes ela me disse: vai experimenta! Você vai gostar! É bom! Expande nossas fronteiras! Permite-nos interagir melhor com os amigos! E eu pensava comigo, isso é fácil pra ela, que já está acostumada e é bem mais jovem que eu. Mas e eu? Já passei dos 40, será que ainda existe esperança para mim?
Após muito refletir, tomei a decisão, eu faria! Mas, me impus uma condição, tinha que ser com ela, com a minha amiga do mestrado e teria de pega-la de surpresa, para não dar chances de um arrependimento, por parte dela é lógico. Não, não, não, não poderia ser com qualquer um, melhor com qualquer uma. Já que era para ser minha iniciação, teria de ser com alguém com experiência e acima de tudo, uma pessoa em quem eu confiava.
Preparei-me. Cumpri todo um ritual de preliminares, mas mesmo assim foi tumultuado. Não por culpa dela, nem minha, mas toda hora tinham outras pessoas que atrapalhavam e a gente não conseguia entrar em sintonia. Era um tal de espera ai, já volto, pronto, podemos recomeçar, espera ai (de novo), agora vai (pela vigésima vez), onde foi mesmo que paramos? Pra mim, foi um pouco ríspido, com todas essas interrupções. Como me atrapalharam, cheguei em certos momentos a achar que estava acima das minhas capacidades e que deveria desistir de tudo, me recolher a minha insignificância, desistir. O pior era ter que recomeçar tudo novamente, não dava para simplesmente seguir de onde paramos, pelo menos para mim, tinha que voltar um pouco e recomeçar. Confesso que foi estafante, em certos momentos beirava o desespero. Foram interrupções de mais de 10 minutos, e eu ali, parado, só podendo me contentar em meramente ser um espectador, nada de interação, ficava literalmente na mão.
Mas valeu a pena, como ela foi maravilhosa, como me conduziu com paciência (nos momentos certos), com maestria desvendava cada segredo, pelo menos para mim era segredo. Ensinava-me e demonstrava cada movimento. Revelou grande fluência, típica daqueles que tem muita experiência. De minha parte, ficava extasiado com cada nova descoberta, e quando eu pensei que havia acabado ele placidamente me provocou – fica melhor quando chamarmos mais amigos, em grupo também é bom, pode ser até melhor, dependo do grupo. Para mim aquilo soou como um desafio. Eu mal havia sido iniciado e já estava pronto para novas emoções. Então ta certo, a próxima vez vai ser em grupo.
Pois é, foi assim aos 42 anos de idade que tive minha primeira experiência, fui apresentado aos prazeres e desafios do MSN, o famoso programa de conversa on line. Como é bom esse tal de MSN. Viva o MSN!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
A Távola Redonda
Meus amigos e eu gostamos de encerrar nossa reuniões semanais em torno de uma mesa de bar. Nem tanto pelos acepipes que procuramos devorar vorazmente, mas sim pelo momento de relaxamento e descontração que nos proporciona. Dia destes em razão de termos prolongado a reunião, chegamos em nosso refugio e deparamos com o mesmo com suas portas cerradas. Decepção total nos rostos de todos nós. Por alguma razão, que a razão desconhece, havia sido quebrada nossa rotina. Mas não nos damos por vencidos. Não seria a má vontade de um dono de estabelecimento gastronômico, agora elevado a condição de simples dono de boteco - percebam a velocidade com que mudam nossos conceitos com relação às pessoas quando somos contrariados - que nos levaria para a lona.
Rapidamente em nosso grupo surgiram vozes de protesto, se formando uma linda cena, com alguns respeitáveis senhores parados em frente a um boteco, fechado, erguendo seus punhos ao ar em um honrado brado de protesto. Mais rápido ainda surgiu uma solução para o impasse, vamos para outro lugar. Sem o menor pudor e cheios de razão, nos propomos a buscar refugio em outro lugar que nos recebesse. Nos comportamos como aquela “pura donzela”, que quando pronta a se entregar de corpo e alma ao seu amante, encontra este indisposto ou por qualquer razão indisponível, e para honrar sua libido sai à procura do primeiro que lhe satisfaça e a este se entrega deliciosamente, sem o menor remorso. Saímos em carreata percorrendo as vazias ruas da cidade procurando por uma ínfima luz que denunciasse a disponibilidade daquele que seria nosso novo refugio.
Enquanto nos deslocávamos fiquei observando aquela fila de carros, cada qual ocupado por uma única e revoltada alma, mas que agia como se fosso é só organismo vivo. Parava, andava, mudava de direção em uma linda harmonia. Devido ao adiantado da hora éramos praticamente os únicos a ocupar as ruas naquele momento, de modo que nada nos importunou em nossa verdadeira caçada. Alguém que pudesse ver a harmonia daqueles cavaleiros errantes certamente ficaria surpreso, até mesmo assustado com tal espetáculo. Para nossa satisfação encontramos aquilo que procurávamos, não um simples boteco, mais um lindo e maravilhoso estabelecimento gastronômico, onde pudemos não só saciar nossa fome e dividir nossas alegrias, mas acima de tudo executar nossa vingança.
Ainda não sei se a nossa alegria se deu em razão da qualidade do ambiente e do tamanho da fome, que eu pude constatar mais uma vez que progride geometricamente, ou pela oportunidade ímpar, que com toda a certeza nunca mais iria se repetir de vingarmos nossa honra. Aumentando a nossa alegria nos deparamos com uma enorme mesa redonda, local propício para o deleite (fique a vontade para usar sua imaginação). Já perceberam que em um restaurante as mesas no formato redondo são as que recebem os clientes mais felizes, é só aferir o nível de ruídos que vem destas mesas.
Após cada qual tomar o seu lugar e de sermos servidos da mais deliciosa das cervejas, enquanto os pedidos ainda eram preparados, já nos sentíamos donos daquele local, como se o mesmo estivesse sido construído para nos atender e que aquela mesa havia se preservada até a nossa chegada, não sendo usada anteriormente por nenhum atrevido ser. Diante de tal constatação não nos restava nada mais a fazer se não proporcionar os mais demorados prazeres para a nossa companheira, a mesa, que entre um brinde e outro foi batizada de A TÁVOLA REDONDA, que tal qual a lenda, após ferozes batalhas recebia o Rei Artur e seus valorosos cavaleiros, talvez não tanto cavalheiros, mas tudo bem. Nos prolongamos tanto em nossa árdua tarefa de proporcionar tanto prazer a nossa Távola que o tempo passou e não nos demos conta, mais isto também não importava mais, o que mais importava era o raro momento.
Finda a nossa aventura épica fomos cada qual para sua casa, felizes, saciados, satisfeitos e acima de tudo com aquele sentimento heróico de dever cumprido. Porém, foi só chegar em casa para a fantasia se desfazer e a realidade mostrar suas terríveis garras, a verdadeira batalha épica se apresentou. A mais terrível de todas as batalhas já travada por este simples mortal, que espero que o imortal Rei Artur e seus cavaleiros não tenham tido que travar, qual seja, a de explicar para a esposa a razão do atrevimento de chegar tão tarde em casa. Não pelo fato de a amada esposa ser cruel, mas simplesmente em razão da desculpa ser ridícula.
Após esta derrota descomunal, que mais tarde fiquei sabendo, também, foi sofrida pelos demais cavaleiros da nossa távola redonda, não nos restou outra saída se não a de semanalmente nos socorrermos da mesma mesa, no mesmo bar, nomeá-la novamente de Távola Redonda, nos revestirmos das honrarias de Cavaleiros, porém, com o cuidado de nomearmos um Cavaleiro de Senhor do Tempo, o homem que cuida do relógio e nos salva de termos que enfrentar novamente batalhas domésticas. Pois, já ensinava aquele grande general, as batalhas que não podem ser vencidas tem obrigatoriamente que ser evitadas.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Rapidamente em nosso grupo surgiram vozes de protesto, se formando uma linda cena, com alguns respeitáveis senhores parados em frente a um boteco, fechado, erguendo seus punhos ao ar em um honrado brado de protesto. Mais rápido ainda surgiu uma solução para o impasse, vamos para outro lugar. Sem o menor pudor e cheios de razão, nos propomos a buscar refugio em outro lugar que nos recebesse. Nos comportamos como aquela “pura donzela”, que quando pronta a se entregar de corpo e alma ao seu amante, encontra este indisposto ou por qualquer razão indisponível, e para honrar sua libido sai à procura do primeiro que lhe satisfaça e a este se entrega deliciosamente, sem o menor remorso. Saímos em carreata percorrendo as vazias ruas da cidade procurando por uma ínfima luz que denunciasse a disponibilidade daquele que seria nosso novo refugio.
Enquanto nos deslocávamos fiquei observando aquela fila de carros, cada qual ocupado por uma única e revoltada alma, mas que agia como se fosso é só organismo vivo. Parava, andava, mudava de direção em uma linda harmonia. Devido ao adiantado da hora éramos praticamente os únicos a ocupar as ruas naquele momento, de modo que nada nos importunou em nossa verdadeira caçada. Alguém que pudesse ver a harmonia daqueles cavaleiros errantes certamente ficaria surpreso, até mesmo assustado com tal espetáculo. Para nossa satisfação encontramos aquilo que procurávamos, não um simples boteco, mais um lindo e maravilhoso estabelecimento gastronômico, onde pudemos não só saciar nossa fome e dividir nossas alegrias, mas acima de tudo executar nossa vingança.
Ainda não sei se a nossa alegria se deu em razão da qualidade do ambiente e do tamanho da fome, que eu pude constatar mais uma vez que progride geometricamente, ou pela oportunidade ímpar, que com toda a certeza nunca mais iria se repetir de vingarmos nossa honra. Aumentando a nossa alegria nos deparamos com uma enorme mesa redonda, local propício para o deleite (fique a vontade para usar sua imaginação). Já perceberam que em um restaurante as mesas no formato redondo são as que recebem os clientes mais felizes, é só aferir o nível de ruídos que vem destas mesas.
Após cada qual tomar o seu lugar e de sermos servidos da mais deliciosa das cervejas, enquanto os pedidos ainda eram preparados, já nos sentíamos donos daquele local, como se o mesmo estivesse sido construído para nos atender e que aquela mesa havia se preservada até a nossa chegada, não sendo usada anteriormente por nenhum atrevido ser. Diante de tal constatação não nos restava nada mais a fazer se não proporcionar os mais demorados prazeres para a nossa companheira, a mesa, que entre um brinde e outro foi batizada de A TÁVOLA REDONDA, que tal qual a lenda, após ferozes batalhas recebia o Rei Artur e seus valorosos cavaleiros, talvez não tanto cavalheiros, mas tudo bem. Nos prolongamos tanto em nossa árdua tarefa de proporcionar tanto prazer a nossa Távola que o tempo passou e não nos demos conta, mais isto também não importava mais, o que mais importava era o raro momento.
Finda a nossa aventura épica fomos cada qual para sua casa, felizes, saciados, satisfeitos e acima de tudo com aquele sentimento heróico de dever cumprido. Porém, foi só chegar em casa para a fantasia se desfazer e a realidade mostrar suas terríveis garras, a verdadeira batalha épica se apresentou. A mais terrível de todas as batalhas já travada por este simples mortal, que espero que o imortal Rei Artur e seus cavaleiros não tenham tido que travar, qual seja, a de explicar para a esposa a razão do atrevimento de chegar tão tarde em casa. Não pelo fato de a amada esposa ser cruel, mas simplesmente em razão da desculpa ser ridícula.
Após esta derrota descomunal, que mais tarde fiquei sabendo, também, foi sofrida pelos demais cavaleiros da nossa távola redonda, não nos restou outra saída se não a de semanalmente nos socorrermos da mesma mesa, no mesmo bar, nomeá-la novamente de Távola Redonda, nos revestirmos das honrarias de Cavaleiros, porém, com o cuidado de nomearmos um Cavaleiro de Senhor do Tempo, o homem que cuida do relógio e nos salva de termos que enfrentar novamente batalhas domésticas. Pois, já ensinava aquele grande general, as batalhas que não podem ser vencidas tem obrigatoriamente que ser evitadas.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
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