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Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.


15 de out. de 2008

Uma viagem só de chegada


Tive a grata satisfação de ser presenteado por Marcelo Steil com um exemplar desta magnífica obra, de sua autoria e que foi acertadamente batizada de “Uma viagem só de chegada” (Marcelo Steil; Edifurb/Ed. da UFSC; 149 páginas). Você pode estar se perguntando sobre o que faz alguém ter a ousadia de classificar uma obra como sendo magnífica? É um belo questionamento que tratarei de responder ao longo do texto.

Marcelo Steil fez seu mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina e da sua dissertação extraiu o material que usou para dar forma e vida ao livro, publicado em 2002. “Uma viagem só de chegada” não é um livro de turismo, muito menos um romance de aventuras. É na verdade um drama, que para se apresentar, faz uso da poesia em língua alemã produzida pelos colonizadores no Brasil, em uma apropriação muito feliz. Para poder compor seu drama Marcelo fez um profundo trabalho de pesquisa que ao ser transportado para o livro perdeu todo aquele peso e enquadramento científico tornando-se uma leitura prazerosa.

Entre aqueles que tentam definir poesia muitos falam que poesia é sentimento, é alma, é paixão. E foi isto que Marcelo garimpou entre os poetas alemães que para cá vieram. Sim, vieram! Mas, de onde saíram, por que saíram e como saíram? Perguntas, cujas respostas estão escondidas, disfarçadas no meio das letras. Respostas que para serem encontradas precisaram da habilidade de um grande garimpeiro, de paixões e emoções.

Poemas como “Velha e nova Pátria”, de Victor Shcleiff; “Teuto-brasileiro”, de Georg Knoll; “Minha casa paterna”, de Rudolf Damm; e, “Língua Materna”, de Maria Kahle, são algumas das obras que passam por um processo de dissecação literária nas mãos de Marcelo. Um processo que se vale da análise das estruturas do poema e da linguagem poética para alcançar a alma do poeta.

Marcelo se enfurnou nas poesias e conseguiu extrair uma realidade dura e até triste que os poetas alemães se esmeraram para tentar ocultar. É isto que torna o trabalho de Marcelo magnífico. Ele conseguiu romper as barreiras da sisudez germânica e penetrar nos mistérios de sua alma, buscando lá no fundo as respostas que tanto trabalho foi despendido para encobri-las. A resposta está em uma pátria deixada para trás e na busca em se construir a mesma pátria em um novo lugar. Uma pátria que precisou ser abandonada por que era fonte de sofrimento e dor, vindo daí a razão de não se partir, mas apenas se chegar. Sem dúvida algo terrível de ser admitido pelo bravo e orgulhoso povo alemão. Diferente de outros movimentos migratórios europeus que buscavam a expansão de impérios, o germânico (mas não só ele) foi uma questão de sobrevivência.

Isto fizeram aqueles migrantes, nossos antepassados, uma grande viagem, que por meio da obra de Marcelo ficamos sabendo o porquê ser ela só de chegada. A partida e o que motivou a partida ficaram rigorosamente deixados nas terras da mãe Alemanha.
Será que o objetivo de construir a mesma pátria, mas sem a dor e o sofrimento, em outras terras foi alcançado? Não era uma simples questão de apenas transferir uma parte da Alemanha para o Brasil, era uma questão de reafirmar a germanidade no paraíso. Dizem que sim, que o que os alemães construíram no Brasil não se encontra mais na Alemanha e muito menos em qualquer outro lugar do Brasil. Mas isto é outra história, que ainda está em construção e um dia vai ser contada.


Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

10 de out. de 2008

Estréia no Ninho Literário: ELES


Apreciadores do Ninho Literário

Hoje, 10/10/2008, estréia uma família no blog. É a família "ELES".

Abraços,

Paulo

6 de set. de 2008

Era uma vez...

Era uma vez, nos primórdios da humanidade, quando o ser humano, ou simplesmente bicho homem para os mais íntimos, começou a se desenvolver em comunidades.
Naquele tempo, hordas de arruaceiros e desordeiros se organizaram e espalhavam o terror por todos os cantos da terra, eram os homens maus. Para se defenderem, os homens bons, também se organizaram. Mas, os chamados homens bons, se organizaram em dois tipos de comunidades: a comunidade dos que mandavam, e a comunidade dos que eram mandados. Os que mandavam ofereceram proteção aos que eram mandados, mas em troca cobraram-lhes uma contrapartida financeira. Os que eram mandados, como sempre faziam, aceitaram. Não só aceitaram pagar pela segurança como ofereceram seus filhos para comporem um sub grupo que seria encarregado da tal segurança. Estes encarregados da segurança não chegaram o formar um novo grupo, ficaram vagando no limbo entre um e outro, por isso foram tratados de sub grupo, tanto pelo grupo dos que mandavam, como pelo grupo dos que eram mandados, e sendo assim passaram a não se identificar com nenhum deles. Quando iam prestar segurança ao grupo dos mandados, não se identificavam com estes, pois estavam cumprindo ordens do grupo dos que mandavam. Quando estavam com o grupo dos que mandavam não eram identificados por aqueles, pois não mandavam, apenas executam o que lhes era mandado. Este sub grupo ficou conhecido como aqueles do limbo. E, assim foi evoluindo a humanidade.
Com o passar dos tempos, o grupo dos que mandavam passou a usar o sub grupo do limbo para sua própria segurança e abandonaram o grupo dos que eram mandados a sua própria sorte. Vendo isso, o grupo dos homens maus se aproveitou e tomou o grupo dos que eram mandados. O grupo dos homens maus gostou tanto da nova situação, da nova ordem, que viu que poderia substituir o grupo dos que mandavam e se tornar um novo grupo, o grupo dos homens maus que mandavam. Mas para angariar o apoio do grupo dos que eram mandados, resolveram que eles, os homens maus que mandavam, iriam dar proteção ao grupo dos homens que eram mandados. Como o grupo dos que eram mandados já estavam acostumados a serem mandados e tinham sido abandonados pelo grupo dos homens que mandavam, aceitaram, mesmo sem saber contra quem era essa proteção. Mas, fazer o que, se eles sempre foram mandados.
Não se dando por satisfeito, o grupo dos que mandavam, para mostrar que continuavam mandando, vez por outra, mandavam que o sub grupo do limbo fizesse incursões contra os homens maus que agora mandavam. Mas como os homens maus que agora mandavam estavam misturados com os homens que eram mandados, era comum o sub grupo do limbo atingir os homens que eram mandados, e estes passaram a se revoltar contra o grupo dos que mandavam e seu sub grupo do limbo.
O grupo dos homens maus que agora mandavam entendeu que como o sub grupo do limbo era usado sem respeito pelo grupo dos que mandavam, poderiam, através de uma compensação financeira, angariar homens do sub grupo do limbo para seu lado. E assim, o grupo dos que eram mandados se viu diante de uma situação difícil. Todos mandavam neles e todos cobravam deles e o sub grupo do limbo não mais lhes dava proteção.
Vendo a aflição dos integrantes do grupo dos que eram mandados, alguns do sub grupo limbo resolveram agir por conta própria, e ganhar “um” por fora. Formaram um outro tipo de organização que ficou conhecida por todos como aqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer e ofereceram segurança ao grupo dos que eram mandados, contra o grupo dos homens maus que agora mandavam. Na esperança de terem sua tranqüilidade de volta, aceitaram. Assim o grupo dos que eram mandados agora pagava ao grupo dos que mandavam, ao grupo dos homens maus que agora mandavam e àqueles que fazem o que não fazem os que deveriam fazer. Pagavam cada vez e tinham cada vez menos.
Para não perder o poder, o grupo dos que mandavam, e que eram homens bons, mandaram outra organização para defender os que eram mandados. Essa organização era especial, tinha mais equipamentos, mais armamentos e eram treinados para defender a todos contra agressões do que se chamou de agressões externas, e ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo.
Quando soube disso, o grupo dos que eram mandados ficou muito contente, pois agora iria ter a sua tranqüilidade, aquela que fazia tanto tempo que havia perdido, pois é, ela seria trazida de volta. Pelo serviço dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, o grupo dos que eram mandados não precisaria pagar mais nada, era tudo tão maravilhoso. Finalmente eles poderiam dizer que todos seriam felizes para sempre.
Mas, não foi bem assim. Num determinado dia, um grupo dos que eram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, vendo que não podia nada e não fazia nada, pegou alguns integrantes do grupo dos que eram mandados e entregou para o grupo dos homens maus que agora mandavam. Já que eles eram homens maus, mesmo agora mandando, eles mataram estes integrantes do grupo dos que eram mandados e jogaram seus corpos no lixo, como a dizer que lá era o lugar daqueles que faziam parte do grupo dos que eram mandados.
Assim se instalou uma crise geral. Para resolvê-la, o grupo dos que mandavam, já que mandavam, mandou o chefe maior daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada para conversar com o grupo dos que eram mandados. Assim se fez, mas não sem antes encherem o lugar em que habitava o grupo dos que eram mandados, de integrantes daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, de seus equipamentos e seus armamentos. Fizeram isso, não para proteger o grupo dos que eram mandados, mas para proteger o chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada. Ele iria dar uma resposta ao grupo dos que eram mandados. Quando lá chegou, o chefe foi indagado por uma daquelas que era integrante do grupo dos que eram mandados, sobre a morte de um de seus integrantes, seu ente querido. O chefe daqueles que ficaram conhecidos como aqueles que fazem tudo e podem tudo, mas que agora sabiam que não podiam nada e não faziam nada, disse: morte! Pois é, morreram, mas eu estou aqui, e vim aqui para isso: para pedir desculpas!
A narrativa acima faz parte de um grupo de pergaminhos deixado por uma civilização extinta. O lugar e as condições em que os pergaminhos foram encontrados são mantidos em segredo, bem como o seu conteúdo. Comentários dão conta de que nos pergaminhos está escrito de que forma essa civilização foi extinta, por isso tanto segredo. Nem mesmo a narrativa acima deveria ter sido publicada, mas um amigo do primo do cunhado do irmão do tio de uma pessoa que é muito ligado ao colega do namorado de um amigo meu, conseguiu uma cópia e me mandou. Havia ainda uma informação sobre o local onde tudo isso ocorreu. Estava escrito que era um lugar lindo, com uma maravilhosa baía e alguns morros esplendorosos, e que para saudar os visitantes o grupo dos que mandavam fez construir uma estátua que de braços abertos dava boas vindas aos visitantes. Falam ainda que existem esforços no sentido de identificar essa civilização perdida, sua época e o local em que viveram. Outros dizem que tudo não passa de lenda, fruto da imaginação de alguém. Quem sabe? Só o futuro dirá!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta

A primeira vez

Temos um fascínio pela primeira vez. Em tudo a primeira vez é marcante. Dizem os românticos, que é pela entrega. Já os mais realistas, afirmam que é por que é ruim mesmo. Na primeira vez falta tudo, falta experiência (por isso é a primeira), falta compreensão e falta muita coisa. Por outro lado, sobra tudo, sobra nervosismo, sobre medo, receios e sobre muita coisa. Quem consegue esquecer da primeira vez que andou de montanha russa? Da primeira pescaria? Do primeiro dia de aula?
Para alguns sua primeira vez vem cedo, outros tem que esperar. Essa espera pode estar relacionada com o amadurecimento que é necessário e para muitos pode demorar mais que o normal. Outros vão postergando sua primeira vez por puro medo, por vergonha. E quanto mais o tempo passa, pior fica. O medo do fracasso vai tomando conta. O desespero de expor sua falta de jeito, de não saber como lidar com os detalhes, que já não são tão detalhes assim, pois podem representar a diferença entre o sucesso e o fracasso. Ter de se expor assim em sua intimidade para alguém é algo assustador, e quanto mais o tempo passa mais vai potencializando as angustias e como que entrando em um circulo vicioso, vai afastando do grande momento.
Mas se não acontecer, não é a primeira vez, por isso todos passamos por ela. É como um rito de passagem, a vida se divide entre o antes e o depois da primeira vez. Os iniciados formam um grupo invejado.
Foi em meio a todas essas interrogações que de repente me vi no limiar de minha primeira vez. Foi dificílimo e só me rendi após vários apelos de uma colega de mestrado. Várias vezes ela me disse: vai experimenta! Você vai gostar! É bom! Expande nossas fronteiras! Permite-nos interagir melhor com os amigos! E eu pensava comigo, isso é fácil pra ela, que já está acostumada e é bem mais jovem que eu. Mas e eu? Já passei dos 40, será que ainda existe esperança para mim?
Após muito refletir, tomei a decisão, eu faria! Mas, me impus uma condição, tinha que ser com ela, com a minha amiga do mestrado e teria de pega-la de surpresa, para não dar chances de um arrependimento, por parte dela é lógico. Não, não, não, não poderia ser com qualquer um, melhor com qualquer uma. Já que era para ser minha iniciação, teria de ser com alguém com experiência e acima de tudo, uma pessoa em quem eu confiava.
Preparei-me. Cumpri todo um ritual de preliminares, mas mesmo assim foi tumultuado. Não por culpa dela, nem minha, mas toda hora tinham outras pessoas que atrapalhavam e a gente não conseguia entrar em sintonia. Era um tal de espera ai, já volto, pronto, podemos recomeçar, espera ai (de novo), agora vai (pela vigésima vez), onde foi mesmo que paramos? Pra mim, foi um pouco ríspido, com todas essas interrupções. Como me atrapalharam, cheguei em certos momentos a achar que estava acima das minhas capacidades e que deveria desistir de tudo, me recolher a minha insignificância, desistir. O pior era ter que recomeçar tudo novamente, não dava para simplesmente seguir de onde paramos, pelo menos para mim, tinha que voltar um pouco e recomeçar. Confesso que foi estafante, em certos momentos beirava o desespero. Foram interrupções de mais de 10 minutos, e eu ali, parado, só podendo me contentar em meramente ser um espectador, nada de interação, ficava literalmente na mão.
Mas valeu a pena, como ela foi maravilhosa, como me conduziu com paciência (nos momentos certos), com maestria desvendava cada segredo, pelo menos para mim era segredo. Ensinava-me e demonstrava cada movimento. Revelou grande fluência, típica daqueles que tem muita experiência. De minha parte, ficava extasiado com cada nova descoberta, e quando eu pensei que havia acabado ele placidamente me provocou – fica melhor quando chamarmos mais amigos, em grupo também é bom, pode ser até melhor, dependo do grupo. Para mim aquilo soou como um desafio. Eu mal havia sido iniciado e já estava pronto para novas emoções. Então ta certo, a próxima vez vai ser em grupo.
Pois é, foi assim aos 42 anos de idade que tive minha primeira experiência, fui apresentado aos prazeres e desafios do MSN, o famoso programa de conversa on line. Como é bom esse tal de MSN. Viva o MSN!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

A Távola Redonda

Meus amigos e eu gostamos de encerrar nossa reuniões semanais em torno de uma mesa de bar. Nem tanto pelos acepipes que procuramos devorar vorazmente, mas sim pelo momento de relaxamento e descontração que nos proporciona. Dia destes em razão de termos prolongado a reunião, chegamos em nosso refugio e deparamos com o mesmo com suas portas cerradas. Decepção total nos rostos de todos nós. Por alguma razão, que a razão desconhece, havia sido quebrada nossa rotina. Mas não nos damos por vencidos. Não seria a má vontade de um dono de estabelecimento gastronômico, agora elevado a condição de simples dono de boteco - percebam a velocidade com que mudam nossos conceitos com relação às pessoas quando somos contrariados - que nos levaria para a lona.
Rapidamente em nosso grupo surgiram vozes de protesto, se formando uma linda cena, com alguns respeitáveis senhores parados em frente a um boteco, fechado, erguendo seus punhos ao ar em um honrado brado de protesto. Mais rápido ainda surgiu uma solução para o impasse, vamos para outro lugar. Sem o menor pudor e cheios de razão, nos propomos a buscar refugio em outro lugar que nos recebesse. Nos comportamos como aquela “pura donzela”, que quando pronta a se entregar de corpo e alma ao seu amante, encontra este indisposto ou por qualquer razão indisponível, e para honrar sua libido sai à procura do primeiro que lhe satisfaça e a este se entrega deliciosamente, sem o menor remorso. Saímos em carreata percorrendo as vazias ruas da cidade procurando por uma ínfima luz que denunciasse a disponibilidade daquele que seria nosso novo refugio.
Enquanto nos deslocávamos fiquei observando aquela fila de carros, cada qual ocupado por uma única e revoltada alma, mas que agia como se fosso é só organismo vivo. Parava, andava, mudava de direção em uma linda harmonia. Devido ao adiantado da hora éramos praticamente os únicos a ocupar as ruas naquele momento, de modo que nada nos importunou em nossa verdadeira caçada. Alguém que pudesse ver a harmonia daqueles cavaleiros errantes certamente ficaria surpreso, até mesmo assustado com tal espetáculo. Para nossa satisfação encontramos aquilo que procurávamos, não um simples boteco, mais um lindo e maravilhoso estabelecimento gastronômico, onde pudemos não só saciar nossa fome e dividir nossas alegrias, mas acima de tudo executar nossa vingança.
Ainda não sei se a nossa alegria se deu em razão da qualidade do ambiente e do tamanho da fome, que eu pude constatar mais uma vez que progride geometricamente, ou pela oportunidade ímpar, que com toda a certeza nunca mais iria se repetir de vingarmos nossa honra. Aumentando a nossa alegria nos deparamos com uma enorme mesa redonda, local propício para o deleite (fique a vontade para usar sua imaginação). Já perceberam que em um restaurante as mesas no formato redondo são as que recebem os clientes mais felizes, é só aferir o nível de ruídos que vem destas mesas.
Após cada qual tomar o seu lugar e de sermos servidos da mais deliciosa das cervejas, enquanto os pedidos ainda eram preparados, já nos sentíamos donos daquele local, como se o mesmo estivesse sido construído para nos atender e que aquela mesa havia se preservada até a nossa chegada, não sendo usada anteriormente por nenhum atrevido ser. Diante de tal constatação não nos restava nada mais a fazer se não proporcionar os mais demorados prazeres para a nossa companheira, a mesa, que entre um brinde e outro foi batizada de A TÁVOLA REDONDA, que tal qual a lenda, após ferozes batalhas recebia o Rei Artur e seus valorosos cavaleiros, talvez não tanto cavalheiros, mas tudo bem. Nos prolongamos tanto em nossa árdua tarefa de proporcionar tanto prazer a nossa Távola que o tempo passou e não nos demos conta, mais isto também não importava mais, o que mais importava era o raro momento.
Finda a nossa aventura épica fomos cada qual para sua casa, felizes, saciados, satisfeitos e acima de tudo com aquele sentimento heróico de dever cumprido. Porém, foi só chegar em casa para a fantasia se desfazer e a realidade mostrar suas terríveis garras, a verdadeira batalha épica se apresentou. A mais terrível de todas as batalhas já travada por este simples mortal, que espero que o imortal Rei Artur e seus cavaleiros não tenham tido que travar, qual seja, a de explicar para a esposa a razão do atrevimento de chegar tão tarde em casa. Não pelo fato de a amada esposa ser cruel, mas simplesmente em razão da desculpa ser ridícula.
Após esta derrota descomunal, que mais tarde fiquei sabendo, também, foi sofrida pelos demais cavaleiros da nossa távola redonda, não nos restou outra saída se não a de semanalmente nos socorrermos da mesma mesa, no mesmo bar, nomeá-la novamente de Távola Redonda, nos revestirmos das honrarias de Cavaleiros, porém, com o cuidado de nomearmos um Cavaleiro de Senhor do Tempo, o homem que cuida do relógio e nos salva de termos que enfrentar novamente batalhas domésticas. Pois, já ensinava aquele grande general, as batalhas que não podem ser vencidas tem obrigatoriamente que ser evitadas.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

5 de set. de 2008

As meninas de saia curta

Sábado, compromisso marcado, aula o dia todo. O módulo era nada mais nada menos que comércio eletrônico. Na cidade mais um Stammitisch rolava solto. Muita comida e bebida deixadas de lado em nome do saber. Confesso que foi uma luta hercúlea até tomar a decisão de ir para a pós-graduação. Lá, no Stammitisch, eu sabia o que iria encontrar. Na sala de aula, por razoes obvias, existia apenas uma expectativa, que eu deixo para os leitores tentarem adivinhar se era boa ou não.
Aula começada sentei no centro do “U”, como sempre faço. Aqui cabe uma explicação, na pós as mesas são organizadas em “U”, talvez para um aluno não sentar na frente do outro, quem sabe é uma tentativa de nivelar a todos, não sei! Mas isto não tem a mínima importância. O que importa é que entraram duas, digamos assim, beldades, para ser um pouco educado. As duas tinham algo mais em comum, além do corpo escultural e os cabelos escuros, lisos e de mesmo comprimento. Era a roupa, iguais, blusa rosa e saia jeans. Formavam uma bela dupla, que pude notar mexeu intensamente com a imaginação fértil do clube masculino. Fato comprovado com as mexidas na cadeira e alguns sorrisos de canto de boca que se manifestaram. Pintou aquela cumplicidade em que não é preciso falar nada, mas todos se entendem.
O acaso de mulheres se vestirem iguais é odiado por elas. Para nós, do clube masculino, é até engraçado, ou melhor, vai alem do engraçado e caminha despudoradamente pela nossa, já citada, imaginação fértil do clube masculino. As blusas até que eram bonitinhas, uma era tomara que caia, mas resistiu bravamente durante todo o dia e não caiu. A outra era de alcinhas, que também não arrebentaram. A mentalidade masculina é de uma fertilidade a toda prova. Acontece que as blusas se tornaram peças de menor importância diante das saias jeans.Que saias! Minha querida esposa que me desculpe, mas um pretenso escritor, quando põem suas idéias no papel tem que ser fiel apenas a sua obra. Esta liberado para ser levemente, um pouco, quase canalha. As saias eram curtíssimas, deixando a mostra dois belos pares de coxas.
Alguns dos representantes do clube masculino, os mais afoitos, ou talvez os mais desesperados, foram mais além do que observar apenas o que as saias permitiam, ou pelo menos tentaram. Para piorar as coisas, talvez na tentativa vã de fugir da situação, uma sentou-se à direita do “U” e a outra à esquerda, ambas voltadas para o centro, onde se encontrava este quase desesperado cronista. A minha frente se encontrava o professor, que não teve a menor chance na disputa pela atenção da turma, pelo menos a do clube masculino. Até o computador se recusou a trabalhar direito. Assim seguiu a aula, até o seu encerramento.
De minha parte, me esforcei para manter ao máximo a linha. Lutei com todas as forças para manter equilibrada a frágil balança masculina, que de um lado sustenta o homem canalha e do outro o homem cavalheiro. Pobre balança. Nada contra o professor, mas era impossível manter o olhar e a atenção nele, quando desviava meu olhar, quer seja para a direita ou para a esquerda, não tinha jeito, lá estavam elas, as pernocas. Fazer o que? Diante de tamanha angustia restou apenas uma certeza, foi umas das melhores aulas de todo o curso. Mas, como tudo o que é bom acaba, as aulas terminaram e as meninas se foram. Eu fiquei com uma certeza, não foi para mim que aquela dupla se arrumou. Mas minha fértil imaginação masculina não deixou de imaginar que bem poderia ser que aquela dupla após a aula fosse se apresentar lá em casa. Coitada da balança masculina, quebrou de vez!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

Espírito de Natal

O Natal é um misto de alegria e angustia. Inúmeros psicólogos já estudaram e publicaram muitos materiais sobre esta ambigüidade que o Natal representa. Ninguém escapa, é uma mistura de alegria e estresse (pelo menos das compras). Particularmente eu detesto esta coisa toda de compras e da obrigação de dar presentes, mas não tem como evitar, e todo ano se repete a mesma angustia. Acho que a alegria só vem mesmo quando tudo acaba. Pois bem, depois de todos os presentes comprados, minha esposa me intimou para irmos ao supermercado, em pleno 23 de dezembro.
De cara já pressenti que seria uma “maravilha”, o estacionamento estava lotado. Era só o começo! Agarrado a um carrinho começamos a árdua tarefa de tentar nos deslocarmos entre os corredores e gôndolas. Tive a impressão de que encontrei pessoas que nunca foram a um supermercado. Pessoas que achavam que estavam sozinhos, paravam os seus malditos carrinhos no meio do corredor, atrapalhando a tudo e a todos. Com muito custo e um esforço sobrenatural para manter a calma consegui chegar ao fim de uma odiosa lista de compras preparada pela digníssima esposa, que naquela altura eu já a estava classificando como meu verdugo particular.
Terminada a primeira parte da tortura, o preâmbulo, agora sim é que o inferno se materializou, tínhamos que encontrar um caixa. Ou melhor, havia uma profusão de caixas, o difícil era escolher o menos carregado. Eis, que vislumbrei um em que havia uma senhora com uma cestinha, pela lógica era o que deveria ser o mais rápido. A alegria começou a tomar conta de mim. Posicionei-me na fila, atrás daquela senhora e fique observando o movimento, rezando para que o tempo passasse rapidamente, mas que nada. Tive a nítida impressão que assim como nos engarrafamentos do trânsito, a minha fila era a que andava mais devagar. De repente se aproxima um ser meio disforme, com cara de duende, carregando uma cestinha abarrotada de compras, e sem cerimônia alguma furou a fila na minha frente se juntando aquela horrível senhora, que agora observando bem, tinha cara de bruxa malvada.
Quando iria interpelar aquele duende mal acabado e muito mal educado, minha esposa, que me conhece muito bem, me pegou pelo braço e sorrindo me disse, olha o espírito de Natal. Engoli em seco e deixei passar. Era esperar demais achar que uma bruxa malvada pudesse ensinar bons modos para um duende mau acabado. Eu deveria estar delirando, talvez eu estivesse entrando em um estado febril, como se meu corpo rejeitasse todo aquele estado em que eu havia me envolvido. Louco de raiva comecei a procurar algo que me distraísse, pois não poderia permitir que aquela família monstro me tirasse do sério.
Ao olhar para a esquerda tive uma magnífica visão. Era loira, cabelos longos, olhos verdes, seios fartos e mais tarde, quando ela passava no caixa pude perceber que aquela parte do corpo que é conhecida como a preferência nacional, nela era maravilhosa. Tentei disfarçar para minha esposa não notar. Até por que eu sempre fui um cavalheiro, e minha esposa sempre soube que para mim, apreciar o que natureza tem de belo, nada mais é do que isto mesmo, um efêmero exercício de observação e nada mais.Só que não custa nada evitar aborrecimentos.
Comecei a acreditar que o tal Papai Noel até que poderia existir, e que não custava nada fazer um pedido pra ele. No estacionamento comentei da beleza da loira, e minha digníssima sentenciou, é silicone! Tudo bem, não era tudo tão natural assim, mas no conjunto até que funcionava bem. Atrevi-me um pouco mais e comentei dos outros predicados, para saber se era silicone também. Será que estavam fazendo isto com a preferência nacional? Mas minha esposa me tranqüilizou afirmando que os glúteos da jovem eram naturais. Melhor assim. Aquela noite dormi com um leve sorriso nos lábios, e fiz um pedido pro velho Noel. Agora que estou acreditando nele, não posso perder a oportunidade, espero que ele me atenda e que eu possa saborear na noite de natal uma bela caixa de bombons. Isto é que é Espírito de Natal.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

O Brasil vai invadir os Estados Unidos

Não sou especialista em política internacional, alias não entendo nada deste assunto, mas algumas noticias vindas de Brasília (BSB) me levam a acreditar piamente que o Brasil esta preparando um ataque contra as terras do Tio Sam. O Presidente comprou um avião novo e o mesmo será batizado como Santos Dumont. Tenho lido e ouvido muitos debates sobre a necessidade e até sobre a oportunidade da compra de tal aparelho. Não dou bola para estas questões, até deveria, pois faço parte da massa que vai pagar a conta, mas tudo bem. O que me chamou a atenção no “SD”, como estou ajudando a pagar a conta, me sinto intimo do aparelho e, portanto para mim ele é apenas SD. Voltamos ao que me chamou a atenção, e foram duas características. Não foi o fato do presidente ter que diminuir a sua comitiva de agora em diante, já que o SD só pode levar no máximo 55 pessoas, abrindo mão de grande parte do séqüito que costuma o acompanhar. O que me chamou de verdade a atenção foi o sistema antimíssil e o sistema de comunicações que podem torna-lo em centro de comando, em caso de guerra.
Mas não é o SD isoladamente, ele chega acompanhado de outras noticias, que juntas formam um cenário perigosíssimo para os lados do Tio Sam. O Inglês foi abolido como língua de domínio necessário para ingressar no Instituto Barão do Rio Branco. O nosso Ministro das Relações Exteriores em recente pronunciamento internacional utilizou o idioma da terra de Dom Quixote, ignorando solenemente o de Shakespeare. Se for assim, por que não o faz no nosso bom português homenageando Camões e Saramago? Outros sinais estão vindo de BSB. O Brasil tem se afastado do grande satã do norte e procurado liderar os mais pobres, do que nós. Falar em ALCA e aproximação com os do lado de cima de equador tem dado urticária nos gabinetes governamentais de BSB.
Eu me recolho na minha insignificância e fico tentando imaginar onde tudo isto pode nos levar e de repente me veio na lembrança um filme que assisti quando criança. Uma comédia meio pastelão denominada de O RATO QUE RUGE. Não lembro bem do filme, mas lembro que era uma monarquia, onde os mandatários para saírem da pindaíba enviaram uma declaração de guerra ao Tio Sam. A lógica era simples, entrar em guerra com a superpotência e perder, assim como houve com os vencidos na Segunda Guerra Mundial, os vencedores aplicariam um plano de desenvolvimento e o tal pais administrado por pseudogovernantes sairia bem da empreitada.
Acontece que nas terras do Tio Sam, o burocrata de plantão que recebeu a ameaça, simplesmente a ignorou e não restou outra saída, e o USA teve de ser invadido. Não é que o incompetente do GENERAL encarregado de invadir as terras do “Uncle” foi lá e venceu, pois roubou uma bomba atômica. A situação toda era muito cômica. Bem semelhante ao que vemos vindo de BSB. Pelo andar da carruagem, logo teremos um novo rato que vai rugir e vai rugir muito alto. Te cuida “Uncle Sam”, pois reizinhos e incompetentes BSB esta cheia. Tanto que não perdoaram nem o nosso pai da aviação. Santos Dumont não merecia isto!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta

O Celular

A vida moderna nos proporciona uma gama muito grande de comodidades, disto ninguém dúvida. Alias, esta afirmação tem sido feita tantas vezes e por tantos, que não é mais novidade nenhuma. Mas, existe um algo a mais nestas novidades, que é um mundo paralelo que orbita ao seu redor. Um fato interessante aconteceu dia destes no aeroporto internacional de Porto Alegre, quando eu e um grupo de amigos aguardávamos o nosso vôo para Buenos Aires. Sentados na praça de alimentação, tomando o chopp nosso de cada dia, nos chamou a atenção uma jovem ao celular. Não exatamente o fato de ela estar falando ao celular, tampouco sua beleza, pois a mesma era desprovida destes predicados, o que nos chamou a atenção era como ela falava ao celular, e como falava.
Destoante de todos os infelizes que se vêem obrigados a fazer sua refeição em uma praça de alimentação de aeroporto, a nossa donzela falante permanecia em pé, tal qual o bom soldado que só se dirige ao seu general nessa posição, a mesma talvez tentasse mostrar um respeito descabido ao minúsculo aparelho. Não apenas de pé, mas durante todos os mais de 40 minutos que durou a conversa, a nossa donzela tagarelante se movimentava constantemente interagindo com os objetos do ambiente. Não escapou nem uma coitada palmeira, que solitariamente tentava dar vida àquele ambiente de granito e aço. Pela vontade com que suas folhas eram fustigadas, conclui que se trata de exemplar natural de nossa agonizante floresta tropical, até porque ninguém perde seu tempo fustigando um pedaço de plástico, mesmo que este esteja fantasiado de palmeira. Durante 40 minutos nossa personagem central fez a alegria da operadora de telefonia móvel e foi o deleite de nossa fértil imaginação.
A questão central, de nossa conversa, girou em torno do seguinte ponto, o que leva alguém a doar 40 minutos de sua efêmera existência para uma conversa ao celular. A partir desta curiosidade, quase mórbida, e sob os primeiros efeitos do feitiço de Baco, deixamos nossa imaginação fluir, despudoradamente alçar vôos. Vôos altos e longínquos e ao mesmo tempo profundos e cruéis. Eu e meus colegas, melhor seria chamá-los de comparsas, não poupamos a pobre donzela de pulmões de aço. Fomos terríveis ao usá-la para saciar nossa mordaz imaginação. A pobre nem imagina que foi personagem central do enredo de inúmeras aventuras.
Deixando nossa imaginação fluir livremente nossa vítima mor foi personagem central de aventuras, dramas existências, terrorismo internacional, espionagem, amor, traição, sexo, muito sexo e tantas outras aventuras e desventuras. Passava de heroína a mais terrível vilã, de idolatrada esposa a mais despudorada messalina, em frações de segundo. Felizmente para ela, não era possível sentir em suas costas as lancinantes chicotadas de nossa ferina língua. Mas, como tudo que é bom sempre acaba, com um simples toque a conversa chegou a seu final, nossa heroína/vilã sentou-se e perdemos o interesse por ela, que agora voltava à condição de simples mortal, e para nós ficou o mais terrível de tudo, a danada nem se deu conta de nossa presença, quanta decepção!

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Esta crônica foi premiada no 1º Concurso Talentos

O desafio - Minhas aventuras no arvorismo

Tornar uma aula de sábado, em dezembro, agradável constitui-se em si, um grande desafio. Desafio para nós alunos, que tivemos um ano atribulado e como presente de Papai Noel (sádico), somos brindados com aulas em três sábados no mês de dezembro. Após todas as revoltas de praxe, estávamos, todos, no primeiro sábado para recepcionar o novo Professor. Feitas as civilizadas apresentações, recebemos dele uma interessante proposta, que era a de executarmos o que alguns chamam de esportes radicais.
O desafio era a turma se dirigir até o parque Unipraias para a prática de ARVORISMO. E não é que o pessoal aceitou! Bateu o terror, de imediato o desespero tomou conta de mim. O que este pessoal estava fazendo? Eu paguei para fazer um curso dentro da sala de aula, com ar condicionado, “cofee braeck” e tendo como companhia os livros, entre outras mordomias, e nada mais. Traidores! Eu sou um aluno de MBA e não um macaco para andar pendurado em árvores. Senti que estavam todos contra mim. Com toda a certeza não estava nos meus planos andar pendurado em árvores ou qualquer outra coisa do gênero. Alias, eu já tinha feito tudo isto, muito antes destas atividades serem classificadas como esportes radicais. Em segundos recuperei lembranças que havia feito questão de esquecer. Em um instantâneo “flashback” recuperei meus tempos de Aluno Oficial na Academia, quando uma vez por ano realizávamos os chamados “treinamentos na selva”. Meu desafio agora era outro, como fugir desta armadilha? De repente uma luz. Um aluno sacou de seu pé e sentenciou, eu não posso! Quebrei meu pé e ele ainda não esta recuperado. A salvação se vislumbrava, um alento de felicidade tomou conta de mim. Quem sabe todos os alunos também tinham quebrado um pé, ou um braço e ninguém poderia ir. Triste ilusão, nada, ninguém se manifestava. Não teve jeito.
Dia marcado e lá estava eu, 20 anos depois, me encontrava diante, novamente, de uma mancha de mata atlântica que sobreviveu ao homem, odiei por uns instantes os ambientalistas, não se ofendam, foi só por uns míseros instantes. O primeiro desafio foi encontrar um capacete que tivesse o tamanho proporcional ao diâmetro de minha caixa craniana, resumindo que fosse grande o suficiente. Desafio vencido, de repente me vi todo equipado e pronto para encarar a copa das árvores. Éramos orientados e guiados por uma trupe de seres disformes e inominados, que se esforçavam em parecer alegres. Tratavam-se por codinomes estranhos, que devido a um forte bloqueio emocional Harry Potter é o único que eu consigo me lembrar. Tentavam nos incutir que seria tão fácil quanto caminhar no parque (mas nem isto eu faço). Que tudo era seguro. Realmente a segurança foi o ponto alto. Só que algo dentro de mim insistia em dizer que não era bem assim, que não deveria confiar em seres que não se tratam pelo próprio nome.
Entre as explicações de segurança fomos apresentados a uma tal corda sorriso, que recebeu este nome em razão de sua forma. Fiquei por alguns segundos olhando a tal corda sorriso, e ela olhando para mim. Pude então perceber que o seu sorriso era um deboche, uma provocação, um sarcasmo, um verdadeiro acinte. A cada etapa vencida eu tinha que me prender a tal corda sorriso e a mediada que eu ia progredindo o seu deboche só aumentava. Iniciado o processo de tortura, concentração a toda, venci rapidamente os primeiros obstáculos. A empolgação começou a tomar conta mim. De repente eu poderia vencer a tudo e a todos, disto eu tinha certeza. O que viesse pela frente seria rapidamente derrotado, eu simplesmente passaria por cima. Eis que então sou tirado daquele estado letárgico por uma voz feminina, “Capitão, Oh Capitão, olha que belezinha, fecha as pernas Capitão”. Fui jogado de volta para a realidade. A casa caiu! E agora? Voltar não dava mais. Aquele não era o meu ambiente, eu não fazia parte daquilo.
Olhei para o percurso que faltava e desanimei. O desespero novamente se apresentou e senti que ele seria o meu companheiro até o fim daquele suplicio, junto com a aquela adorável voz feminina. Quem disse que quando o estupro é inevitável, relaxa e goza, é porque nunca foi estuprado, disto, agora eu tenho certeza! Fui levando aos trancos e barrancos e torcendo para que acabasse logo, mas não acabava. Vencido um obstáculo já se apresentava outro. Em certos momentos a situação ficou crítica, beirava ao ridículo. O riso sem graça que tentava despistar o nervosismo já não funcionava mais. De repente, não mais que de repente, lá estava ela, a tirolesa, o último obstáculo e estava tudo acabado. Vislumbrei minha salvação, a felicidade suprema.
Quando cheguei na plataforma o que eu vejo? Além do sorriso idiota da tal corda sorriso, me deparei com o pior de todos os pesadelos. Sentados como que em um teatro, estava a platéia formada pelos meus colegas de aventura, todos aguardando o “gran finale” do Capitão. Não teve jeito, rapidamente, depois de umas oito ou nove tentativas, e algumas ameaças do instrutor, me lancei ao espaço, preso pelos equipamentos de segurança é lógico, e me preparei para a aterrissagem, que ocorreu sem traumas.
Estava acabado! Eu havia vencido, eu era um herói. Ninguém deu bola! Eu havia sobrevivido, passei incólume, pelo menos fisicamente, já que moralmente a recuperação foi um processo mais lento. Agora que tudo esta acabado até que foi divertido, e já estou com saudades, ou melhor, estou é sentindo falta. Acho que nasci para os esportes radicais. Corre nas minhas veias um espírito aventureiro que eu desconhecia. Já me vejo em outras aventuras, tais como “sky diver”, “base-jump”, “snowboard” e muitas outras um pouco mais radicais. Vencidos os primeiros desafios, que venham os outros. No momento luto bravamente para vencer mais um deles aqui em frente ao computador, enquanto digito este texto. Como ressaca da prática radical fiquei com o meu corpo, sedentário, todo doído, se constituindo em feroz batalha digitar qualquer coisa. Pensando bem, acho que vou colocar meu espírito aventureiro em repouso, é mais saudável.

Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta