Um amigo me contou que em sua aldeia, os pais, para assustarem as crianças, contavam a história de um mundo assombrado. A história orbitava em torno do eterno combate entre o bem e o mal, as forças da luz contra as das trevas, como em toda cultura. Mas naquela aldeia eles encontraram uma forma mais assustadora, ainda, de dar vida ao tema. Vamos a ela.
Cai a noite. As criaturas nefastas, ligadas ao maligno, se reúnem. A cidade calma prepara-se para mais uma noite tranqüila de descanso. Mas as pessoas não sabem o que as espera. Não passa pela cabeça, do mais simplório ao mais audaz dos chefes de família, e das demais pessoas que trabalharam e trabalham diariamente para ganhar seu sustento, o que está por vir. As famílias já estão reunidas, muitos já fizeram sua refeição noturna e estão se retirando para o repouso após um árduo dia na labuta. Labuta esta que irá proporcionar-lhes, ao final do mês, uma retribuição financeira para que o seu sustento esteja garantido por mais um mês, para os mais afortunados, ou pelo período que der, para a grande parte deles. A ampla maioria procura formas de aumentar esta retribuição financeira para terem um pouco mais de dignidade. Uns se entregam a mais horas de trabalho na mesma atividade, outros buscam uma segunda atividade, porém, tudo dentro de uma dignidade. Mas as criaturas nefastas não. Estas buscam formas menos dignas, na verdade, totalmente indignas para verem aumentada sua participação no quinhão. Obviamente, sem aumentarem o tempo que deveriam dedicar-se à sagrada arte do trabalho. O quinhão, disse esse meu amigo, era o que os aldeões eram obrigados a pagar às criaturas. E que as criaturas eram um pequeno grupo de aldeões que estavam a serviço do lado negro da força.
Tudo estava preparado, seria naquele dia e na calada da noite. As criaturas da noite começam a chegar. Para não chamarem muito a atenção, reúnem-se, quase que em segredo e tramam o pior. Algumas destas criaturas se assustam com a vilania da maldade que lhes é apresentada, temem pela forma como os da aldeia, que deveriam representar, irão receber a notícia. Outros, sem se importarem, sem darem a mínima para os aldeões, seguem em frente com seu intento e tratam de convencer os demais a aceitarem.
O tempo vai passando e quando as trevas da noite lançam suas sombras sobre o casario do belo vale, o castelo, agora transformado em covil, entra em ebulição. É um frenesi, algo semelhante ao de um cardume de piranhas quando estão a devorar sua presa. Outros, pelo movimento que fazem, lembram mais o giro da morte executado pelos jacarés quando arrancam grandes nacos de suas presas. Há, ainda, os que lembram mais o ritual de crueldade perpetrado pelo grande tubarão branco, que de posse de sua vítima brinca com ela antes de devorá-la. Para os mais criativos, ou nem tanto, o espetáculo lembrava mais aquele que minúsculos seres alados, conhecidos como moscas, estabelecem quando se banqueteiam em fedorentos exemplares de material orgânico em decomposição, conhecidos como bolo fecal.
Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir garantem que foi um espetáculo dantesco, triste mesmo. Chegaram a compará-lo com as cenas degradantes que tomam lugar quando populações em situação famélica se atiram contra qualquer coisa que possa lhes encher o bucho e aplacar um pouco sua fome. E vão mais longe ao afirmar que tão grotesca era a cena, que levaria às lágrimas aqueles de estômago mais sensível.
Tudo pronto, tudo preparado, as artimanhas funcionaram como nunca, os sortilégios do lado negro da força mostraram todo o esplendor de sua força e o golpe fulminante foi lançado contra a dignidade de todo um povoado. Quando os primeiros raios do sol fizeram repousar as trevas da noite, o mal, através dos maus, triunfara. Os senhores vis, as criaturas nefastas, que na verdade deveriam representar os interesses dos demais, quem sabe inspirados em Lúcifer, dançavam a dança da vitória. E o povo mais uma vez constatou o desprezo que lhes dedicava a horda de perversos. De forma escancarada eles haviam aumentado a sua cota de participação no quinhão. Mas os aldeões não se deram por vencidos. Protestaram e fizeram chegar sua indignação, sua revolta ao grande líder, que chamou as criaturas nefastas e negociou a paz, desfazendo momentaneamente o mal e resgatando a dignidade dos aldeões.
Nesta história, mesmo que de forma momentânea o mal triunfou. Ainda bem que é apenas uma história para assustar criancinhas. Mas é bom ficar atento, pois nunca sabemos as formas com que as forças do mal, do perverso, podem se manifestar. Lá, na aldeia do meu amigo, esta história é transmitida de geração em geração, para que os aldeões nunca se esqueçam do perigo a que estiveram submetidos naqueles longínquos dias, mas que continua a pairar sobre eles, espreitando, aguardando o melhor momento de voltar e fincar suas garras vis na dignidade da aldeia. Até hoje eu ainda me arrepio e chego a suar frio só de imaginar que isto possa um dia voltar a se materializar, mesmo que seja lá, naquele vale remoto, em que está localizada a aldeia do meu amigo.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta
Blog literário criado em 29/08/2008, na cidade de Blumenau-SC.
4 de set. de 2008
O facínora de alta periculosidade e elevada idade
Eu tenho um amigo que me consta histórias fascinantes que aconteceram na aldeia dele. Em uma das oportunidades ele me contou de um perigoso facínora, um terrível malfeitor de elevada idade, ou melhor, como este perigoso celerado foi criado, se tornou alguém de alta periculosidade para a toda a aldeia.
O homem enveredou pela vida do crime já idoso, com quase 80 anos, mas foi fundo e terminou preso, enjaulado, segregado da sociedade. Ocorre que não foi o homem que alterou seu comportamento, mas sim o comportamento dele que passou a ser encarado pelo viés criminoso. Ele, o facínora, antes de o ser, passou quase a totalidade da sua vida amarrando a sua vaquinha para pastar em um local público. Esse foi o começo de sua vida criminosa.
Dia após dia, ele calmamente levava seus ruminantes de chifres e os deixava placidamente fazerem aquilo que a natureza exigia deles, ou seja, pastarem. Isso por décadas. Mas o tempo foi passando, a sociedade foi ficando mais complexa e para poder por ordem no caos os habitantes da aldeia foram alterando o seu código de leis. Assim, sempre que um tipo de comportamento começava a incomodar, eles determinavam que o mesmo passasse a ser crime e os criminosos eram punidos. Agindo assim, os aldeões achavam que conseguiriam resolver os seus problemas.
Então, após o tempo surtir seus efeitos em décadas de existência, as coisas complicaram para o lado daquele que viria a se tornar um perigoso criminoso. Alheio aos caprichos da aldeia, a natureza seguia seu curso exigindo que as vaquinhas continuassem a pastar. Como o pasto continuava apetitoso as vaquinhas eram levadas diariamente para o mesmo lugar. Mas, o pasto, mesmo apetitoso, estava em lugar errado. Não, o pasto não se moveu, foi o entorno dele que foi alterado pelo povo da aldeia, de forma que a presença dos chifrudos ruminantes passou a ser um perigo para vida dos integrantes da aldeia, mesmo que eles só pastassem. Um determinado dia, um dos aldeões achou que tinha dar um basta naquela grave quebra da ordem e determinou, em nome da normalidade, que os chifrudos não poderiam mais fazer sua alimentação naquele local, que o dono dos bichos estava proibido de conduzir as vaquinhas até aquele apetitoso e verdejante pasto.
Foi quando as coisas, que já estavam ruins, pioraram para o facínora. Ele simplesmente se recusou a cumprir a determinação, já que por décadas, religiosamente dia após dia ele conduzia seus animais ao mesmo local. Para ele, já com os efeitos do tempo agindo em sua longa existência, ficara difícil acompanhar a velocidade das mudanças no comportamento do povo da aldeia. Na sua forma de raciocinar ele não enxergava o terrível crime, ato vil, pecaminoso, abominável e desprezível, que insistia em reproduzir no seu cotidiano, em uma afronta aos agora sagrados códigos de conduta.
O vilão-mor foi conduzido para dar explicações. Na tentativa de justificar suas atitudes, e sem dominar o linguajar adequado, foi dado com o perigoso encrenqueiro e lhe atribuíram mais um crime. Coitado, não sabia que falar de forma inadequada tinha sido transformado em crime, e agora passara a ser um criminoso freqüente, um delinqüente de vários crimes. Para alguns ele era apenas birrento, alguém que as duras décadas de existência não permitiram se aperfeiçoar no trato com os demais aldeões. Mas, para outros, não. O seu comportamento era algo inadmissível, perigoso para o convívio com aldeões distintos, os considerados decentes. E ele foi encarcerado, segregado da aldeia. Foi entregue para cumprir sua pena longe do todos. Mas lá, ele conseguiu algumas regalias, coisas que a idade avançada ainda permitia, de modo que apenas passava a noite lá e durante o dia ele podia cuidar de sua companheira de longa data, e também das vaquinhas, que agora estavam em outro lugar, alheias a tudo saboreando outro pasto verdinho.
Até que um dia ele abusou da bondade do aparelho segregador, em determinada noite ele não voltou. Ficou cuidando da sua companheira, que estava adoecida. Novamente ele percorreu o caminho indevido e afrontou o sistema montado pelos aldeões para cuidar de gente como ele. Sendo assim, o sistema que foi criado para segregar os perigosos dos demais aldeões não podia permitir tal assanhamento, tamanha petulância, e ele perdeu toda e qualquer regalia, seus benefícios foram cortados, ele deu adeus aos privilégios, afinal regalia é prerrogativa apenas de quem merece. Assim nosso facínora, do alto de sua periculosidade angariada em quase oito décadas de existência passou a compartilhar sua companhia com gente tão perigosa quanto ele, homicidas, traficantes, ladrões e outros. A sociedade finalmente estava protegida de tamanho risco. Poderia agora retornar a sua calma. Lá, disse o meu amigo, referindo-se a aldeia dele, eles chamam isso de justiça. É?
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta
O homem enveredou pela vida do crime já idoso, com quase 80 anos, mas foi fundo e terminou preso, enjaulado, segregado da sociedade. Ocorre que não foi o homem que alterou seu comportamento, mas sim o comportamento dele que passou a ser encarado pelo viés criminoso. Ele, o facínora, antes de o ser, passou quase a totalidade da sua vida amarrando a sua vaquinha para pastar em um local público. Esse foi o começo de sua vida criminosa.
Dia após dia, ele calmamente levava seus ruminantes de chifres e os deixava placidamente fazerem aquilo que a natureza exigia deles, ou seja, pastarem. Isso por décadas. Mas o tempo foi passando, a sociedade foi ficando mais complexa e para poder por ordem no caos os habitantes da aldeia foram alterando o seu código de leis. Assim, sempre que um tipo de comportamento começava a incomodar, eles determinavam que o mesmo passasse a ser crime e os criminosos eram punidos. Agindo assim, os aldeões achavam que conseguiriam resolver os seus problemas.
Então, após o tempo surtir seus efeitos em décadas de existência, as coisas complicaram para o lado daquele que viria a se tornar um perigoso criminoso. Alheio aos caprichos da aldeia, a natureza seguia seu curso exigindo que as vaquinhas continuassem a pastar. Como o pasto continuava apetitoso as vaquinhas eram levadas diariamente para o mesmo lugar. Mas, o pasto, mesmo apetitoso, estava em lugar errado. Não, o pasto não se moveu, foi o entorno dele que foi alterado pelo povo da aldeia, de forma que a presença dos chifrudos ruminantes passou a ser um perigo para vida dos integrantes da aldeia, mesmo que eles só pastassem. Um determinado dia, um dos aldeões achou que tinha dar um basta naquela grave quebra da ordem e determinou, em nome da normalidade, que os chifrudos não poderiam mais fazer sua alimentação naquele local, que o dono dos bichos estava proibido de conduzir as vaquinhas até aquele apetitoso e verdejante pasto.
Foi quando as coisas, que já estavam ruins, pioraram para o facínora. Ele simplesmente se recusou a cumprir a determinação, já que por décadas, religiosamente dia após dia ele conduzia seus animais ao mesmo local. Para ele, já com os efeitos do tempo agindo em sua longa existência, ficara difícil acompanhar a velocidade das mudanças no comportamento do povo da aldeia. Na sua forma de raciocinar ele não enxergava o terrível crime, ato vil, pecaminoso, abominável e desprezível, que insistia em reproduzir no seu cotidiano, em uma afronta aos agora sagrados códigos de conduta.
O vilão-mor foi conduzido para dar explicações. Na tentativa de justificar suas atitudes, e sem dominar o linguajar adequado, foi dado com o perigoso encrenqueiro e lhe atribuíram mais um crime. Coitado, não sabia que falar de forma inadequada tinha sido transformado em crime, e agora passara a ser um criminoso freqüente, um delinqüente de vários crimes. Para alguns ele era apenas birrento, alguém que as duras décadas de existência não permitiram se aperfeiçoar no trato com os demais aldeões. Mas, para outros, não. O seu comportamento era algo inadmissível, perigoso para o convívio com aldeões distintos, os considerados decentes. E ele foi encarcerado, segregado da aldeia. Foi entregue para cumprir sua pena longe do todos. Mas lá, ele conseguiu algumas regalias, coisas que a idade avançada ainda permitia, de modo que apenas passava a noite lá e durante o dia ele podia cuidar de sua companheira de longa data, e também das vaquinhas, que agora estavam em outro lugar, alheias a tudo saboreando outro pasto verdinho.
Até que um dia ele abusou da bondade do aparelho segregador, em determinada noite ele não voltou. Ficou cuidando da sua companheira, que estava adoecida. Novamente ele percorreu o caminho indevido e afrontou o sistema montado pelos aldeões para cuidar de gente como ele. Sendo assim, o sistema que foi criado para segregar os perigosos dos demais aldeões não podia permitir tal assanhamento, tamanha petulância, e ele perdeu toda e qualquer regalia, seus benefícios foram cortados, ele deu adeus aos privilégios, afinal regalia é prerrogativa apenas de quem merece. Assim nosso facínora, do alto de sua periculosidade angariada em quase oito décadas de existência passou a compartilhar sua companhia com gente tão perigosa quanto ele, homicidas, traficantes, ladrões e outros. A sociedade finalmente estava protegida de tamanho risco. Poderia agora retornar a sua calma. Lá, disse o meu amigo, referindo-se a aldeia dele, eles chamam isso de justiça. É?
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e poeta
Tropa de Elite – Tráfico de Drogas e Direitos Autorais
Assisti recentemente um debate entre o Diretor do filme Tropa de Elite e alguns jornalistas. Um papo do tipo cabeça, que envolvia discussões sobre doutrinas totalitárias, citações de autores famosos, muita filosofia e outras coisas do tipo "eu-sou-da-elite-intelectual". Bem daquele tipo que se emprega quando queremos ficar distante da grande massa, do povão, daqueles que não dominam esse tipo de vocabulário. Os jornalistas se esforçavam para imprimir um viés cultural ao debate. O diretor, por sua vez, reforçava a posição do grupo e se mostrou muito bem articulado, fazendo várias citações a conhecidos "medalhões" nacionais que escrevem sobre a segurança pública.
Uma bem urdida tentativa de transformar em debate cultural um simples filme comercial. Digo simples no sentido de ser comercial, igual a qualquer outro, sem entrar em detalhes técnicos sobre roteiro, luz, movimento de câmera, cenografia, desempenhos dos atores e outros detalhes da mesma linha. Mas, chamou-me a atenção o fato de que os ditos "medalhões" citados eram sempre os mesmos. Ou seja, o universo acadêmico utilizado pelo diretor orbitava em não mais que duas ou três "estrelas".
Em dado momento pareceu-me aquelas discussões intelectualoides sobre o ciclo de cinema cultural sueco. Não tenho nada contra os suecos, ou contra o cinema cultural, ou ainda contra um tal ciclo de cinema cultural sueco, se é que ele algum dia existiu, mas é que isso tipo de debate não interessava a ninguém, somente aqueles que queiram se passar por intelectuais. No meio acadêmico aprendemos que em um debate devemos recorrer aos chamados amigos, que são na verdade pesquisadores que se notabilizaram através de pesquisas em suas respectivas áreas. Assim, se eu citar um desses amigos, o meu contendor vai ter que se armar para discutir com ele, refutar os argumentos dele, e não os meus. Assim seguia o nosso diretor, o roteiro costurado para aquela cena.
Voltando a constelação, nanica, diga-se de passagem, utilizada por nosso diretor, tive a impressão de que ele fez algo do tipo "decoreba". Assim como fazem alguns, que se dizem guias turísticos, e começam a desfiar uma ladainha aos incautos turistas que têm a má sorte de se verem presos a esses estupradores da cultura alheia. Ainda me chamou a atenção o fato de que o diretor não encarava as câmeras e nem olhava para os jornalistas, era um olhar voltado e fixo para o chão, além de ficar o tempo todo mexendo na aliança ou anel, não consegui ver direito, mas com certeza eram sinais de que ele não estava à vontade.
Tive a impressão de que se nosso solitário e sitiado diretor - sim, pois ele estava no meio de um circulo e os jornalistas, tal qual sedentos algozes, o circundavam – não sobreviveria a um debate sério, verdadeiramente fundamentado nas questões de segurança pública, já que os seus amigos da segurança pública eram poucos, muito poucos. Na verdade eu tinha a impressão de que logo o Capitão Nascimento e seu Batalhão iriam fazer uma tomada tática do estúdio e resgatar o diretor, nem sem antes meter a cabeça dos jornalistas dentro de sacos plásticos até eles confessarem que tudo aquilo era parte de um complô para imprimir um tom cultural em algo que tom o foco na bilheteria, apenas. Depois do resgate o Capitão Nascimento se voltaria para o diretor, e como se estivesse no curso de táticas policiais, aplicaria um severo tapa em sua cara e gritaria: "senhor diretor, olha pra mim, olha pra mim, não olha pro chão não! Larga já esse anel e olha pra mim! O senhor é uma vergonha, senhor diretor! O senhor está envergonhando o nosso nome, senhor diretor! O senhor não é digno de estar aqui, senhor diretor! Pede para desistir, senhor diretor, pede pra desistir senhor diretor!"
Em determinado momento, ele o diretor, disse que uma das propostas do filme era chamar a atenção para a descriminalização das drogas. Argumentava que quando o consumo e a venda de drogas deixassem de ser crimes, iria acabar com toda a rede criminosa que o cerca. Ora, esse tipo de argumento, é antigo e ainda não se provou verdadeiro, não havendo a necessidade de mais um filme para tratar da problemática das drogas. Não me convenceu! Para mim Tropa de Elite continua sendo mais filme comercial como tantos que têm por ai. Mas o filme não foi feito para me convencer de nada, alias, ele foi feito para me convencer de uma coisa, apenas uma, ou seja, eu tenho que comprar um ingresso e ir assisti-lo, assim como fiz, e faço, com tantos outros filmes, como o Schreck e o Garfild, só para ficar em dois exemplos.
Mas, em seguida ele soltou a pérola que para mim define tudo sobre Tropa de Elite, o interesse meramente comercial. Os debates, os papos cabeça e todo o resto são puro marketing, o que interesse mesmo é a bilheteria. Oras, após defender o fim do crime para as praticas relacionadas com o consumo de drogas, o nosso diretor sentou a lenha na pirataria, de forma elegante, é claro. Discorreu um rosário de razões contra essa prática cruel que aflige a produção intelectual e sustenta uma rede criminosa, que nem o BOPE do Capitão Pimentel conseguira acabar. Sacaram só a semelhança entre o tráfico de drogas e a pirataria? Os dois sustentam uma rede subterrânea do crime, criam uma sociedade paralela a nossa.
Então eu vou dar uma sugestão para acabar com a rede criminosa que sustenta e é sustentada pela pirataria, e vou buscar no diretor – lembram o que eu falei anteriormente de irmos nos socorrer dos amigos em nossos debates – pois é vou buscar no diretor e nos jornalistas, que com ele debatiam a solução. Vou usar os jornalistas por que nenhum deles ousou contradizer o diretor quando ele defendeu a descriminalização das drogas e como quem cala consente, lá vou.
A sugestão é bem simples, vamos descriminalizar a pirataria, isso mesmo, pirataria vai deixar de ser crime, assim vamos acabar com a rede que a sustenta e por ela é sustenta. Meu Deus como é simples! Só que ai o filme, vai perder o interesse comercial, não seria mais feio dizer: eu assisti o piratão. Mas, eles iriam ver os seus lucros escoarem pelo ralo, e isso não faz mal, pois iria sobrar mais dinheiro para os usuários comprarem drogas, as descriminalizadas, que agora já não sustentariam mais uma rede criminosa. Solução perfeita para a nossa sociedade!
Brincadeirinha escrevi o parágrafo anterior só pra sacanear. A proposta é absurda demais. Se fosse tão bom assim o nosso diretor-papo-cabeça e seus amigos intelectuais já a teriam apresentado.
É por tudo isso que o Tropa de Elite é para mim mais um filme comercial, apenas isso, e me libertem dessas pseudo-discussões, por favor! Deixem-me comprar meu ingresso em paz. Que saudades do Schreck e do Garfild!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Uma bem urdida tentativa de transformar em debate cultural um simples filme comercial. Digo simples no sentido de ser comercial, igual a qualquer outro, sem entrar em detalhes técnicos sobre roteiro, luz, movimento de câmera, cenografia, desempenhos dos atores e outros detalhes da mesma linha. Mas, chamou-me a atenção o fato de que os ditos "medalhões" citados eram sempre os mesmos. Ou seja, o universo acadêmico utilizado pelo diretor orbitava em não mais que duas ou três "estrelas".
Em dado momento pareceu-me aquelas discussões intelectualoides sobre o ciclo de cinema cultural sueco. Não tenho nada contra os suecos, ou contra o cinema cultural, ou ainda contra um tal ciclo de cinema cultural sueco, se é que ele algum dia existiu, mas é que isso tipo de debate não interessava a ninguém, somente aqueles que queiram se passar por intelectuais. No meio acadêmico aprendemos que em um debate devemos recorrer aos chamados amigos, que são na verdade pesquisadores que se notabilizaram através de pesquisas em suas respectivas áreas. Assim, se eu citar um desses amigos, o meu contendor vai ter que se armar para discutir com ele, refutar os argumentos dele, e não os meus. Assim seguia o nosso diretor, o roteiro costurado para aquela cena.
Voltando a constelação, nanica, diga-se de passagem, utilizada por nosso diretor, tive a impressão de que ele fez algo do tipo "decoreba". Assim como fazem alguns, que se dizem guias turísticos, e começam a desfiar uma ladainha aos incautos turistas que têm a má sorte de se verem presos a esses estupradores da cultura alheia. Ainda me chamou a atenção o fato de que o diretor não encarava as câmeras e nem olhava para os jornalistas, era um olhar voltado e fixo para o chão, além de ficar o tempo todo mexendo na aliança ou anel, não consegui ver direito, mas com certeza eram sinais de que ele não estava à vontade.
Tive a impressão de que se nosso solitário e sitiado diretor - sim, pois ele estava no meio de um circulo e os jornalistas, tal qual sedentos algozes, o circundavam – não sobreviveria a um debate sério, verdadeiramente fundamentado nas questões de segurança pública, já que os seus amigos da segurança pública eram poucos, muito poucos. Na verdade eu tinha a impressão de que logo o Capitão Nascimento e seu Batalhão iriam fazer uma tomada tática do estúdio e resgatar o diretor, nem sem antes meter a cabeça dos jornalistas dentro de sacos plásticos até eles confessarem que tudo aquilo era parte de um complô para imprimir um tom cultural em algo que tom o foco na bilheteria, apenas. Depois do resgate o Capitão Nascimento se voltaria para o diretor, e como se estivesse no curso de táticas policiais, aplicaria um severo tapa em sua cara e gritaria: "senhor diretor, olha pra mim, olha pra mim, não olha pro chão não! Larga já esse anel e olha pra mim! O senhor é uma vergonha, senhor diretor! O senhor está envergonhando o nosso nome, senhor diretor! O senhor não é digno de estar aqui, senhor diretor! Pede para desistir, senhor diretor, pede pra desistir senhor diretor!"
Em determinado momento, ele o diretor, disse que uma das propostas do filme era chamar a atenção para a descriminalização das drogas. Argumentava que quando o consumo e a venda de drogas deixassem de ser crimes, iria acabar com toda a rede criminosa que o cerca. Ora, esse tipo de argumento, é antigo e ainda não se provou verdadeiro, não havendo a necessidade de mais um filme para tratar da problemática das drogas. Não me convenceu! Para mim Tropa de Elite continua sendo mais filme comercial como tantos que têm por ai. Mas o filme não foi feito para me convencer de nada, alias, ele foi feito para me convencer de uma coisa, apenas uma, ou seja, eu tenho que comprar um ingresso e ir assisti-lo, assim como fiz, e faço, com tantos outros filmes, como o Schreck e o Garfild, só para ficar em dois exemplos.
Mas, em seguida ele soltou a pérola que para mim define tudo sobre Tropa de Elite, o interesse meramente comercial. Os debates, os papos cabeça e todo o resto são puro marketing, o que interesse mesmo é a bilheteria. Oras, após defender o fim do crime para as praticas relacionadas com o consumo de drogas, o nosso diretor sentou a lenha na pirataria, de forma elegante, é claro. Discorreu um rosário de razões contra essa prática cruel que aflige a produção intelectual e sustenta uma rede criminosa, que nem o BOPE do Capitão Pimentel conseguira acabar. Sacaram só a semelhança entre o tráfico de drogas e a pirataria? Os dois sustentam uma rede subterrânea do crime, criam uma sociedade paralela a nossa.
Então eu vou dar uma sugestão para acabar com a rede criminosa que sustenta e é sustentada pela pirataria, e vou buscar no diretor – lembram o que eu falei anteriormente de irmos nos socorrer dos amigos em nossos debates – pois é vou buscar no diretor e nos jornalistas, que com ele debatiam a solução. Vou usar os jornalistas por que nenhum deles ousou contradizer o diretor quando ele defendeu a descriminalização das drogas e como quem cala consente, lá vou.
A sugestão é bem simples, vamos descriminalizar a pirataria, isso mesmo, pirataria vai deixar de ser crime, assim vamos acabar com a rede que a sustenta e por ela é sustenta. Meu Deus como é simples! Só que ai o filme, vai perder o interesse comercial, não seria mais feio dizer: eu assisti o piratão. Mas, eles iriam ver os seus lucros escoarem pelo ralo, e isso não faz mal, pois iria sobrar mais dinheiro para os usuários comprarem drogas, as descriminalizadas, que agora já não sustentariam mais uma rede criminosa. Solução perfeita para a nossa sociedade!
Brincadeirinha escrevi o parágrafo anterior só pra sacanear. A proposta é absurda demais. Se fosse tão bom assim o nosso diretor-papo-cabeça e seus amigos intelectuais já a teriam apresentado.
É por tudo isso que o Tropa de Elite é para mim mais um filme comercial, apenas isso, e me libertem dessas pseudo-discussões, por favor! Deixem-me comprar meu ingresso em paz. Que saudades do Schreck e do Garfild!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Uma sexóloga no Ministério do Turismo
Via de regra a formação acadêmica serve como base para a vida profissional das pessoas. Via de regra, pois nem sempre é assim. Na vida política é diferente. Já tivemos um médico que foi Ministro da Economia e agora temos uma Sexóloga que é Ministra do Turismo. E eis que nossa “ministra-sexóloga” fez das suas. Em data politicamente importante, quando o Presidente da República fazia o anúncio de mais um plano, dessa vez para o turismo, ao ser questionada sobre o terrível problema que vem assolando nossos aeroportos, e atingindo a todos nós que precisamos usar do transporte aéreo, a “sexóloga-ministra” saiu com uma espetacular resposta: “relaxa e goza, pois quando chegar no destino esquece de tudo!” Tudo bem, temos que admitir que sua ousadia teve o mérito de oficializar aquilo que todos já sabíamos, que estamos sendo sistematicamente estuprados por quem deveria nos representar.
Diante de toda essa beleza de conselho eu fico me perguntando, por que não nomear logo uma prostituta para o cargo? Veja só, a sexóloga é a pessoa oriunda do meio acadêmico, ligado ao conhecimento científico, as pesquisas, aos teóricos da causa. Já a prostituta não, essa fez, e faz, seu aprendizado na vivência, está mais ligada com as práticas, com o rala e rola do dia-a-dia.
Por outro lado, o Presidente da República ao contratar uma prostituta, poderia ter seu tratamento ampliado. Não se restringiria mais apenas ao “Vossa Excelência”, mas poderíamos chamá-lo de “o senhor-rufião”, “gigolô-líder”, “proxeneta-mor”, ou para os mais carinhosos de “aquele-adorável-cafetão-de-barbas-grisalhas”.
Não podemos, ainda, nos esquecer de que com os milionários investimentos que estão sendo feitos em nossos aeroportos, os mesmos passariam a ser oficialmente reconhecidos como os bordéis mais luxuosos do mundo. Local onde as mais descaradas orgias acontecem e à luz do dia e diante (e por detrás) de todos, aliás queiram ou não, com a participação de todos.
Como os atrasos não são poucos e nem se restringem a poucos minutos, poderíamos classificá-los de acordo com as práticas sexuais, tanto as ortodoxas, como as mais heterodoxas possíveis. Assim, aqueles cujo atraso fosse superior a 8 horas, seriam os “sexos tântricos”, aquela prática oriental que permite aos seus seguidores se entregarem aos prazeres carnais por longos períodos. Os vôos cancelados seriam os “atos interrompidos”. Os atrasos menores, coisa de quinze minutos, ou um pouco mais, seriam os “ficantes” “ou peguetes” e assim por diante. Os que saíssem no horário, por sua vez ficariam sem graça, mas não faltariam gaiatos para batizá-los de “papai e mamãe”. Bem, assim tal qual o sexo, teríamos para todos os gostos.
As explicações que os passageiros dariam para quem os estivesse esperando nos destinos seriam igualmente interessantes: “é, tive um “ato interrompido” ontem e só consegui continuar hoje. Mas para meu desespero tive que enfrentar um “sexo tântrico” de 12 horas. Olha bem pra mim, estou um farrapo, minhas forças estão esgotadas, tão cedo não quero repetir essa experiência. De agora em diante, e por um bom tempo, só “papai e mamãe”, nem quero pensar na volta, não posso passar por tudo isso novamente. Não tenho mais idade para isso!”
Para os nossos políticos ficaria mais fácil explicar suas escapadas sexuais: “sabe como é, quando eu dei por mim estava enfiado em um daqueles “vôos peguetes” e aí aconteceu. A minha mulher é claro que entende, ela sabe que não foi premeditado. Simplesmente aconteceu, quando a gente se deu conta já tinha acontecido. Foi tudo meio sem compromisso, mas como fomos pegos de surpresa, estávamos sem proteção e aí não teve outra saída. Mas, resolvi tudo, arrumei um lobista que vai cobrir as minhas despesas”.
Quando a nossa “ministra-prostituta” fosse questionada sobre o caos nos aeroportos, ela com um autêntico sorriso, responderia: olha pessoal o que aconteceu foi que simplesmente fud...!
Com toda a certeza seria uma resposta mais convincente, pois seria uma resposta profissional.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Diante de toda essa beleza de conselho eu fico me perguntando, por que não nomear logo uma prostituta para o cargo? Veja só, a sexóloga é a pessoa oriunda do meio acadêmico, ligado ao conhecimento científico, as pesquisas, aos teóricos da causa. Já a prostituta não, essa fez, e faz, seu aprendizado na vivência, está mais ligada com as práticas, com o rala e rola do dia-a-dia.
Por outro lado, o Presidente da República ao contratar uma prostituta, poderia ter seu tratamento ampliado. Não se restringiria mais apenas ao “Vossa Excelência”, mas poderíamos chamá-lo de “o senhor-rufião”, “gigolô-líder”, “proxeneta-mor”, ou para os mais carinhosos de “aquele-adorável-cafetão-de-barbas-grisalhas”.
Não podemos, ainda, nos esquecer de que com os milionários investimentos que estão sendo feitos em nossos aeroportos, os mesmos passariam a ser oficialmente reconhecidos como os bordéis mais luxuosos do mundo. Local onde as mais descaradas orgias acontecem e à luz do dia e diante (e por detrás) de todos, aliás queiram ou não, com a participação de todos.
Como os atrasos não são poucos e nem se restringem a poucos minutos, poderíamos classificá-los de acordo com as práticas sexuais, tanto as ortodoxas, como as mais heterodoxas possíveis. Assim, aqueles cujo atraso fosse superior a 8 horas, seriam os “sexos tântricos”, aquela prática oriental que permite aos seus seguidores se entregarem aos prazeres carnais por longos períodos. Os vôos cancelados seriam os “atos interrompidos”. Os atrasos menores, coisa de quinze minutos, ou um pouco mais, seriam os “ficantes” “ou peguetes” e assim por diante. Os que saíssem no horário, por sua vez ficariam sem graça, mas não faltariam gaiatos para batizá-los de “papai e mamãe”. Bem, assim tal qual o sexo, teríamos para todos os gostos.
As explicações que os passageiros dariam para quem os estivesse esperando nos destinos seriam igualmente interessantes: “é, tive um “ato interrompido” ontem e só consegui continuar hoje. Mas para meu desespero tive que enfrentar um “sexo tântrico” de 12 horas. Olha bem pra mim, estou um farrapo, minhas forças estão esgotadas, tão cedo não quero repetir essa experiência. De agora em diante, e por um bom tempo, só “papai e mamãe”, nem quero pensar na volta, não posso passar por tudo isso novamente. Não tenho mais idade para isso!”
Para os nossos políticos ficaria mais fácil explicar suas escapadas sexuais: “sabe como é, quando eu dei por mim estava enfiado em um daqueles “vôos peguetes” e aí aconteceu. A minha mulher é claro que entende, ela sabe que não foi premeditado. Simplesmente aconteceu, quando a gente se deu conta já tinha acontecido. Foi tudo meio sem compromisso, mas como fomos pegos de surpresa, estávamos sem proteção e aí não teve outra saída. Mas, resolvi tudo, arrumei um lobista que vai cobrir as minhas despesas”.
Quando a nossa “ministra-prostituta” fosse questionada sobre o caos nos aeroportos, ela com um autêntico sorriso, responderia: olha pessoal o que aconteceu foi que simplesmente fud...!
Com toda a certeza seria uma resposta mais convincente, pois seria uma resposta profissional.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
3 de set. de 2008
Folia de Reis
A Folia de Reis é uma tradição de origem portuguesa que, lamentavelmente, vem se perdendo com o tempo e quase não é mais praticada. Mesmo nas comunidades descendentes dos colonizadores da terra de Camões, os mais jovens já não a conhecem. Mas, acontece que em alguns redutos ela resiste bravamente. Resiste graças à insistência de alguns audazes que teimam em manter viva esta bela tradição. De forma bem simplista, podemos descrever a Folia de Reis como sendo a representação da peregrinação feita por Gaspar, Baltazar e Belchior, os Reis Magos, há mais de dois mil anos em busca daquele que ficou popularmente conhecido como o Menino Jesus. Por esta razão, acontece no período de Natal.
A última vez que eu havia presenciado uma apresentação desta manifestação folclórica, já não lembrava mais. Forçando a memória, me vinham pequenos fragmentos como que em um “flash back” mal feito. Até que, para nossa surpresa, fomos acordados, em certa madrugada, após a terceira badalada do cuco, por uma cantoria. Começou meio que ao longe, mas na verdade era bem perto, apenas Morfeu, um tanto quanto zangado, se recusa a ir embora. Como vingança, provocava uma leve confusão. Fiquei quieto, iria resistir, pois a companhia de Morfeu me era agradável. Passados alguns instantes, ouvi uma voz que brandia “acorda, acorda”!
Pulamos da cama como em perfeita coreografia. O que fazer? O que fazer? O que fazer? Lavar o rosto foi a primeira coisa que me veio, e assim fiz. Ainda estava meio perdido, mas corri para a porta e ao abri-la, fiquei maravilhado. Melhor dizendo, fiquei bestificado. Em frente ao portão um grupo de músicos, bem uniformizado e muito bem treinado, entoava cânticos e ao redor deles um outro grupo, que eram os amigos e os amigos dos amigos. Continuava perdido, não sabia o que fazer. Voltei para dentro e fui me vestir, tirar aquele pijama, já que o mesmo não era condizente com a grandeza do momento.
Abri o portão e eles muito cerimoniosamente foram entrando. Primeiro no jardim e, após, em casa. E a cantoria continuava. Ainda sem saber o que fazer, fui para fora, deixando a casa para eles. Não foi uma situação premeditada de desrespeito, mas sim uma reação natural de quem de repente percebeu não estar à altura de tamanha cortesia. Não sei por que, mas continuava perdido.
Talvez vendo meu estado, ou pela experiência, meu amigo, o César, foi me orientando sobre como proceder. Improvisamos uma recepção, que por mais que nos esforçássemos, nunca seria um banquete à altura daquela corte real. Era o que conseguíamos fazer, diante da completa ausência de raciocínio. Mas meu amigo, o César, estava preparado. Em seu carro havia cerveja gelada e algumas centenas de salgadinhos para suprir aos desavisados; isto sim era realeza.
Feita uma pausa na cantoria, passamos a conversar com os integrantes daquele grupo folclórico e pudemos notar que eram pessoas alegres, descontraídas, assumidamente felizes, e que se esforçavam ao máximo, não apenas para manter viva a tradição, mas para amenizar ao máximo o trauma inicial que de certa forma causa em algumas pessoas, os desavisados. Trauma que se transforma em felicidade, não por imposição de decreto real, mas pela magia do momento que se revelou maravilhoso.
Quando o grupo partiu, não sem antes entoar uma cantoria de despedida, conjugada com um discreto, mas certeiro pedido de ajuda para que a tradição possa ser mantida, fiquei por alguns instantes me revirando na cama, procurando onde Morfeu tinha ido se esconder e me veio uma certeza. A certeza de que quem ao menos uma vez na vida for visitado pela corte dos três Reis Magos, pode dizer que tem amigos. No nosso caso, a corte de Baltazar, Belchior e Gaspar era capitaneada pelo não menos nobre César, não o imperador, mas o amigo. Ave César! Habemus César, habemus Amigos.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
A última vez que eu havia presenciado uma apresentação desta manifestação folclórica, já não lembrava mais. Forçando a memória, me vinham pequenos fragmentos como que em um “flash back” mal feito. Até que, para nossa surpresa, fomos acordados, em certa madrugada, após a terceira badalada do cuco, por uma cantoria. Começou meio que ao longe, mas na verdade era bem perto, apenas Morfeu, um tanto quanto zangado, se recusa a ir embora. Como vingança, provocava uma leve confusão. Fiquei quieto, iria resistir, pois a companhia de Morfeu me era agradável. Passados alguns instantes, ouvi uma voz que brandia “acorda, acorda”!
Pulamos da cama como em perfeita coreografia. O que fazer? O que fazer? O que fazer? Lavar o rosto foi a primeira coisa que me veio, e assim fiz. Ainda estava meio perdido, mas corri para a porta e ao abri-la, fiquei maravilhado. Melhor dizendo, fiquei bestificado. Em frente ao portão um grupo de músicos, bem uniformizado e muito bem treinado, entoava cânticos e ao redor deles um outro grupo, que eram os amigos e os amigos dos amigos. Continuava perdido, não sabia o que fazer. Voltei para dentro e fui me vestir, tirar aquele pijama, já que o mesmo não era condizente com a grandeza do momento.
Abri o portão e eles muito cerimoniosamente foram entrando. Primeiro no jardim e, após, em casa. E a cantoria continuava. Ainda sem saber o que fazer, fui para fora, deixando a casa para eles. Não foi uma situação premeditada de desrespeito, mas sim uma reação natural de quem de repente percebeu não estar à altura de tamanha cortesia. Não sei por que, mas continuava perdido.
Talvez vendo meu estado, ou pela experiência, meu amigo, o César, foi me orientando sobre como proceder. Improvisamos uma recepção, que por mais que nos esforçássemos, nunca seria um banquete à altura daquela corte real. Era o que conseguíamos fazer, diante da completa ausência de raciocínio. Mas meu amigo, o César, estava preparado. Em seu carro havia cerveja gelada e algumas centenas de salgadinhos para suprir aos desavisados; isto sim era realeza.
Feita uma pausa na cantoria, passamos a conversar com os integrantes daquele grupo folclórico e pudemos notar que eram pessoas alegres, descontraídas, assumidamente felizes, e que se esforçavam ao máximo, não apenas para manter viva a tradição, mas para amenizar ao máximo o trauma inicial que de certa forma causa em algumas pessoas, os desavisados. Trauma que se transforma em felicidade, não por imposição de decreto real, mas pela magia do momento que se revelou maravilhoso.
Quando o grupo partiu, não sem antes entoar uma cantoria de despedida, conjugada com um discreto, mas certeiro pedido de ajuda para que a tradição possa ser mantida, fiquei por alguns instantes me revirando na cama, procurando onde Morfeu tinha ido se esconder e me veio uma certeza. A certeza de que quem ao menos uma vez na vida for visitado pela corte dos três Reis Magos, pode dizer que tem amigos. No nosso caso, a corte de Baltazar, Belchior e Gaspar era capitaneada pelo não menos nobre César, não o imperador, mas o amigo. Ave César! Habemus César, habemus Amigos.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
O massacre
Já ouvi algumas vezes que a produção literária é cheia de surpresas, algumas boas, outras nem tanto, chegando até mesmo a serem dolorosas, ou doloridas. Recentemente me atrevi a transitar pelo mundo das crônicas. Algo sem pretensão, apenas para o deleite pessoal e alegria dos amigos, que tem me agraciado com inúmeros elogios. Na verdade não sei bem se estes elogios são pela qualidade do que é produzido, ou se é apenas um ato bondoso, afinal amigos são amigos. Acontece que acabei por me empolgar e, confesso que até me surpreendi com a quantidade de minha tão iniciante produção.
Minha inspiração somente me permite trilhar as veredas da crônica, mas mesmo assim procuro diversificar, com algumas tratando de assuntos mais sérios e outros indo para o lado mais cômico, deixando transparecer um pouco daquilo que eu chamaria de “o meu lado gaiato”. Talvez algum psicólogo se atreva a dizer que deixo transparecer minhas diferentes personalidades, mas não é nada disso. Trata-se apenas das diferentes faces da mesma pessoa. Toda esta introdução foi para esclarecer, e não justificar, que às vezes quando escrevemos podemos ser mau interpretados.
Como pretenso cronista tenho procurado me esmerar em retratar situações do cotidiano em que tomei parte, seja direta ou indiretamente, mas é a realidade retratada sob o meu ponto de vista, quer seja ele bonito ou não. Esta má interpretação dos fatos produzidos pelos autores acompanha a história da humanidade. Muitas são as histórias de intelectuais que foram perseguidos e tiveram sua obra censurada. A idade média ficou conhecida como a idade das trevas. No Brasil, mais recentemente tivemos da ditadura militar que perseguiu a muitos intelectuais. Não tenho a pretensão de me comparar a eles, apenas registro que agora, posso de forma mais clara, tentar entender o que eles passaram.
Já tive o amargo sabor de que com uma simples crônica desprovida de qualquer sentimento maléfico, despertar a ira de minha amada companheira. Lamentavelmente deixei-me entorpecer pelo doce prazer da criação literária e avancei alguns sinais. Em uma inocente crônica chamada “As meninas de saia curta”, cai em uma armadilha. Exercitando meus princípios de ser fiel ao máximo a minha criação, como tenho sido de uma fidelidade total a minha amada, derrapei e segui um viés literário que, confesso, avançou um pouco pelas fileiras de uma leve canalhice. Ao absorver toda energia gerada pela onda de reprovação que provoquei nela, lancinante dor percorreu o meu ser como a querer castrar minha tão iniciante carreira de pretenso cronista, tal foi à fúria do massacre a que fui submetido.
Procurei refugio entre os amigos, mas não fui feliz. Os homens se deleitaram com a leitura, mas suas enciumadas esposas não permitiram que os mesmos comigo fossem solidários. Não conseguia aceitar a idéia de ter causado tão terrível desconforto em quem tanto amo, e que só fez encher de alegria esta tão miserável vida. Para piorar, não foi um ato selvagem que cometi, mas apenas um atrevimento literário. Fiquei horas vagando entre a dor de ter maltratado minha amada, e a frustração de me sentir intelectualmente castrado. Estaria minha insignificante e debutante carreira fadada ao extermínio prematuro? Talvez sim, tamanha era a minha sensação de impotência diante de dantesco quadro. Terrivelmente amargurado e solitário, vagueei procurando a melhor forma de me redimir, se isto for possível.
No desespero vislumbrei a solução. Continuar a ser eu mesmo. Sim, eu mesmo, um eu com diversas faces, mas apenas um coração, um sentimento, um amor, mas com duas paixões. Uma paixão, se revelou tardia, pós quarenta anos, é a dedicação e a tentativa de ser reconhecido como cronista. A outra, me acompanha em uma longa e feliz vivência, que é algo em que já sou a muito reconhecido, que é o amor fiel e incondicional a minha amada. Agora, reconheço que fui infeliz quando me dediquei mais à paixão (literária) e não ao amor, mas tenho certeza de que foi apenas um deslize digno de um principiante, apenas isto.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Minha inspiração somente me permite trilhar as veredas da crônica, mas mesmo assim procuro diversificar, com algumas tratando de assuntos mais sérios e outros indo para o lado mais cômico, deixando transparecer um pouco daquilo que eu chamaria de “o meu lado gaiato”. Talvez algum psicólogo se atreva a dizer que deixo transparecer minhas diferentes personalidades, mas não é nada disso. Trata-se apenas das diferentes faces da mesma pessoa. Toda esta introdução foi para esclarecer, e não justificar, que às vezes quando escrevemos podemos ser mau interpretados.
Como pretenso cronista tenho procurado me esmerar em retratar situações do cotidiano em que tomei parte, seja direta ou indiretamente, mas é a realidade retratada sob o meu ponto de vista, quer seja ele bonito ou não. Esta má interpretação dos fatos produzidos pelos autores acompanha a história da humanidade. Muitas são as histórias de intelectuais que foram perseguidos e tiveram sua obra censurada. A idade média ficou conhecida como a idade das trevas. No Brasil, mais recentemente tivemos da ditadura militar que perseguiu a muitos intelectuais. Não tenho a pretensão de me comparar a eles, apenas registro que agora, posso de forma mais clara, tentar entender o que eles passaram.
Já tive o amargo sabor de que com uma simples crônica desprovida de qualquer sentimento maléfico, despertar a ira de minha amada companheira. Lamentavelmente deixei-me entorpecer pelo doce prazer da criação literária e avancei alguns sinais. Em uma inocente crônica chamada “As meninas de saia curta”, cai em uma armadilha. Exercitando meus princípios de ser fiel ao máximo a minha criação, como tenho sido de uma fidelidade total a minha amada, derrapei e segui um viés literário que, confesso, avançou um pouco pelas fileiras de uma leve canalhice. Ao absorver toda energia gerada pela onda de reprovação que provoquei nela, lancinante dor percorreu o meu ser como a querer castrar minha tão iniciante carreira de pretenso cronista, tal foi à fúria do massacre a que fui submetido.
Procurei refugio entre os amigos, mas não fui feliz. Os homens se deleitaram com a leitura, mas suas enciumadas esposas não permitiram que os mesmos comigo fossem solidários. Não conseguia aceitar a idéia de ter causado tão terrível desconforto em quem tanto amo, e que só fez encher de alegria esta tão miserável vida. Para piorar, não foi um ato selvagem que cometi, mas apenas um atrevimento literário. Fiquei horas vagando entre a dor de ter maltratado minha amada, e a frustração de me sentir intelectualmente castrado. Estaria minha insignificante e debutante carreira fadada ao extermínio prematuro? Talvez sim, tamanha era a minha sensação de impotência diante de dantesco quadro. Terrivelmente amargurado e solitário, vagueei procurando a melhor forma de me redimir, se isto for possível.
No desespero vislumbrei a solução. Continuar a ser eu mesmo. Sim, eu mesmo, um eu com diversas faces, mas apenas um coração, um sentimento, um amor, mas com duas paixões. Uma paixão, se revelou tardia, pós quarenta anos, é a dedicação e a tentativa de ser reconhecido como cronista. A outra, me acompanha em uma longa e feliz vivência, que é algo em que já sou a muito reconhecido, que é o amor fiel e incondicional a minha amada. Agora, reconheço que fui infeliz quando me dediquei mais à paixão (literária) e não ao amor, mas tenho certeza de que foi apenas um deslize digno de um principiante, apenas isto.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Trilogia de uma noitada - Parte III - Um cantor amigo da família
Quem não está fazendo nada de errado não precisa se esconder, certo? Certíssimo! Com o desenvolvimento da tecnologia empregada à captação de imagens atingindo os níveis que estão, mesmo para aqueles que estão fazendo as coisas erradas fica mais difícil de esconder. Não é a toda que diariamente explodem escândalos os mais variados. Já não é exclusividade de agentes secretos, do tipo 007, o uso dessa parafernália.
Mas não é só a moderna e avança tecnologia que nos prega peças, o bom e sempre presente ser humano é que nos prega a maioria delas. Já escrevi algumas crônicas sobre vários episódios ocorridos quando sai com umas colegas do mestrado para um inocente chopinho – durante uma viagem de dez dias de minha esposa ao exterior - e recorro a esse momento para escrever mais uma. Acho que quando finalmente essa série de crônicas se esgotar, vou reunir todas, não em uma antologia, mas sim em uma enciclopédia. Uma enciclopédia destinada os maridos, a um tipo especial de marido, aquele marido incauto, com falta de prática em lidar com as situações que se apresentam quando a esposa se ausenta em viagem. Não que eu tenha feito algo de errado, ou que mereça reprovação. Muito pelo contrário, tudo o que fiz, faria sem problema algum mesmo se a minha esposa não estivesse fora do país por intermináveis dez dias. Mas acontece que durante a ausência dela as coisas tomam proporções diferentes, ou melhor, interessantes.
Um simples ato de ir a uma choperia e ficar sentado todo tempo tomando um saboroso chope com colegas de mestrado, algo inofensivo, diria até que trivial, banal, cria uma série tão grande de eventos que acaba desencadeando um infindável número de crônicas. Talvez não merecesse sequer uma linha, e assim seria se a esposa não estivesse ausento do país.
Então, chegamos à choperia e um cantor solitário se apresentava. Alias um bom cantor, com variado repertório, que lhe permitia incursões aos sucessos dos anos setenta, bem como aos atuais. Não prestei muita atenção à pessoa do cantor, apenas as suas qualidade líricas, até que em determinado momento ouvi o seu nome. De imediato um alerta soou, eu o conheço. Olhei bem para ele e a única opção que encontrei era a de que o nosso cantor fosse um conhecido da família da minha esposa. Comentei com minhas colegas - ele é da família - elas duvidaram e o riso foi geral. Chamei o garçom e solicitei algumas informações sobre o homem, ao que o garçom não soube responder e eu pedi que ele fosse se informar. De repente estava eu super interessado na figura, seria mesmo ele? Logo o garçom estava de volta com a resposta-confirmação, era mesmo o amigo da família. Devo dizer que por uns longos momentos fui uma infeliz e solitária vítima das gozações de minhas colegas. Fazer o que? Foi uma situação ao mesmo tempo estranha e engraçada, ainda bem que eu não estava fazendo nada de errado, nada mesmo de errado! Mas porque será que eu fico repetindo isso a toda hora? Não sei, mas que não estava, isso não estava!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Mas não é só a moderna e avança tecnologia que nos prega peças, o bom e sempre presente ser humano é que nos prega a maioria delas. Já escrevi algumas crônicas sobre vários episódios ocorridos quando sai com umas colegas do mestrado para um inocente chopinho – durante uma viagem de dez dias de minha esposa ao exterior - e recorro a esse momento para escrever mais uma. Acho que quando finalmente essa série de crônicas se esgotar, vou reunir todas, não em uma antologia, mas sim em uma enciclopédia. Uma enciclopédia destinada os maridos, a um tipo especial de marido, aquele marido incauto, com falta de prática em lidar com as situações que se apresentam quando a esposa se ausenta em viagem. Não que eu tenha feito algo de errado, ou que mereça reprovação. Muito pelo contrário, tudo o que fiz, faria sem problema algum mesmo se a minha esposa não estivesse fora do país por intermináveis dez dias. Mas acontece que durante a ausência dela as coisas tomam proporções diferentes, ou melhor, interessantes.
Um simples ato de ir a uma choperia e ficar sentado todo tempo tomando um saboroso chope com colegas de mestrado, algo inofensivo, diria até que trivial, banal, cria uma série tão grande de eventos que acaba desencadeando um infindável número de crônicas. Talvez não merecesse sequer uma linha, e assim seria se a esposa não estivesse ausento do país.
Então, chegamos à choperia e um cantor solitário se apresentava. Alias um bom cantor, com variado repertório, que lhe permitia incursões aos sucessos dos anos setenta, bem como aos atuais. Não prestei muita atenção à pessoa do cantor, apenas as suas qualidade líricas, até que em determinado momento ouvi o seu nome. De imediato um alerta soou, eu o conheço. Olhei bem para ele e a única opção que encontrei era a de que o nosso cantor fosse um conhecido da família da minha esposa. Comentei com minhas colegas - ele é da família - elas duvidaram e o riso foi geral. Chamei o garçom e solicitei algumas informações sobre o homem, ao que o garçom não soube responder e eu pedi que ele fosse se informar. De repente estava eu super interessado na figura, seria mesmo ele? Logo o garçom estava de volta com a resposta-confirmação, era mesmo o amigo da família. Devo dizer que por uns longos momentos fui uma infeliz e solitária vítima das gozações de minhas colegas. Fazer o que? Foi uma situação ao mesmo tempo estranha e engraçada, ainda bem que eu não estava fazendo nada de errado, nada mesmo de errado! Mas porque será que eu fico repetindo isso a toda hora? Não sei, mas que não estava, isso não estava!
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Trilogia de uma noitada - Parte II - A foto na internet
Minha mulher viajando e eu numa baita “depre”. Os dias eram intermináveis e andava meio sem vontade de fazer nada. Eis que me vem o convite de duas colegas pra um chopinho. Quem tem amigos, tem um tesouro, pensei eu. E lá fui contente e satisfeito para partilhar da agradável companhia delas enquanto saboreava um dos deliciosos chopes produzidos na nossa região.
Cheguei primeiro, meio deslocado, pois havia perdido a prática de sair sozinho. Não lembro de quando foi a última vez que vivenciei essa experiência. Instintivamente me instalei em um canto do balcão e fiquei aguardando. Após longos 15 minutos e elas chegaram o fomos para uma mesa. Durante esse tempo já havia derrubado duas tulipas de chope, acho que estava nervoso, não que achasse ou que realmente estivesse fazendo algo errado, mas era o inusitado da situação.
Sentamos e pedimos mais uma rodada de chope. Mais uma para mim, pois para elas era a primeira. Logo chegou mais uma pessoa, era alguém que não conhecia, era uma amiga delas e se incorporou ao grupo. Pedimos uma pizza e ficamos jogando muita conversa fora.
Era uma situação bem diferente, não que estivesse me sentindo mau com a situação, ao contrário estava me sentindo muito bem, muito a vontade, e talvez fosse isto que estava me incomodando. Não tinha a menor intenção de me esconder de quem quer que seja, ou de omitir esse fato para minha esposa quando ela retornasse de seus dez dias fora do país. Mas sempre fica aquele clima de “homem casado quando fica sozinho...” Aquelas histórias de quando no verão a mulher fica na praia e o marido aproveita e se aproveita da situação, fazendo tudo àquilo que não lhe era permitido. Não era o meu caso, até porque estávamos em um local que semanalmente freqüento com um grupo de amigos. Como a casa tem três ambientes, eu e meus colegas, de toda a semana, ficamos no térreo e apenas observamos “o povo” subindo para os outros ambientes nos demais andares.
Já estava mais calmo, havia diminuído a freqüência com que as tulipas de chope eram trocadas e me sentia mais ambientado, mais a vontade, afinal era um encontro normal de colegas do mestrado, não havia nada de anormal nisso. Conversa vai, conversa vem, alias muita conversa, e chega em nossa mesa um homem com uma máquina fotográfica digital e pergunta se pode tirar uma foto nossa. Explicou que era de um site de divulgação da vida noturna da região. A gargalhada foi geral e as três jogaram a responsabilidade para mim, a foto dependia da minha autorização. Era uma situação totalmente inusitada, mas mesmo assim, sem relutar, autorizei. Após nos posicionarmos, atendendo as orientações do fotografo, o clique foi feito e logo em seguido apresentado para nossa aprovação. Ficou uma bela foto com quatro alegres e felizes colegas. Questionei minhas companheiras de aventura fotográfica-digital sobre a razão de sermos escolhidos para tal. Elas me mandaram olhar para as demais mesas e só então me dei conta. As demais mesas ou estavam ocupadas por homens solitários, ou ainda por grupos de homens, e umas poucas por casais. A nossa era a única em que havia um único homem dividindo a mesa com três mulheres. Com toda a certeza chamávamos a atenção. Ali naquele momento assumo que experimentei um sentimento de alegria e de enorme satisfação. Morram de inveja seus incompetentes, mas tenham muito cuidado com a tecnologia, e isso serve não só para as modelos famosas flagradas com seus companheiros nas praias da Espanha.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Cheguei primeiro, meio deslocado, pois havia perdido a prática de sair sozinho. Não lembro de quando foi a última vez que vivenciei essa experiência. Instintivamente me instalei em um canto do balcão e fiquei aguardando. Após longos 15 minutos e elas chegaram o fomos para uma mesa. Durante esse tempo já havia derrubado duas tulipas de chope, acho que estava nervoso, não que achasse ou que realmente estivesse fazendo algo errado, mas era o inusitado da situação.
Sentamos e pedimos mais uma rodada de chope. Mais uma para mim, pois para elas era a primeira. Logo chegou mais uma pessoa, era alguém que não conhecia, era uma amiga delas e se incorporou ao grupo. Pedimos uma pizza e ficamos jogando muita conversa fora.
Era uma situação bem diferente, não que estivesse me sentindo mau com a situação, ao contrário estava me sentindo muito bem, muito a vontade, e talvez fosse isto que estava me incomodando. Não tinha a menor intenção de me esconder de quem quer que seja, ou de omitir esse fato para minha esposa quando ela retornasse de seus dez dias fora do país. Mas sempre fica aquele clima de “homem casado quando fica sozinho...” Aquelas histórias de quando no verão a mulher fica na praia e o marido aproveita e se aproveita da situação, fazendo tudo àquilo que não lhe era permitido. Não era o meu caso, até porque estávamos em um local que semanalmente freqüento com um grupo de amigos. Como a casa tem três ambientes, eu e meus colegas, de toda a semana, ficamos no térreo e apenas observamos “o povo” subindo para os outros ambientes nos demais andares.
Já estava mais calmo, havia diminuído a freqüência com que as tulipas de chope eram trocadas e me sentia mais ambientado, mais a vontade, afinal era um encontro normal de colegas do mestrado, não havia nada de anormal nisso. Conversa vai, conversa vem, alias muita conversa, e chega em nossa mesa um homem com uma máquina fotográfica digital e pergunta se pode tirar uma foto nossa. Explicou que era de um site de divulgação da vida noturna da região. A gargalhada foi geral e as três jogaram a responsabilidade para mim, a foto dependia da minha autorização. Era uma situação totalmente inusitada, mas mesmo assim, sem relutar, autorizei. Após nos posicionarmos, atendendo as orientações do fotografo, o clique foi feito e logo em seguido apresentado para nossa aprovação. Ficou uma bela foto com quatro alegres e felizes colegas. Questionei minhas companheiras de aventura fotográfica-digital sobre a razão de sermos escolhidos para tal. Elas me mandaram olhar para as demais mesas e só então me dei conta. As demais mesas ou estavam ocupadas por homens solitários, ou ainda por grupos de homens, e umas poucas por casais. A nossa era a única em que havia um único homem dividindo a mesa com três mulheres. Com toda a certeza chamávamos a atenção. Ali naquele momento assumo que experimentei um sentimento de alegria e de enorme satisfação. Morram de inveja seus incompetentes, mas tenham muito cuidado com a tecnologia, e isso serve não só para as modelos famosas flagradas com seus companheiros nas praias da Espanha.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Peota
Trilogia de uma noitada - Parte I - Molecada
Dias desses marquei com umas colegas do mestrado para um chope. Cheguei ao local combinado um pouco mais cedo e me instalei no balcão. Eu adoro os balcões, sempre que posso me acomodo em um deles, na verdade é o local que mais aprecio nesses ambientes.
O balcão é interessante não porque a gente fica com a cara enfiada pra dentro olhando um monte de garrafas arrumadas nos mais diversos tipos de prateleira, mas com o sempre presente fundo de espelho. Seria um desperdício dedicar tempo a isso. O balcão é bom porque a gente pode observar o ambiente, observar as pessoas. Verificar os casais, uns felizes trocando caricias, outros, ainda relutantes iniciando os primeiros contatos físicos, mergulhando nos intrigantes jogos da sedução. Tem aqueles que saem em duplas, amigos e amigas que estão à caça. Tem os solitários, aqueles seres que se sentam só e ficam em sua profunda melancolia se entregando a um copo ou a um cigarro, ou quando não a ambos. Como é triste, melancólico, até mesmo deprimente o comportamento desses solitários. Com o passar das horas o quadro vai se agravando com alguns solitarios perigosamente seguindo a trilha que os conduz rumo ao ridículo, com grandes chances de enveredarem ao vexame. O interessante é que esse é um comportamento tipicamente masculino. É o macho querendo chamar a atenção das fêmeas, assim como na natureza faz o pavão macho com seu esplendoroso rabo multicolor , e machos de muitas outras espécies. No bar o álcool se encarrega de emprestar o “rabo do pavão” para alguns.
Mas tem um grupo que também chama a atenção, e é grupo mesmo, são os homens de meia idade, e até um pouco mais da meia idade, que se reúnem em volta de uma mesa, para saborearem uma boa bebida e contarem vantagem uns aos outros. Quando possível ainda trocam olhares luxuriosos, libidinosos mesmo com alguma representante do sexo feminino, o que irá alimentar o seu ego por um bom tempo. Não apenas o ego será alimentado, mas é conversa garantida para os próximos encontros, para as próximas rodadas, mesmo que os olhares por parte das mulheres não tenham lá sido tão insidiosos assim. Por serem vários machos e cada um querendo chamar a atenção para si fica fácil entender que essas mesas geralmente são barulhentas. Imaginem só se fosse uma mesa de pavões macho, a loucura que seria com tantos rabos coloridos se agitando. E, havia uma mesa dessas lá na choperia e eu os observei um pouco. A conversa era bem interessante e não convém reproduzi-la aqui, mas para entenderem, basta saber que em determinado momento um dos integrantes perguntou se alguém tinha experimentado a costela de porco que certo fulano tinha preparado, ao que foi rapidamente corrigido por outro: “não é costela de porco, é costela de suíno, não se fala mais porco!”. Isso é que nível cultural pensei eu.
Logo em seguida se aproximou da mesa um grupo de jovens, daqueles recém saídos da adolescência e cumprimentaram o grupo. No meio dos cumprimentos, veio a sentença – Lugar da molecada é lá em cima – e apontaram para andar superior, onde funcionava outro espaço da casa. Até então não havia notado a movimentação do piso superior e para minha surpresa havia uma meninada, um povo jovem, com muitas belas meninas se divertindo. E eu ali, sentado em um balcão, cercado de tios. Que grande momento deprimente, esse. Ainda bem que logo fui salvo por minhas colegas que chegaram passaram a me fazer companhia.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
O balcão é interessante não porque a gente fica com a cara enfiada pra dentro olhando um monte de garrafas arrumadas nos mais diversos tipos de prateleira, mas com o sempre presente fundo de espelho. Seria um desperdício dedicar tempo a isso. O balcão é bom porque a gente pode observar o ambiente, observar as pessoas. Verificar os casais, uns felizes trocando caricias, outros, ainda relutantes iniciando os primeiros contatos físicos, mergulhando nos intrigantes jogos da sedução. Tem aqueles que saem em duplas, amigos e amigas que estão à caça. Tem os solitários, aqueles seres que se sentam só e ficam em sua profunda melancolia se entregando a um copo ou a um cigarro, ou quando não a ambos. Como é triste, melancólico, até mesmo deprimente o comportamento desses solitários. Com o passar das horas o quadro vai se agravando com alguns solitarios perigosamente seguindo a trilha que os conduz rumo ao ridículo, com grandes chances de enveredarem ao vexame. O interessante é que esse é um comportamento tipicamente masculino. É o macho querendo chamar a atenção das fêmeas, assim como na natureza faz o pavão macho com seu esplendoroso rabo multicolor , e machos de muitas outras espécies. No bar o álcool se encarrega de emprestar o “rabo do pavão” para alguns.
Mas tem um grupo que também chama a atenção, e é grupo mesmo, são os homens de meia idade, e até um pouco mais da meia idade, que se reúnem em volta de uma mesa, para saborearem uma boa bebida e contarem vantagem uns aos outros. Quando possível ainda trocam olhares luxuriosos, libidinosos mesmo com alguma representante do sexo feminino, o que irá alimentar o seu ego por um bom tempo. Não apenas o ego será alimentado, mas é conversa garantida para os próximos encontros, para as próximas rodadas, mesmo que os olhares por parte das mulheres não tenham lá sido tão insidiosos assim. Por serem vários machos e cada um querendo chamar a atenção para si fica fácil entender que essas mesas geralmente são barulhentas. Imaginem só se fosse uma mesa de pavões macho, a loucura que seria com tantos rabos coloridos se agitando. E, havia uma mesa dessas lá na choperia e eu os observei um pouco. A conversa era bem interessante e não convém reproduzi-la aqui, mas para entenderem, basta saber que em determinado momento um dos integrantes perguntou se alguém tinha experimentado a costela de porco que certo fulano tinha preparado, ao que foi rapidamente corrigido por outro: “não é costela de porco, é costela de suíno, não se fala mais porco!”. Isso é que nível cultural pensei eu.
Logo em seguida se aproximou da mesa um grupo de jovens, daqueles recém saídos da adolescência e cumprimentaram o grupo. No meio dos cumprimentos, veio a sentença – Lugar da molecada é lá em cima – e apontaram para andar superior, onde funcionava outro espaço da casa. Até então não havia notado a movimentação do piso superior e para minha surpresa havia uma meninada, um povo jovem, com muitas belas meninas se divertindo. E eu ali, sentado em um balcão, cercado de tios. Que grande momento deprimente, esse. Ainda bem que logo fui salvo por minhas colegas que chegaram passaram a me fazer companhia.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
2 de set. de 2008
A Argentina quer jogar duro com o Brasil
Cedo pela manhã ouço esta manchete nos telejornais. Lá vem mais uma aprontada dos “hermanos”, pensei. Não dei muita bola, mas durante o dia era só o que circulava pela internet. Resolvi ir mais a fundo e vi que o presidente portenho esta muito, mas muito chateado com o Brasil. Razões não lhe faltavam.
Os brasileiros entraram na Argentina e compraram suas maiores empresas. Compramos a maior cervejaria, a maior companhia de petróleo privada, a maior produtora de cimento e outras. Vejo nisto um certo sentimento de inferioridade, pois se compramos a maior deles, é porque a nossa maior era maior que a deles. Isto me lembrou aquela história dos adolescentes que ficam discutindo quem tem o órgão sexual maior. Preocupam-se tanto com o tamanho por que ainda não descobriram pra que serve, mas tudo bem, não é só isto.
O Néstor ta brabo, até fazendo beicinho, porque o Brasil quer todos as cadeiras em organismos internacionais, quer na ONU, na FAO, na OMC e falam os maldosos que até de termos um candidato a Papa o Néstor reclamou.Vão mais longe e dizem que ele não foi ao enterro de Sua Santidade porque o Lula foi. Talvez tenha ficado intimidado com a presença portentosa do nosso aerolula. Mas nós sabemos que não é bem assim. Não ficava bem o Lula oferecer carona pro Néstor.
O Néstor não é tão mesquinho assim. Ele esta apenas tentando jogar com a opinião pública portenha. A situação doméstica dos hermanos não esta boa. Deram um calote na comunidade financeira mundial. No inicio do século XX a Argentina detinha 50% da riqueza da América do Sul, agora só tem 8%, os caras tem motivo pra se sentirem inferiorizados. A Condoleesa veio ao Brasil e não visitou as terras do prata, não quer papo com caloteiros. O tio Sam disse que só se interessa por líderes, que aqui pelas bandas do Sul o líder é o Brasil e ponto final.
Seguindo a linha do tempo da ditadura, quando entrou em guerra com a Inglaterra para que os hermanos se esquecessem da pindaíba interna, quando eles tomaram o maior pau da história, o Néstor ta procurando um bode expiatório. O que conseguiram com as Malvinas? Nada. Perderam a auto-estima, além das perdas materiais e das vidas dos coitados que morreram. Agora o Néstor quer recriar uma Malvinas diplomática.
Para piorar a situação a comunidade européia publicou seu novo mapa onde aparecem as Malvinas, ou melhor Falklands como sendo território europeu. Dizem que o Nestor perdeu toda a elegância que ainda lhe restava: como os europeus puderam fazer isto com a Argentina? Oras a Argentina também é européia, ou os europeus se esqueceram disto?!
O Néstor disse que não vai perdoar. Os brasileiros e os europeus vão se arrepender. Vai devolver o status europeu para os portenhos. Para começar mandou construir uma catedral como a famosa Notre-Dame de Paris, inclusive com direito a quasimodo tocando o sino, tal qual o corcunda se tornou personagem de fama mundial pela obra de Vitor Hugo. Os portenhos tem direito a ter o seu. Como havia um impasse sobre quem seria nomeado quasimodo, estavam indecisos entre o Dieguito Maradona e o Carlito Teves, foram consultar o poderoso Néstor para que ele decidisse. Furioso da vida e aos berros sentenciou, aquela cadeira é minha, está ninguém me tira! O Dieguito e o Carlitos que se virem como gárgulas, bradou um irritado Néstor.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
Os brasileiros entraram na Argentina e compraram suas maiores empresas. Compramos a maior cervejaria, a maior companhia de petróleo privada, a maior produtora de cimento e outras. Vejo nisto um certo sentimento de inferioridade, pois se compramos a maior deles, é porque a nossa maior era maior que a deles. Isto me lembrou aquela história dos adolescentes que ficam discutindo quem tem o órgão sexual maior. Preocupam-se tanto com o tamanho por que ainda não descobriram pra que serve, mas tudo bem, não é só isto.
O Néstor ta brabo, até fazendo beicinho, porque o Brasil quer todos as cadeiras em organismos internacionais, quer na ONU, na FAO, na OMC e falam os maldosos que até de termos um candidato a Papa o Néstor reclamou.Vão mais longe e dizem que ele não foi ao enterro de Sua Santidade porque o Lula foi. Talvez tenha ficado intimidado com a presença portentosa do nosso aerolula. Mas nós sabemos que não é bem assim. Não ficava bem o Lula oferecer carona pro Néstor.
O Néstor não é tão mesquinho assim. Ele esta apenas tentando jogar com a opinião pública portenha. A situação doméstica dos hermanos não esta boa. Deram um calote na comunidade financeira mundial. No inicio do século XX a Argentina detinha 50% da riqueza da América do Sul, agora só tem 8%, os caras tem motivo pra se sentirem inferiorizados. A Condoleesa veio ao Brasil e não visitou as terras do prata, não quer papo com caloteiros. O tio Sam disse que só se interessa por líderes, que aqui pelas bandas do Sul o líder é o Brasil e ponto final.
Seguindo a linha do tempo da ditadura, quando entrou em guerra com a Inglaterra para que os hermanos se esquecessem da pindaíba interna, quando eles tomaram o maior pau da história, o Néstor ta procurando um bode expiatório. O que conseguiram com as Malvinas? Nada. Perderam a auto-estima, além das perdas materiais e das vidas dos coitados que morreram. Agora o Néstor quer recriar uma Malvinas diplomática.
Para piorar a situação a comunidade européia publicou seu novo mapa onde aparecem as Malvinas, ou melhor Falklands como sendo território europeu. Dizem que o Nestor perdeu toda a elegância que ainda lhe restava: como os europeus puderam fazer isto com a Argentina? Oras a Argentina também é européia, ou os europeus se esqueceram disto?!
O Néstor disse que não vai perdoar. Os brasileiros e os europeus vão se arrepender. Vai devolver o status europeu para os portenhos. Para começar mandou construir uma catedral como a famosa Notre-Dame de Paris, inclusive com direito a quasimodo tocando o sino, tal qual o corcunda se tornou personagem de fama mundial pela obra de Vitor Hugo. Os portenhos tem direito a ter o seu. Como havia um impasse sobre quem seria nomeado quasimodo, estavam indecisos entre o Dieguito Maradona e o Carlito Teves, foram consultar o poderoso Néstor para que ele decidisse. Furioso da vida e aos berros sentenciou, aquela cadeira é minha, está ninguém me tira! O Dieguito e o Carlitos que se virem como gárgulas, bradou um irritado Néstor.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor e Poeta
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